Benfica: a última viagem do Grande Torino. Crónica de uma tragédia aérea

Há 70 anos um acidente aéreo punha fim a uma das mais brilhantes gerações do futebol italiano. O final trágico do Grande Torino cruza-se com o Benfica e o Sporting. Mas esta não foi a única fatalidade do popular clube de Turim.

Em 2016, o avião em que seguia a equipa da Chapecoense - clube de futebol brasileiro da cidade de Chapecó, Estado de Santa Catarina - despenhou-se, provocando a morte a vários jogadores da equipa. Não foi a primeira vez que o avião de uma equipa de futebol se despenhou. Em 1958, vários jogadores do Manchester United perderam a vida quando o avião em que seguiam se despenhou ao descolar de Munique. Mas nenhuma outra tragédia teve as repercussões daquela que ocorreu há 70 anos.

Em maio de 1949, Itália procurava reerguer-se do fascismo e da Segunda Guerra Mundial. No caminho da República, uma equipa de futebol servia de porta-estandarte: o Torino. O clube jogava um futebol de ataque e batia sucessivamente recordes de goleadas. Nas partidas disputadas no seu estádio, contavam com um reforço especial: o trompetista Oreste Bolmida, que, ao quarto de hora de jogo, tocava das bancadas para o início de 15 minutos de assalto constante à baliza adversária.

"Ontem, às 17 horas, a equipa do Torino chegou, felizmente, a Lisboa, depois de uma viagem aérea bastante perigosa, entre rajadas de vento e ondas de chuva." É desta forma que começa o artigo do jornal italiano La Stampa, de 3 de maio de 1949, em que anuncia a chegada dos transalpinos a Lisboa para defrontar o Benfica.

O artigo é assinado pelo enviado especial, Luigi Cavallero , e revela o medo sentido nessa viagem "perigosa". É o presságio do triste destino que, em dois dias, aguarda todos os protagonistas da viagem, incluindo Cavallero.

Às 17h05 de 4 de maio, a história do futebol italiano mudou. No regresso a Itália, e quando se preparava para a aterragem sob intenso nevoeiro, o avião trimotor Fiat-G212 inicia uma descida íngreme contra a parede da Basílica de Superga, nos arredores de Turim.A bordo seguiam 31 passageiros, entre os quais 18 futebolistas. Não houve sobreviventes. Foi a última viagem do Grande Torino.

"Uma geração perdida", as palavras de Gertrude Stein - imortalizadas por Ernest Hemingway na epígrafe do livro 'Festa em Paris' - visavam os escritores norte-americanos, mas poucas expressões assentam melhor ao Grande Torino: uma geração perdida.

Portugal na rota da tragédia

O Grande Torino ganhou cinco ligas entre 1942 e 1949, todas as disputadas, já que o 'calcio' foi interrompido devido à Segunda Guerra Mundial. A equipa capitaneada por Valentino Mazzola tornou-se no principal fornecedor de jogadores para a seleção italiana. Num jogo amigável contra a Hungria, em 1947, a equipa 'azzurra' alinhou com 10 dos jogadores do Grande Torino.

E foi um amigável que esteve na origem da tragédia. Os italianos vieram a Lisboa, convidados pelo Benfica, para disputar uma partida de homenagem ao médio centro Francisco Ferreira. Não era a despedida do futebol do capitão encarnado, mas um encontro internacional e uma forma dos transalpinos conhecerem o futebol português, tendo em vista a preparação do jogo com o Sporting, na final da primeira edição da Taça Latina.

Ou, talvez, fosse apenas uma maneira de selar a amizade entre o presidente do Torino - e selecionador italiano - Ferruccio Novo e 'Xico' Ferreira, uma amizade nascida alguns meses antes, em Génova, aquando de uma partida entre Itália e Portugal. Apesar disto, Ferruccio não tinha viajado para Lisboa por estar de cama com uma violenta broncopneumonia.

O jogo decorreu de forma verdadeiramente amigável, sem disciplina tática, com muitos golos, ações ofensivas e boas defesas. Os encarnados venceram por 4-3, com um golo (4-2 por Rogério) em "fora de jogo claro", pelo menos de acordo com Cavallero. Seguiu-se uma grande penalidade a favor do Torino, convertida por Valentino Mazzola. Um golo inútil, mas que seria o último.

A verdadeira derrota do Torino surgiria na viagem de regresso a Itália. A equipa de Turim decidiu passar a noite em Lisboa e só na manhã de 4 de maio o avião partiu, fazendo escala em Barcelona. A escassos 20 quilómetros de casa, os heróis do 'Toro' assistiram à sua própria tragédia.

Nas últimas jornadas do campeonato, o clube alinhou com a equipa de juniores, e ainda assim sagraram-se campeões. Depois, seguiram-se anos muito difíceis, e o Torino só voltou a erguer o 'Scudetto' em 1976 - 27 anos depois.

Coincidências trágicas

Uma longa e ininterrupta procissão prestou homenagem às vitimas, alinhadas no Palazzo Madama e, de acordo com os jornais da época, mais de meio milhão de pessoas assistiram aos funerais. Representantes de todos os clubes italianos marcaram presença e, em representação do Governo, surgiu o jovem Giulio Andreotti. Na ocasião, o historiador Indro Montanelli declarou: "Os heróis são sempre imortais aos olhos daqueles que acreditam neles."

Nos últimos 70 anos, têm-se repetido as homenagens aos "heróis de Superga". No local do acidente foi descerrada uma lápide, em Turim foi criado um museu, e há até quem acredite que o carro que dá nome ao filme de Clint Eastwood, 'Gran Torino', foi assim batizado em homenagem à mítica equipa . Certo é que ainda hoje são raros os bares e cafés de Turim que não ostentam orgulhosamente uma foto do Grande Torino.

Todos os anos, a 4 de maio, as homenagens multiplicam-se e são transversais a todo o futebol italiano. Em 2017, o capitão do rival de Turim, Gianluigi Bufon, saiu em defesa da memória dos "campeões do Grande Torino", depois um grupo de adeptos 'da Juventus ter pintado as paredes de Superga com mensagens de regozijo pelo acidente.

Para assinalar o septuagésimo aniversário, para além da habitual missa na basílica e evocação dos nomes das vitimas junto à lápide no local do embate, irá estrear um musical, será lançada uma coleção de selos, o Centro Italiano de Fotografia em Turim inaugura uma exposição, e há ainda o lançamento do livro 'Grande Torino, minuto per minuto'.

As coincidências e fatalidades parecem ser uma espécie de fio condutor invisível da historia do clube de Piemonte. O avião que se despenhou era pilotado por Luigi Meroni, homónimo de 'il Rivoluzionario' - a estrela maior do Torino nos anos 60 - e veio a morrer atropelado num acidente em 1967. O condutor do automóvel era Attilio Romero, que viria a ser presidente do clube entre 2000 e 2005, época em que o clube faliu e teve que ser refundado.

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