Marco Tardelli celebra o seu golo na final do Espanha 82, em que a Itália venceu a Alemanha Ocidental
Crónica o meu mundial

A liberdade de ser criança

O meu "primeiro" Mundial foi o de 1982. Talvez por ter sido em Espanha, talvez porque Portugal foi invadido pela propaganda do evento, ou porque o Naranjito aparecia na televisão vezes sem conta. Era verão, e como em todos os verões, em criança, passávamos o tempo entre a praia e a casa grande da minha tia Artemísia, que era uma espécie de albergue espanhol. Havia espaço para todos, muito para fazer e, sobretudo, diante da casa, uma rua larga, imensa, sem transito, asfaltada, que era um perfeito campo de futebol. Era verão. E como todos os verões, sentíamo-nos livres, imortais, os dias eram longos e as férias sem fim à vista. Tempo. Espaço. Imaginação.

Nesse verão, ficámos muitas vezes fechados na sala, a olhar para a televisão e a ver o Mundial. Um Mundial com Zico, Platini, Maradona, Paolo Rossi, Zico, Sócrates, Éder... Não estando Portugal, o Brasil era a nossa seleção, eles falavam a mesma língua, eram próximos, percebíamos bem o que diziam.
Já não me lembrava - tive que pesquisar - que ganhou a fabulosa Itália. E que ainda havia Alemanha Ocidental, Jugoslávia e que o mundo era outro, diferente, não sei se melhor, mas, nessa infância feliz, livre, com tempo e espaço, nada disso nos preocupava, à data.

Quando acabava um jogo, o meu irmão, o meu primo e eu saíamos a correr para a estrada asfaltada por onde não passavam carros e, achava eu, na altura, que inspirados pelo que tínhamos acabado de ver, fazíamos épicos jogos de futebol, dois contra um, à vez, sem parar, sem nos sentirmos cansados ou fartos, sem limite de tempo de jogo, sem árbitro nem substituições. Talvez seja aquilo a que hoje se chama o futebol de rua, era mais ou menos isso, a liberdade criativa de ter uma bola nos pés depois de ver um jogo dos grandes permitia-nos criar, replicar, tentar imitar e repetir, sem mais nenhuma preocupação que não fosse a de jogar, a de nos divertirmos, a de sermos felizes, sem freios, sem condicionamentos e sem regras.

Por vezes, era preciso decidir se víamos mais um jogo ou se íamos, nós, jogar. Debatido em democracia, dois contra um, ganha a maioria, a bola sempre ali, as balizas improvisadas, quando ela subia o passeio era fora, faltas marcadas em consenso, transpirados, de caras vermelhas, tão felizes, sem, como se diz hoje, sem saber que éramos felizes.

A magia do que acontecia nos relvados contagiava-nos.

E, apesar de não haver árbitro, bancadas, linhas no chão, balizas a sério ou equipamentos a condizer, tínhamos sempre um espetador. O vizinho da minha tia Artemísia, que tinha pouca mobilidade, apesar de ser novo, mas nos parecer velho, ficava horas a ver-nos jogar. O olhar para o nosso entusiasmo, para a nossa alegria, para a nossa festa, para os nossos disparates e discussões. Nunca nos disse nada. Nunca aplaudiu ou contestou. Nunca tentou ser paternalista ou metediço. Ficava apenas ali, sorria e, hoje, 40 anos depois, acho que aquele sorriso era de cumplicidade, de ternura, de alguma inveja, até. Ele talvez gostasse, se pudesse saltar o muro, talvez quisesse ir para a rua asfaltada jogar connosco. De alguma forma, acho eu, hoje, aquele sorriso era um sinal de felicidade. A felicidade de nos ver felizes, despreocupados, livres, a sermos crianças a serem crianças.

Foi o meu primeiro Mundial.

Depois desse, a vida, o futebol, o mundo, nunca mais foi a mesma coisa. Porque não se tem 11 anos duas vezes.

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