Golos provocam "reações mistas". Cólera foi a expressão facial mais vista nos jogos do Euro 2020

Estudo indica que manifestação de emoção cólera foi muito frequente, seguida da alegria e da tristeza.

A expressão facial de cólera foi a mais exibida durante os 51 encontros do Euro 2020 de futebol, que terminou no domingo, indica um estudo apresentado esta segunda-feira pelo Laboratório de Expressão Facial da Emoção (FEELab), no Porto.

Os resultados foram obtidos após a análise dos vídeos de cada jogo e a manifestação da expressão de emoção cólera foi muito frequente (7/10), seguida da alegria e da tristeza.

O padrão da expressão facial diversificou-se entre cólera, alegria, tristeza, dor, surpresa, desprezo, aversão e medo, sendo que as imagens foram analisadas com recurso a tecnologia de reconhecimento automático e em tempo real.

O objetivo do estudo "A neuropsicofisiologia da expressão facial da emoção: estudo de caso com jogadores no campeonato da Europa de futebol de 2020", pioneiro ao nível mundial, foi verificar a frequência e a intensidade da expressão facial em jogadores provenientes de países e grupos étnicos diferenciados em contexto de competição.

À TSF, Freitas Magalhães, coordenador do estudo, explica que foi utilizada "tecnologia de ponta, que é a tecnologia de reconhecimento automático e em tempo real das expressões faciais da emoção". De entre as oito emoções básicas universais, "a cólera, a alegria e a tristeza são aquelas que são mais exibidas durante o torneio".

Freitas Magalhães detetou neste estudo que a pandemia teve efeito nas emoções deste campeonato europeu, porque quanto mais público nas bancadas, mais os incentivos à cólera, como aconteceu no jogo de domingo, a final entre a Inglaterra e a Itália.

"O índice de exibição da expressão facial de cólera era mais intensa e mais frequente do que nos outros encontros", refere, acrescentando que esta conclusão vai ao encontro de outro estudo realizado com os jogos da Primeira Liga, "em que se verificou, de facto, não havendo público nos estádios, que houve um decréscimo acentuado da expressão facial de cólera durante os jogos".

O diretor do laboratório de Expressão Facial das Emoções explica que o golo nem sempre significa alegria. "À partida há uma ideia pré-concebida que se trata de uma expressão de alegria, mas ela é uma expressão mista, isto é de alegria e ao mesmo tempo de cólera", admite Freitas Magalhães.

"Quando um jogador consegue obter um golo, invariavelmente tem uma reação de alegria, porque conseguiu obter o objetivo máximo numa partida de futebol, mas por outro lado tem uma exibição que é para a claque ou os adeptos adversários e mesmo para a equipa adversária no sentido de demonstrar através da cólera aquela ideia de poder", explica.

Quando uma pessoa faz uma expressão de cólera, esta tecnologia de leitura facial, através de uma matriz científica, consegue analisar alguns elementos particulares, "por exemplo, fechar com força as pálpebras, fazendo um franzir muito forte ao nível da raiz do nariz e também uma pressão muito grande na boca, quer seja com boca aberta ou fechada".

De acordo com o seu coordenador, Freitas Magalhães, os resultados confirmam que "a interação humana, ao nível do exercício competitivo, e independentemente dos grupos étnicos, potencia a evidência das emoções básicas mais comuns".

"O congruente estado instintivo que suporta a reação emocional é notório e confirma que, num quadro de competição, a exibição emocional é também uma demonstração de conduta humana, elevada, por vezes, ao extremo da agressividade, pretendendo-se, em primeiro lugar, que os adversários vislumbrem quem tem o poder", explicou.

O diretor do FEELab, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa, acredita mesmo que "a face humana revela isso sem qualquer dúvida, por espontânea, intensa, verdadeira e natural no contexto competitivo".

A expressão facial de cólera já tinha sido a emoção mais exibida durante os jogos dos Mundiais de 2010, 2014 e 2018 e dos Europeus de 2012 e 2016, que Portugal venceu, ao bater na final a anfitriã França, com um golo solitário de Eder no prolongamento (1-0).

Em comparação com esses cinco estudos feitos anteriormente, o Euro 2020 demonstrou uma diminuição da intensidade da expressividade da cólera na face dos jogadores e um ligeiro aumento da alegria e da tristeza, tendo a dor sido analisada pela primeira vez.

O Laboratório de Expressão Facial da Emoção, o único do género em Portugal, foi fundado em 2003 e tem sido distinguido por diversas organizações internacionais pelo "pioneirismo e inovação" do seu trabalho científico.

A 16.ª edição do campeonato da Europa juntou 24 seleções, entre as quais Portugal, anterior detentor do título, decorreu desde 11 de junho, em 11 cidades, de 11 países diferentes, e terminou com o segundo cetro da Itália 53 anos depois, ao vencer a anfitriã Inglaterra por 3-2, nas grandes penalidades, após 1-1 nos 120 minutos, em Londres.

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