Vila Nova de Gaia, 13 / 02 / 2013 - Conferência de imprensa de Vitor Pereira treinador principal de futebol
FC PORTO-BENFICA

A pressão do Porto e a linha defensiva de Jesus. Vítor Pereira e o clássico

Num período de pausa na carreira, Vítor Pereira pega no quadro tático e explica à TSF o que lhe desperta, enquanto treinador, curiosidade neste clássico de sexta-feira à noite.

No futebol nada se faz sem tempo e o tempo da pandemia é diferente do tempo habitual, mesmo num clube onde a pressão é proporcional ao número de adeptos, ao palmarés ou aos valores investidos. Nada se faz sem tempo, explica Vítor Pereira, e Jorge Jesus tem sido vítima do tempo, ou da falta dele. Os efeitos dessa escassez, são, no entender do treinador duas vezes campeão como técnico principal dos dragões - outra como adjunto de André Villas-Boas - um dos pormenores mais interessantes no jogo entre FC Porto e Benfica desta sexta-feira.

Numa conversa telefónica, recem regressado da China onde trabalhou nos últimos anos, Vítor Pereira não hesita quando questionado sobre as dificuldades do Benfica no regresso de Jesus. "Falta tempo de trabalho. Fundamentalmente, tempo de trabalho", começa por apontar. Vale pouco a Jorge Jesus o histórico na Luz, são águas passadas. "Jorge Jesus chegou do Brasil há alguns meses, a equipa tem jogadores novos, é um treinador novo, que apesar de ter estado vários anos no Benfica não deixa de ser um treinador novo". E o tempo da pandemia é diferente do tempo habitual do futebol. "Segundo o que tenho ouvido houve algumas quebras no que diz respeito à preparação, com os períodos de seleção, depois alguns problemas com o vírus. Nota-se ali que as coisas ainda não estão ligadas, não há um equilíbrio", observa Vítor Pereira.

Por termo de comparação, Vítor Pereira recorre ao exemplo do outro gigante da segunda circular, líder à passagem da jornada 14, jornada de clássico no Dragão. "O Rúben [Amorim] tem beneficiado um bocadinho do facto de não estar nas competições europeias. Não está, e por isso tem mais tempo. É diferente treinar de semana a semana ou jogador de três em três ou de quatro em quatro dias".

"Na China o meu problema foi exatamente o contrário", demasiado tempo com os jogadores explica o treinador sobre a experiência em Shanghai e na fase final da Liga dos Campeões asiática, no Qatar. "Tivemos uma bolha, juntos durante quatro meses no pequeno-almoço, no treino, no almoço, no jantar. Tudo isso, sem desligar do futebol, cansa, traz problemas ao fim de algum tempo. O futebol atual está um pouco desligado, um pouco triste, não há aquela convivência habitual dos grupos (...) ao Benfica, provavelmente, está também a faltar isso".

Desalinhados

Mas afinal o que mudou com a pandemia? Vítor Pereira explica com recurso ao calendário, não o de jogos, mas sim aquele em que desenham os ciclos de treino na equipa técnica. "Uma coisa é trabalhar com subgrupos. vamos imaginar: jogamos no domingo e temos novo encontro na quarta-feira. Quem jogou no domingo faz recuperação [segunda e terça], enquanto se trabalha com o restante dos jogadores. Trabalham-se subgrupos mas não a estrutura, e trabalhar a estrutura é fundamental para adquirir comportamentos".

Vítor Pereira explica o que observa do comportamento do Benfica em campo. "[A organização defensiva] implica tempo de trabalho. Se não tivermos esse tempo haverá sempre o jogador que salta na pressão, um jogador que quando a linha reduz o espaço na profundidade se esquece... ou então estão a saltar na pressão é há um que fica na profundidade. Estamos a falar de pormenores que têm de ser corrigidos e que só com tempo de trabalho se consegue", aponta sobre a linha defensiva, onde como titulares têm atuado Gilberto (André Almeida está lesionado), Otamendi, Vertonghen e Grimaldo, três "reforços" ao lado do espanhol que já falhou várias partidas esta época.

Talvez por isso, do ponto de vista do Benfica, e do seu velho conhecido Jorge Jesus, Vítor Pereira aponta a correção dos erros como um dos pormenores a que as águias têm de estar atentas nesta partida. Do outro lado, sugere o treinador, vai estar uma equipa agressiva, suficientemente madura para esperar pelo momento certo para tirar uma vantagem decisiva na partida.

O que vê o treinador à frente da televisão

Desafiamos Vítor Pereira a explicar a que vai estar atento neste jogo. O treinador saiu recentemente da China, do Shanghai SIPG onde foi campeão. Agora quer tempo para estudar futebol. Talvez tome algumas notas sobre o Futebol Clube do Porto vs Benfica desta sexta-feira.

"O FC Porto continua, fundamentalmente, a ser uma equipa consistente do ponto de vista defensivo", sublinha o treinador, "Mesmo os jogadores que entraram já estão identificados. A equipa está consistente do ponto de vista defensivo", avalia. Sérgio Conceição tem a seu favor os anos de experiência acumulada, o tempo passado com muitos dos jogadores do plantel campeão nacional no ano passado.

O ouro e o bandido. FC Porto sem bola e o Benfica com ela.

O jogo da Supertaça é um bom ponto de partida para analisar aquilo que pode acontecer agora, no campeonato. "O FC Porto ganhou a Supertaça de uma forma clara. Acabou por ganhar com justiça", considera. Por isso, vai tentar explorar a primeira fase de construção do Benfica. O Benfica está saindo curto, pode esperar pressão alta do Futebol Clube do Porto, sobre isso não tenho dúvidas".

"Num bloco intermédio [o Futebol Clube do Porto] vai tentar, numa segunda fase, que o Benfica cometa erros na construção. Habitualmente o Benfica projeta laterais, naturalmente e na sua dinâmica ofensiva, projeta os dois alas e dá espaço central/lateral. Acredito que o Porto vai tentar explorar esses momentos do jogo", assevera.

Para o Benfica há que evitar erros. A qualidade individual é latente, mas precisa da organização. "O Benfica terá que ter, na minha opinião, inteligência para não dar o ouro ao bandido numa primeira fase de construção. Jorge Jesus tem de encontrar soluções de saída que lhe permitam explorar esta primeira pressão do Futebol Clube do Porto. Numa segunda fase (e terceira) de construção tem de estar equilibrado. Caso contrário vai estar exposto às transições rápidas do Porto", avalia Vítor Pereira, lembrando cenários vistos tanto na Supertaça como noutros jogos recentes das águias.

FC Porto com bola, Benfica sem ela

"Acredito que em termos de construção o porto vai tentar o que tentou na Supertaça. Uma construção mais longa no sentido de explorar os centrais, e mais sobre o lado esquerdo da defensiva do Benfica", analisa Vítor Pereira. "Foi isso que fez da última vez, com os pontas de lança a serem profundos num primeiro momento e depois a aparecer a equipa rápido nas segundas bolas, e em apoio", sublinha recordando a vitória dos dragões por 2-0 em Aveiro.

"Para mim, Taremi veio dar qualidade ao Futebol Clube do Porto. Marega mais no espaço, Taremi entre linhas, podem ser uma dupla difícil de controlar". São os destaques individuais para este jogo de Vítor Pereira, mas também parte da explicação sobre a possível forma de jogar no estádio do Dragão esta sexta-feira.

Na Supertaça alinharam Taremi e Marega de início. Taremi com alguma surpresa nesse jogo, mas não mais saiu das opções de Sérgio Conceição. O iraniano fez cinco golos em quatro jogos como titular, ora com Marega, ora com Toni Martínez na frente. É uma das armas de Sérgio Conceição, uma das novas peças que, depois de algum tempo, se juntaram a um grupo coeso, que conhece as ideias do treinador, aponta Vítor Pereira. Mais uma vez o tempo a fazer a diferença.

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