Do campo de refugiados para o campeonato português

Nasceu no Sudão do Sul em pleno clima de guerra, agora joga no país do ídolo de infância. A incrível história de Awer Mabil.

PorNuno Miguel Martins
© Miguel Pereira/Global Imagens

Com apenas 240 minutos jogados em cinco partidas do campeonato e da taça, não se pode dizer que Awer Mabil seja propriamente uma das principais figuras deste início de época, mas a improvável história deste australiano que veio da Dinamarca para o Paços de Ferreira não deixa ninguém indiferente.

Reportagem de Nuno Miguel Martins

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A história de Mabil começa antes do Quénia, antes de Kakuma, começa no Sudão do Sul. Foi daí, por causa da guerra, que os pais de Mabil fugiram e foi já no campo de refugiados de Kakuma, que Awer Mabil nasceu e cresceu até aos 10 anos. Um início de vida difícil que moldou o caráter do jogador.

"Era uma vida muito dura mas ao mesmo tempo muito divertida para um miúdo porque nós não pensávamos muito nas condições em que vivíamos. Desfrutávamos dos amigos, da família jogávamos futebol todos os dias, desde que me lembro".

A vida no campo era difícil mas livre e era a jogar futebol que Mabil sentia essa liberdade em pleno, apesar de nem uma bola ser fácil de arranjar.

"Tínhamos de improvisar, juntar lixo, tipo papel, ou rasgar as roupas e fazer uma bola com os trapos. Quando queríamos uma bola que saltasse tínhamos de arranjar uma luva de médico, enchê-la de ar e envolvê-la com lixo ou trapos".

Estas dificuldades apuraram a técnica e ajudam-no hoje que é um futebolista profissional. O resto aprendeu na televisão, o que no campo de Kakuma implicava uma caminhada de quase um hora e tentar ver, entre milhares de pessoas, o jogo que passava no televisor. No campo de refugiados com 9 anos de idade, o ídolo de Mabil era um jovem algo arrogante que tinha acabado de assinar um contrato com o Manchester United. Cristiano Ronaldo.

"Ele teve um grande impacto na forma como muitos miúdos do mundo inteiro jogam. Ele é livre, marca golos e enfrenta os adversários e isso é bom para os adeptos."

Em 2006, perto de completar 11 anos, a vida de Mabil muda por completo. A família consegue um visto humanitário para a Austrália e, com a mãe e os irmãos todos se mudam para o outro lado mundo. A adaptação não foi fácil.

Foi na Austrália que Mabil foi à escola pela primeira vez, foi lá que calçou as primeiras chuteiras e que jogou numa equipa a sério. Em cinco anos tornou-se profissional, estreou-se na primeira liga e ganhou o estatuto de internacional.

Em breve estava a caminho da Dinamarca para assinar um contrato com o FC Midtjylland, num percurso que o trouxe por empréstimo dos dinamarqueses até ao Paços de Ferreira. A jogar no país do ídolo de infância, Mabil mostra-se impressionado com a qualidade das equipas mais pequenas em Portugal e houve logo um jogador que lhe chamou a atenção.

"O Brahimi do FC Porto. Impressionou-me bastante. Joguei contra ele na pré-época, pude ver como joga e gosto muito dele", conta.