"Acabando a sede, não temos onde pôr os atletas"

Clube de Carnide luta contra ação de despejo da sede onde está há 90 anos.

Se nada mudar, a 31 de agosto o Carnide Clube perderá a sede social, colocando em risco dezenas de atletas de cinco modalidades federadas.

Este clube, fundado em 1920 (fará 98 anos em novembro), ocupa um edifício antigo no largo do coreto, na zona histórica de Carnide, em Lisboa. "O proprietário é a marquesa do Lavradio, herdeira dos condes de Carnide que eram os donos do edifício", explica Tânia Estronca, 42 anos, residente no bairro e presidente da direção.

Em abril passado, o clube recebeu uma carta indicando que o contrato de arrendamento, de "250 euros mensais", não seria renovado. "A justificação não foi muito grande, disseram simplesmente que queriam ficar com o edifício para eles", explica a dirigente.

A direção do clube mobilizou-se para tentar evitar o despejo e levantou o problema junto da Presidência da República, Governo, partidos políticos e na comissão de Desporto, Comunicação e Cultura, da Assembleia da República. "O que nos disseram foi para tentarmos que a câmara faça a expropriação por interesse público do espaço". Esse é aliás, o objetivo de uma petição que foi colocada na internet e que circula em papel no bairro "porque as pessoas mais velhas não têm acesso à internet".

"Temos também já um processo em andamento para pedir o Estatuto de Identidade de Interesse Histórico, Social e Cultural", uma figura legal criada em junho de 2017 que, à semelhança das Lojas com História, dá proteção às coletividades que constituam "relevante referência cultural ou social a nível local". Tânia Estronca pretende "ganhar algum tempo para poder tentar combater" a perda da sede social, mas receia que burocracia atrase a eventual declaração legal de proteção.

No edifício sede do Carnide Clube funciona também um pequeno ginásio onde "30 a 40 atletas" praticam karaté, taekondo e kickboxing, esta última modalidade que "já deu um campeão europeu ao clube". A ameaça de ficar sem ginásio "é o caso mais preocupante porque não temos onde pôr os atletas. Acabando aqui a sede, acaba o ginásio. Vai ser muito complicado, é onde os treinadores se reúnem, onde temos o nosso material".

Com cerca de 600 sócios (quotas anuais de 10 euros) e 700 atletas, o Carnide Clube é uma referência no Basquetebol. "Depois de Benfica, FC Porto e Sporting somos o clube com mais títulos em Portugal". No total, são sete conquistas nacionais. A última foi esta época. A equipa feminina conseguiu subir à liga profissional. "Vamos ter de dar condições às atletas porque elas merecem", antecipa a presidente do Carnide sublinhando a "grande incerteza" que é "não termos a nossa casa para preparar a próxima época".

As equipas de basquetebol e de futsal do Carnide jogam no pavilhão municipal do bairro Padre Cruz, pelo que os jogos não deverão estar em causa. "Mas tudo se torna muito difícil", incluindo a gestão do projeto que o clube diz ser "a maior escola de basquetebol do país" e que funciona com alunos de escolas e jardins-de-infância de Carnide, Lumiar e Brandoa.

"Este projeto é uma das nossas principais bandeiras porque levamos o basquete, desporto elitista como é conhecido, a todas as crianças com ou sem possibilidades de o praticar. Se tivermos de alugar uma sede, de fazer tudo fora daqui, será muito complicado, muito!", enfatiza a dirigente.

Sem saber onde vai funcionar o Carnide Clube a partir de setembro, Tânia Estronca refere que "tudo corre risco", mas garante que a direção "não vai deixar cair nenhum projeto" e continuará a lutar para que o clube "onde começou o ciclista Joaquim Gomes" não morra.

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