Bendito seja D10S. Maradona partiu, mas a Igreja Maradoniana ficou

Rosario, Argentina. O ano é 1998. Hernán Amez quis que fosse Natal em outubro. Era o aniversário de Maradona.

E se o Natal fosse a 30 de outubro? E se 2020 não for realmente o ano de 2020 depois de Cristo, mas sim o ano 60 depois de Diego? Tudo isto é verdade para os milhares de fiéis que, um pouco por todo o mundo, compõem a Igreja Maradoniana.

Tudo começou em 1998. O calendário marcava o dia 30 de outubro e Maradona fazia 38 anos. Algures na cidade argentina de Rosario, o jornalista Hernán Amez decidiu festejar, nesse mesmo dia, um novo Natal. A única diferença é que o nascimento celebrado não era o de Jesus, mas sim o de Diego Armando Maradona.

Nasceu assim o culto a D10S, uma junção da palavra Dios com o 10 que Maradona carregava nas costas. E se há um novo Natal, tinha de haver também uma nova véspera de Natal: a noite de 29 de outubro passou, assim, a ser a Noche Buena.

E se há Natal, há Páscoa? Há. O dia escolhido foi o 22 de junho. Porquê? A resposta são dois golos: foi nesse dia que, em 1986, Maradona marcou dois golos à seleção de Inglaterra. A Argentina acabaria por sagrar-se campeã mundial nesse verão, no México.

Mas Amez não estava sozinho nesta nova religião. Héctor Campomar e Alejandro Verón foram também pais desta nova igreja. E, como em qualquer religião, há também um conjunto de textos centrais a partir dos quais os crentes bebem conhecimento. Neste caso, os textos sagrados chamam-se "Yo Soy El Diego De La Gente", a biografia escrita pelo jornalista Daniel Arcucci.

Que se desengane quem pensa que Maradona não tem, como Jesus teve, os seus apóstolos. A diferença é que são dez - ou seja, é Maradona mais dez -, à semelhança do que acontece dentro de campo. E nenhum é equiparado a Judas, garantiu Verón ao Expresso numa entrevista em 2018.

E Satanás? Também não há, embora tenham chegado a pensar em Pelé. "É o rei do futebol. Até esse ponto ele chegou. Mas Diego é Deus: está acima", esclareceu também Verón.

Há também mandamentos. Dez, como os da Bíblia Sagrada. O primeiro mostra bem ao que vai quem entra nesta aventura: "Amar o futebol acima de todas as coisas", como Maradona fez ao ponto de querer um agradecimento "à bola" na sua lápide.

Os dez mandamentos da Igreja Maradoniana:

- Amar o futebol acima de todas as coisas.

- Declarar amor incondicional a Diego e ao futebol.

- Espalhar os milagres de Diego por todo o universo.

- Não proclamar Diego em nome de um só clube.

- A bola não será manchada (sobre os problemas fora do campo).

- Defender a camisola argentina e respeitar as pessoas.

- Honrar os templos onde jogou e os seus mantos sagrados.

- Predicar os princípios da Igreja Maradoniana.

- Usar Diego como segundo nome e dá-lo ao filho.

- Não ser cabeça de garrafa térmica e que a tartaruga não fuja (que, numa tradução livre maradonianês-português seria algo como "Não ter a mente fechada e não ser lento/ficar para trás").

Na mão de D10S

O ritual de entrada oficial na religião, tal como no Catolicismo, é o do batismo. Mas aqui não há água vertida. A iniciação consegue-se não através das mãos de Deus, mas sim através da "mão de deus". Ou seja: o candidato deve reproduzir o famoso golo que Maradona marcou com a mão contra a Inglaterra, em 1986. E nada de usar a mão direita: foi a esquerda que marcou, é a esquerda que deve ser usada. E há que recitar, com sucesso, os dez mandamentos.

Depois, cada recém-batizado recebe um certificado que atesta a condição de membro da Igreja Maradoniana.

Pode, então, começar a recitar também as orações maradonianas: Diego Nuestro (Pai Nosso), D10s te Salve (Avé Maria) e um Credo, cuja primeira frase é "Creio em Diego".

E então, afinal, em que ano estamos? A Igreja Maradoniana é clara: os anos separam-se entre Antes de Diego (AD) e Depois de Diego (DD). E se o lendário Diego nasceu em 1960 e os comuns mortais contam agora o ano de 2020, as contas são fáceis: este é o ano 60 DD. E Maradona escolheu-o para sair de campo.

"Diego." Que é como quem diz, em maradonianês, "Ámen".

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