Campeonato Nacional 1993/1994. Uma temporada peculiar

Em 1993/94 tudo era diferente... até o número de pontos. Foi o penúltimo Campeonato em que uma vitória valia dois pontos (o empate os mesmos 1 e a derrota 0).

A denominada "Geração de Ouro" do futebol português estava em peso nesse Campeonato Nacional. Luís Figo já era titularíssimo do Sporting Clube de Portugal (tendo dado o salto, não no final dessa época, mas em 1995, para o Barcelona). Vítor Baía já era o indiscutível da baliza das Antas (o tão antigo como emblemático estádio do FC Porto). Jorge Costa já se assumia como alternativa no eixo da defensiva portista, onde Fernando Couto era dono e senhor do lugar. No final dessa mesma temporada, tal como sucedeu com Rui Costa, o habitual "10" do Benfica, e Paulo Sousa (Sporting), a Serie A chamou por Couto, concretamente o na altura milionário Parma.

Rui Jorge despontava também na faixa esquerda da defensiva do Porto, tal como Abel Xavier, mas no lado direito, no ninho da águia. Paulo Sousa, esse, protagonizou a novela do verão juntamente com Pacheco. O Benfica, a braços com uma grave crise financeira, com Jorge de Brito, presidente da altura, a procurar «tapar» as várias fissuras financeiras benfiquistas, no que ficou conhecido na Luz como «verão quente», não conseguiu fazer frente à pujança financeira leonina da altura (liderado pelo impaciente Sousa Cintra) e deixou escapar os dois jogadores (que estavam ainda sob contrato pelo Benfica) para o outro lado da segunda circular.

O golpe de Cintra dado à águia podia até ter sido maior caso o mesmo tivesse sucedido com João Vieira Pinto, mas Jorge de Brito puxou dos cordões à bolsa, aumentou a parada e João Pinto ficou mesmo. Esse complexo resgate valeu, muito provavelmente, o campeonato ao SL Benfica, tendo na altura a jovem águia constituído a unidade mais influente ao longo da época, especialmente no «jogo do título», que opôs os verde e brancos aos encarnados, no célebre 3-6 em Alvalade, em que JVP brilhou com um hat-trick. Um resultado histórico, na 30.ª jornada do certame, que cimentou a águia na liderança e a levou ao título, resgatado ao FC Porto. Título esse que marcou o início da maior travessia no deserto da equipa da Luz no que a campeonatos diz respeito. Só 11 anos depois, em 2004/05 com Trapattoni, voltara a conquistar o mais prestigiado cetro nacional.

De resto, não só da "Geração de Ouro" e de outros jogadores portugueses se fazia a qualidade do Campeonato. Nomes como Ljubinko Drulovic (que a meio dessa temporada trocou o Gil Vicente pelo FC Porto), Emil Kostadinov (o búlgaro goleador dos dragões), Aloísio (internacional brasileiro e um dos melhores centrais da história do Porto), Andrzej Juskowiak (o portentoso avançado polaco do Sporting), Ivaylo Yordanov (provavelmente o estrangeiro com mais sangue verde), Krasimir Balakov (o fabuloso búlgaro dos leões), Stan Valckx (central holandês, um dos que mais classe espalhou de leão ao peito), Isaías (um dos melhores "pé canhão" que passou pelo futebol português, apelidado pelos benfiquistas de "Profeta"), Sergei Yuran (o tão genial como indisciplinado ucraniano que, com Kulkov, fazia também dupla temível nas... noites lisboetas), Stefan Schwarz (um dos muitos suecos que passou com sucesso pela Luz), Mozer (um dos grandes centrais da história do SLB), o quarteto boavisteiro Erwin Sánchez, Ricky (o nigeriano melhor marcador duas temporadas antes, em 1991/92, com 30 golos), Marlon e Artur, o tunisino Ziad (do Vitória SC), Hassan Nader (o "matador de Faro", que foi, inclusivamente, o melhor marcador na temporada seguinte pelos "leões de Faro") e Rashid Yekini, o internacional nigeriano do Vitória de Setúbal que se sagrou melhor marcador desta temporada 1993/94, com 21 golos, fazendo grande dupla com Chiquinho Conde, levando o Vitória FC à fantástica sexta posição nessa época, entre muitos outros.

O desenrolar de competição, esse, foi muito peculiar. O Sporting, treinado por Bobby Robson (com Mourinho na equipa técnica), entrou de rompante, ao contrário de Benfica (três empates nas primeiras três rondas) e Porto (dois empates e uma derrota). Os leões lideraram, por isso, numa série de vitórias inaugurais que durou até à sexta jornada (só à sétima surgiu o primeiro dissabor, com o empate em Barcelos). Quem também iniciara em grande estilo fora o Boavista, comandado pelo sempre competentíssimo Manuel José. À sexta jornada, os axadrezados dispunham mesmo de cinco triunfos e somente uma derrota.

Com o desenrolar do Campeonato, porém, águias e dragões foram galgando terreno e no final da primeira volta os encarnados eram já líderes isolados, com mais três do que Sporting (em 2.º) e quatro que Futebol Clube do Porto (a fechar o pódio). A par do Sporting, com o estigma já nessa altura da incapacidade de lutar pelo título além da barreira do Natal, também o Boavista teve uma queda abrupta e já distava 8 pontos do Benfica, com mais um do que o Marítimo.

A velha máxima de que o «Campeonato se ganha nos jogos com os pequenos» foi desmistificada pelo Benfica neste certame, clarificando igualmente a tendência de que quem vira a 1.ª volta em 1.º por norma é campeão. As águias empataram, logo a abrir o Campeonato Nacional, nas Antas (3-3, num grande jogo). Depois, venceram o Sporting na Luz por 2-1. Na segunda volta, logo a abrir, venceram o Porto na velha Luz por 2-0, com golos de Aílton e Rui Costa. Por último, os tais 3-6 em Alvalade, no jogo que desbloqueou a luta pelo título e isolou por completo a águia no comando.

A luta, ainda assim, a partir da derrota dos dragões no ninho da água, desenrolou-se entre os rivais de Lisboa, atendendo à diferença pontual (o equivalente a três vitórias) que começou a desenhar-se entre a equipa de Toni (técnico do Benfica) e... Bobby Robson. Sim, Robson. O técnico inglês, despedido por Sousa Cintra, bem como Tomislav Ivic por Pinto da Costa, seguiu para o Estádio das Antas ao virar a segunda volta. Cintra não perdoou o falhanço europeu (eliminado na Taça UEFA pelo extinto Casino Salzburgo - atual Red Bull Salzburgo) e a quebra interna (numa altura, ainda assim, em que partilhava a liderança com Benfica e FC Porto, à 11.ª jornada) e decidiu dispensar o técnico inglês em detrimento de Carlos Queiroz - selecionador nacional à época. Robson que acabaria, ainda nessa mesma época, por vingar o despedimento do comando técnico leonino, tendo o "seu" FC Porto, no Jamor, vencido a sua antiga equipa, numa finalíssima recheada de polémica.

720 foi o número de golos que o Campeonato teve, dos quais impressionantes 18 foram nos jogos em Setúbal... só com os denominados três grandes. Foram espetáculos pouco vistos, com golos a rodos: na receção ao Sporting, os sadinos perderam por 2-3; diante do Benfica, triunfo contundente por claros 5-2; por fim, a monumental recuperação operada diante do Porto, que culminou num empate a três bolas, depois de ter estado a perder por... 0-3.

Nessa altura, os estádios estavam sempre bem compostos e o futebol tinha uma maior popularidade no que à sua composição dizia respeito. Havia muito mais o hábito de presenciar o desporto-rei, os preços eram mais convidativos e havia maior paixão pelo que se passava dentro das quatro linhas, contrariamente ao que acontece nos tempos que correm, em que a paixão incide mais sobre as polémicas e os factos extra futebol.

O pior da temporada, porém, teve um nome: Cherbakov. O na altura promissor jovem jogador ucraniano do Sporting, depois de mais uma noitada, passou um sinal vermelho na afamada Avenida da Liberdade, em pleno coração lisboeta, e... ficou sem andar. Uma tragédia precisamente antes do grande derby da cidade Lisboa, que Figo assinalou quando marcou o golo inaugural no Estádio da Luz, gritando repetidamente: "Cherba! Cherba!". Um momento forte e tocante numa época recheada de alegrias, tristezas, muita qualidade e, claro está, muitas polémicas.

André Rodrigues (A Economia do Golo)

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo*

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