A partida do século

"Foi uma festa para recordar, daquelas que se falará quando tiverem passado muitos anos e os seus principais protagonistas estarão cada vez mais ligados à mitologia do futebol." Mario Vargas Llosa, " Un Partido Para la Memória", no jornal ABC, a 07 de Julho de 1982.

E não é que o jornalista e escritor peruano tinha razão e hoje relembraremos um dos maiores jogos da história, passados quase 38 anos do mesmo? A partida do século, de que todos, ainda, falam!

Era um Mundial que prendia o mundo! Desde logo, o primeiro a 24 equipas. Depois, aquele que seria visto, pela primeira vez, em todo o mundo a cores! As novas filmagens permitiam distinguir o amarelo e verde do Brasil, do vermelho e azul da Espanha, do azul e branco da Itália e todas as demais cores. Era o cromatismo a entrar-nos pelos olhos adentro, numa certeza de que o mundo ia além do preto e branco!

Mas era também o cheiro da prova que chegava a Portugal, não se disputasse esta no país vizinho e algumas equipas até tivessem estagiado em Portugal.

Entre elas, a Itália de Bearzot. Uma Itália que, como tantas vezes acontece com a Squadra Azzurra, nos jogos particulares não convenceu o mais otimista dos tifosi... aliás, aquele jogo, no Primeiro de Maio, frente ao SC Braga, confirmaria que os transalpinos não pareciam estar entre os principais favoritos da prova.

Além disso, o perfume fantástico que provinha da equipa, que a maioria dos portugueses apoiavam. O Brasil de Telé Santana, fruto das Quinas mais uma vez terem falhado o apuramento, e, também, pelo intenso odor a bom futebol que homens como Sócrates, Toninho Cerezo, Zico ou Falcão exalavam, recolhia a preferência de todos. Na primeira fase, no calor de Sevilha, confirmaria os seus atributos... bom futebol, jogadas de inegável magia e um verdadeiro Carnaval vivido no Verão andaluz.

Ninguém previra que estas duas seleções se haveriam de encontrar na segunda fase da prova, em que as 12 melhores subdividiam-se em quatro grupos de três equipas, passando os quatro primeiros às meias-finais da competição.

Falemos, pois, de um grupo verdadeiramente suicida, kamikaze, que levaria à partida da história, a razão principal do mundial espanhol tornar-se inesquecível, lendário. O grupo do qual constavam Brasil, Itália e a campeão do mundo em título, aa Argentina de Diego Maradona.

Diga-se, desde já, que os alvicelestes foram os primeiros a capitular! A serem incapazes de baterem Itália e Brasil, com Maradona a sair humilhado após agredir Batista, e, consequentemente, com o sonho de revalidarem o título a ter de esperar mais quatro anos, até ao México onde Dieguito foi mesmo entidade divina descida à terra!

Chegava-se, pois, àquele 05 de Julho. Em Barcelona, no Sarriá, casa do Espanyol, entravam em confronto duas filosofias futebolísticas, mas, também de vida. De um lado a fantasia, alegria e até sobranceira brasileira, perante a desconfiança, dúvida e pouca esperança italiana.

Itália que houvera passado a esta fase da prova repescada! Sem conseguir vencer qualquer jogo e sob um chorrilho imenso de críticas da aguerrida "stampa", sempre pronta a colocar em causa os seus, em momentos tipicamente transalpinos. E haviam-no feito de tanta maneira, desde colocar em causa o seleccionador, questionar as suas escolhas para a prova, duvidar da equipa titular e até ter tempo para lançar alguns mexericos como uma pretensa relação homossexual entre o lateral esquerdo Cabrini e o avançado

Rossi. Rossi, que depois de ter cumprido um castigo por ter papel activo no escândalo do jogo combinado por causa do Totonero, uma espécie de totobola transalpino, tinha visto a sua pena reduzida e fora aposta de Bearzot, perante a estupefacção geral do país da Bota. A primeira fase havia dado razão aos críticos, com o avançado juventino a ser incapaz sequer de criar perigo... Rossi não podia jogar, o lugar deveria ser de Graziani clamava o país... Bearzot, "Il Vecchio" defendia o seu jogador e seria com ele que iria ousar colocar o Brasil com dúvidas!

E de que maneira... Perante um público efervescente e sob um calor escaldante e com o escrete, ultra favorito, fruto do maior número de golos a bastar-lhe apenas um empate, o mundo abriria a boca de espanto, apenas com cinco minutos de jogo. Cabrini, " Il bel"Antonio", como lhe chamavam os seus, calava os seus detractores com um centro milimétrico para o coração da área, onde Rossi num cabeceamento passou de odiado a amado! Waldir Peres batido e a Itália a usar a eficácia que sempre amou ostentar.

Faltavam 85 minutos, tempo para os sul-americanos darem a volta, demonstrarem a magia que o mundo lhes reconhecia. Seria uma questão de tempo, algo confirmado pelo empate quase instantâneo de Sócrates, após drible mágico e assistência de Zico. O perfume brasileiro, com samba no pé e Carnaval na bancada...era a normalidade que regressava de mão dada com o calor catalão. O Brasil iria arrasar a selecção que, na primeira fase, nem à Polónia, nem aos Camarões, nem sequer ao Perú conseguiu vencer.

Mas era dia do mundo abanar, ficar chocado, surpreendido! Passados uns míseros nove minutos, a sobranceria brasileira de querer jogar bonito em zonas proibidas levaria Cerezo a fazer um passe para a terra de ninguém, deixando Luizinho e Falcao a olharem um para o outro! Um felino Rossi aproveitaria e voltaria a colocar os europeus em vantagem, para choque global.

Chegar-se-ia assim ao intervalo. O mundo ainda não estava preparado para o choque e o status quo previsivelmente iria ser reposto.

O Brasil fez por isso na segunda metade. Massacrou, ainda que as suas dificuldades de marcação fossem evidentes. A Azurra essa estava nas suas sete quintas...a defender bem, a suster os ataques contrários e a lançar contra-ataques impiedosos, sob a batuta do Príncipe de Florença, Antognoni, e do mago romano, Bruno Conti. Um hino ao futebol, em suma!

Hino esse que ganhou acordes de samba quando Falcão, à entrada da área, disparou, de modo inapelável, para as malhas de Zoff. Era o mundo a voltar a rodar na direção certa, prevista, rumo ao escrete carimbar a passagem para os quartos de final.

Todavia, aquele dia não era para Carnaval, para sambas! Passados nove minutos, um canto para a Squadra, atrapalhação na defesa brasileira para desfazer o lance e a bola a chegar a Rossi que só teve que desviar. O homem, que nem na bola tocava na primeira fase, fazia um hat-trick e garantia que o mundo o haveria de lembrar por bons motivos, ao invés das apostas ilegais!

O escrete haveria de carregar, de modo desabrido, no quarto de hora final. Teria oportunidades, tentaria a sua sorte, mas os desígnios do esférico, da sorte e a experiência do capitão Zoff segurariam a vitória italiana, talvez o mais surpreendente dos resultados na partida que, alguns, alvitraram ter sido a do século. Ousamos não discordar e fazer nossas as palavras de Piero Trellini, autor do livro "La Partita", ao dizer que, "em 2010, a Time decretou o Itália-Brasil" não só como o melhor encontro de sempre de um Campeonato do Mundo, mas o melhor jogo de futebol de toda a história." Ao definir aquele jogo como o mais belo do século, tirou do pedestal outro jogo dos Azzurri, o Itália-Alemanha de 1970, vencido pelos italianos por 4-3, que até aquele momento detinha essa honra. A partir daí, a batalha do Sarriá tornou-se "a partida."

Por fim, a Itália sagrar-se pela terceira vez campeã mundial. Rossi marcaria nas meias finais frente à Polónia e na final frente à Alemanha e sagrar-se-ia melhor marcador e os esquemas das apostas ilegais seriam, definitivamente, esquecidos. E o Brasil... entraria no coração dos apaixonados do futebol, por ter sido uma das mais belas equipas de sempre...ainda que nada ganhando!

Vasco André Rodrigues (A Economia do Golo)

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo*

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