Agora, é só para quem não hesita nem facilita
Crónica o meu mundial

Agora, é só para quem não hesita nem facilita

Virada a página da primeira fase, começou a etapa em que as grandes decisões do Mundial vão aparecer. Isto é tão mais relevante quanto sabemos que a história da competição é como nas farmácias: há de tudo. Desde aqueles que responderam bem quando contavam os pontos, mas que caíram logo no primeiro obstáculo a eliminar, até aos que tiveram um arranque deplorável e acabaram campeões.

No meio disto está Portugal, o candidato-que-não-é-favorito, algo que poderia traduzir-se desta forma: não é obrigado a vencer, porque não é favorito, mas também não pode limitar-se a picar o ponto, porque é candidato.

Estar nos oito melhores é o patamar mínimo exigível, pelo que passar a Suíça é o que se espera. E isto, já todos percebemos, só é concretizável se não se repetirem as falhas (diferentes, mas reais) das partidas com Gana e Coreia do Sul.

Esta introdução aparece aqui porque terminou a margem de erro para todas as seleções. Uma derrota implica ficar a ver o resto do Mundial na televisão. Daí que, até agora e não por acaso, Países Baixos, Argentina, França e Inglaterra entenderam que quando se luta pela sobrevivência não há hesitações nem facilitismos. Calcula-se que outros, com igual obrigação, sigam o exemplo.

No lote das grandes deceções (há sempre nas primeiras fases) salta de imediato o afastamento da Alemanha, o que sucede pela segunda vez consecutiva. É uma das tais anormalidades que levariam a um terramoto interno noutro país qualquer, mas que, se bem os conhecemos, obrigará os germânicos a mais uma daquelas introspeções que levam ao ressurgimento a curto prazo. Veremos.

Bélgica, em fim de ciclo de uma geração da qual se esperava imenso só que nunca passou de eterna promessa, Dinamarca e Uruguai (que também fecha um ciclo) são as outras três baixas algo inesperadas da fase inicial.

De qualquer modo, este Campeonato do Mundo deixa, por ora, alguns pontos de reflexão que só o futuro poderá descodificar com maior precisão.

Para começar, aquilo a que se alude como a questão continental. Nenhuma seleção conseguiu concluir o arranque com três triunfos, o que poderia ser interpretado como uma alteração nas diferenças que normalmente se detetam entre as origens dos vários continentes. Aliás, pela primeira vez, três seleções da confederação asiática (embora a Austrália o seja formalmente, não do ponto de vista geográfico) atingiram os oitavos.

Apesar do modo menos exigente como alguns encararam a última jornada por já estarem qualificados (França, Portugal e Brasil), é notório o crescimento dos métodos de trabalho que conseguiram transformar seleções sem grandes individualidades - embora cada vez com mais jogadores rotinados no andamento europeu - em coletivos que respondem a boa parte das exigências.

A Coreia do Sul não se pode resumir a Son e o Senegal nem sequer pôde contar com Sadio Mané. Além do caso paradigmático do Japão cujo perfil combativo e de afirmação quase nacionalista lhe permitiu algo impensável como derrotar Alemanha e Espanha numa mesma competição. Isto e um calculismo pouco comum.

No entanto, é cedo para tirar conclusões definitivas sobre o que futuros Mundiais nos podem reservar. Não estamos perante uma novidade, pois em 1994 também ninguém foi totalista na fase inicial e, depois, voltámos ao habitual. Mas que devemos levar em conta o que agora sucedeu, sem dúvida.

O outro ponto a reter tem a ver com a tecnologia que, desta vez, não se limitou àquilo com que normalmente lidamos. Agora, ficámos a saber que é possível conferir se a bola tocou no cabelo de um jogador ou que não ultrapassou na íntegra uma linha por pouco mais de um milímetro.

Para aqueles que reclamavam uma tomada de decisões assente no apuramento rigoroso dos factos, tão preciso como no ténis, tudo o que se tem visto neste Mundial é uma bênção. Convenhamos, quanto menos hipótese de erro existir melhor para o futebol. Mas é bom que os adeptos comecem por perceber que esta tecnologia topo de gama não é ainda possível de aplicar em todos os jogos e em todas as competições. Se é que me faço entender...

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