A eterna saudade de um tempo que não volta atrás!

Quem nasceu e cresceu nas décadas de 80 e 90 teve um imaginário futebolístico completamente diferente dos dias de hoje. Uma realidade diferente da actual, fruto da inexorável passagem do tempo, que contudo deixou marcas a quem viveu nesse tempo. Um clube que marcou essas décadas do panorama nacional foi o Sport Comércio e Salgueiros.

Fundado em 1911 sob o nome Sport Grupo e Salgueiros, viria a adoptar a actual nomenclatura em 1920, após uma fusão com outro clube da cidade, já após se ter sagrado campeão do Porto na época 1917/1918, feito que não voltaria a alcançar. Muito popular entre a população mais humilde da cidade, o Salgueiros foi crescendo e conseguiu algumas prestações de relevo no Campeonato de Portugal, competição que antecedeu a Taça de Portugal, sem no entanto conseguir atingir o sucesso e notoriedade do FC Porto.

Até à década de 80, as prestações do Salgueiros não foram particularmente inspiradoras, nem dignas de grandes manchetes. Apenas 6 participações, repartidas pelos anos 40, 50 e 60 são o pobre registo da Alma Salgueirista. Mas tudo haveria de mudar em 1981/1982. E para melhor. Após se classificar na segunda posição da Segunda Divisão da Zona Norte, o Salgueiros qualificou-se para um mini-quadrangular, que haveria de vencer e assim conquistar o direito a regressar ao maior campeonato do país.

Seguiram-se então 20 anos muito bons para o grande Salgueiral, com a singela excepção de uma despromoção na época 1987/1988, para voltar apenas 2 temporadas mais tarde. E o regresso foi em grande. Em 1990/1991, comandados por Zoran Filipovic, os homens de Paranhos conquistaram a quinta posição no campeonato, o que lhes valeu o apuramento para a Taça Uefa. Então, a 19 de Setembro de 1991 deram-se dois baptismos na casa emprestada do Bessa. A estreia da Alma Salgueirista em provas europeias e ainda o primeiro jogo na Europa de um rapaz que há pouco tempo tinha completado 19 anos. Zinedine Zidane, conhecem? E Zizou levou que contar da Invicta Cidade do Porto. Jorge Plácido marcou o único golo da vitória do Salgueiros. Na segunda mão, o Cannes venceu por 1-0, resultado que levou o jogo para prolongamento e penalties, onde os franceses foram mais fortes.

A década de 90 seria de sucesso para os salgueiristas. Algumas épocas de aflição, outras mais desafogadas, no entanto o objectivo da permanência foi sempre alcançado. A época de 1996/97, com Carlos Manuel ao leme, deixou inclusivamente um grande amargo de boca nas hostes salgueiristas. Um penalty desperdiçado nos instantes finais da última jornada no S. Luís em Faro ditou o 1-1 final, que fizeram com que os homens de Paranhos perdessem o quinto lugar e consequente apuramento para a Taça Uefa.

Com o virar do século vieram graves problemas. A despromoção em 2002 à Segunda Divisão foi o prenúncio do que viria a acontecer apenas 2 anos mais tarde. Em 2004, devido a uma grave crise financeira, o Sport Comércio e Salgueiros abandonou o futebol profissional. O clube regressou à competição em 2008/2009 na 2a Divisão da AF Porto, época marcada por grandes assistências e entusiasmo por parte dos adeptos salgueiristas. Esta época, o Velho Salgueiral garantiu a subida ao Campeonato de Portugal, fruto do primeiro posto que ocupava na Série 1 da Divisão de Elite da AF Porto.

Mas a história do Salgueiros não se resume apenas ao futebol. O clube de Paranhos já foi campeão nacional de andebol de 7 e de 11 e é ainda o recordista de vitórias no Campeonato Nacional de Polo Aquático. São 15 os troféus nas vitrines salgueiristas, tendo 12 sido conquistados de forma consecutiva, datando o último do ano 2013.

Já dizia o poeta: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." E o povo, corajoso e perseverante, com essa enorme Alma Salgueirista, continua a percorrer essa tormenta há quase 2 décadas, com o coração a sangrar, no intuito de levar o seu Velho Salgueiral ao lugar que, outrora, lhe pertenceu.

Vasco André Rodrigues (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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