Da cave ao topo do arranha-céus. O Benfica visto pelo psicólogo que esteve 25 anos na Luz
Psicologia desportiva

Da cave ao topo do arranha-céus. O Benfica visto pelo psicólogo que esteve 25 anos na Luz

Passou 25 anos na estrutura do Benfica, um clube que viu mudar ao longo dos últimos anos de forma radical. Entre luzes e sombras, Pedro Almeida explica, em entrevista à TSF, como é trabalhar em psicologia desportiva com a elite do desporto.

Pedro Almeida compara a evolução da estrutura do Benfica a um prédio. Durante 25 anos ao serviço dos encarnados, o antigo líder do departamento de psicologia desportiva viu o clube atuar no piso mais baixo do futebol, descer negritude da cave, e construir piso sobre piso até um arranha-céus que pode ser comparado ao de outros clubes de elite no futebol europeu. E também os serviços de apoio em psicologia desportiva fizeram um percurso semelhante.

"Entrei numa fase com Manuel Damásio, depois passei por Vale e Azevedo, Manuel Vilarinho e Luís Filipe Vieira", recorda em entrevista à TSF, "o clube cresceu muito", mas na estrutura, diz, ninguém se esquece do percurso feito entre percalços. "Esta imagem dos diferentes andares, do descer a pique e depois uma subida consistente, é claríssima para quem está lá dentro. É uma imagem que se transformou em questões concretas para aquelas pessoas".

Há muitos profissionais que estiveram muitos anos no clube, e essa estabilidade foi decisiva", começa por apontar. Mas não é a única razão para o crescimento do Benfica. Pedro Almeida nota erros e correções constantes, como por exemplo a aposta, errada considera o psicólogo, nos jogadores estrangeiros para os escalões de formação. "A estratégia é decisiva no crescimento do clube. Há dez anos, o clube na formação apostava em estrangeiros, e isso não deu bom resultado".

"O investimento foi feito nas estruturas de suporte, nas várias áreas das ciências do desporto". Esta correção surgiu nos anos seguintes, e este exemplo serve também para ilustrar o que aconteceu na área da psicologia, diz Pedro Almeida. "Um clube onde, quando entrei, estava sozinho, e onde, ao sair, deixo uma equipa de nove pessoas".

E porque saiu Pedro Almeida, mesmo quando estava no futebol profissional, a lidar com a primeira equipa, uma formação campeã nacional? A decisão já estava tomada, diz. "Do ponto de vista pessoal, ambiciono outro tipo de liberdade", aponta. "Queria estar livre para outros projetos. Quero intervir de forma individual com treinadores no futebol internacional, é algo que ambiciono há algum tempo".

A saída da equipa técnica de Jorge Jesus levou Pedro Almeida novamente ao futebol profissional do Benfica. Primeiro, com Rui Vitória, depois, na temporada passada, com Bruno Lage. Foi essa mudança que fez com que cumprisse mais alguns anos de águia ao peito, pois a decisão de sair estava anunciada, internamente, desde há algum tempo.

Futebol profissional: ou atletas, ou jogadores, mas apenas um lado

Durante 25 anos, Pedro Almeida gravitou entre o futebol profissional, a primeira equipa do Benfica, e o futebol de formação. O primeiro ciclo foi na equipa principal, entre 2001 e 2004, com técnicos como Toni ou José António Camacho. Depois, dois ciclos entre 2007-09 e 2017-19. Mas a gestão do papel do psicólogo dentro do grupo de trabalho não é fácil, explica. É necessário assumir um lugar concreto, uma posição estável que não mude com os resultados, os sucessos e insucessos desportivos.

"As questões da confidencialidade são decisivas no futebol profissional. Não basta ser sério, é preciso parecer. A ligação entre treinador e atleta funciona quando se está a ganhar. Quando isso não acontece, há tensão. E por isso é importante estar à margem", explica Pedro Almeida. Este foi um dos aspetos que, diz, mais tempo demorou a entender no futebol profissional - ou está com os jogadores a tempo inteiro ou, com o treinador, integrado na estrutura técnica como um apoio, com maior distância para os atletas.

"Depende da estrutura que se assume - numa equipa clínica, ou na equipa técnica, com treinador". Dois lados da barricada. "Pessoalmente, gosto de estar nas equipas técnicas, porque julgo que a capacidade para ir mais longe é maior. Mas o trabalho com atletas é igualmente importante."

O sigilo profissional obriga Pedro Almeida a guardar para si as experiências particulares com os atletas. Deixando os nomes próprios de lado, explica o que significa atuar numa equipa de futebol profissional como psicólogo. A grande diferença para o futebol de formação reside no tempo disponível com os atletas. "Temos de ser assertivos como um atirador."

"A superação contínua exige esforço, avaliação constante, mas também há que perceber que a exposição mediática não é para todos", explica o psicólogo. O trabalho diário passa por evitar situações de risco, treinar os atletas para lidar com a pressão do quotidiano. "As perturbações do sono, a alimentação, comportamentos agressivos ou de afastamento social", são algumas das consequências para os atletas do trabalho de elite. Mas há também consequências físicas, como o aumento de lesões musculares por situações de stress.

E há também que perceber como lidar com cada pessoa - entenda-se, atleta neste caso. "Na minha intervenção como psicólogo, devo ter o cuidado de perceber de onde vêm os atletas. Não é igual treinar um atleta que vem de um país da Europa de leste a um outro que chega de um país nórdico, ou um português. Assim como não é igual tratar um atleta espanhol, argentino, de uma ou outra área do Brasil. E também é diferente trabalhar com atletas que vêm de uma formação onde há acesso a psicólogos". E nesse aspeto, os atletas formados no Benfica são privilegiados.

Conquistar espaço para a psicologia

Quando Pedro Almeida chegou ao Benfica, a 11 de outubro de 1994, depois de uma recolha de dados para um projeto de mestrado, o psicólogo encontrou confiança no dirigente Porfírio Alves. Chegou ao futebol sete anos depois, em 2001. Toni, o primeiro treinador, António Simões, o primeiro diretor do futebol. Nené foi o primeiro treinador na formação. Essa aposta no trabalho dos psicólogos junto dos atletas era rara no futebol português dos anos 1990.

"Acho que em Portugal demos muitos passos em relação ao que é feito noutros países. Se olhar para trás, há 25 anos, estávamos num quase deserto." Mas o cenário mudou, em especial no futebol de formação, aponta Pedro Almeida. "Há hoje 40 a 50 pessoas com especialidade do desporto em psicologia e cerca 200 pessoas a trabalhar nesta área em Portugal." Mas falta ainda, aponta, uma aposta mais consistente do futebol profissional. "Falamos de clubes de realidades muito diferentes, sendo que na formação muitos clubes tem já psicólogos nas fileiras. No futebol profissional são poucos os que assumem ter psicólogos nas equipes técnicas. São poucos também os clubes da primeira liga que neste momento têm equipas de psicologia."

"A saúde mental afeta o desempenho. O que se puder fazer para proteger estas pessoas, é proteger o investimento. Não é só trabalho de otimização mas também de gestão de risco", explica Pedro Almeida sobre intervenção diária no futebol profissional.

Um estudo recente e pequenos passos em Portugal

O Sindicato dos Jogadores e a Sociedade Portuguesa dos Psicólogos apresentaram um estudo sobre a saúde mental dos jogadores profissionais, um inquérito que explora os efeitos da pressão inerente a uma carreira desportiva dos atletas. Um dos fatores mencionados tem que ver com a dificuldade que os jogadores encontram em partilhar com alguém os receios e dúvidas sobre a carreira, da leitura e autoavaliação do desempenho, ou da instabilidade contratual.

"Há muitos anos, quando estava com José António Camacho, perdemos um jogo e uns miúdos não deixaram o meu filho jogar porque diziam que o pai, eu, tinha culpa de o Benfica ter perdido. Eu, psicólogo, que estou nos bastidores. Agora imaginem o que são atletas a levar com estes filmes de manhã à noite", explica o antigo psicólogo do Benfica.

"Há muitas situações onde estes temas são ainda tabu. Falta os atletas, os dirigentes, falarem sobre esse tema abertamente." O exemplo, diz Pedro Almeida, deveria partir dos atletas e treinadores mais mediáticos. Cristiano Ronaldo ou José Mourinho seriam ouvidos de outra forma mais convicta. "No dia em que atletas de grande referência falarem de situações deste género, estas coisas desmistificam-se naquele momento. E, nesse dia, o que estão a fazer é ajudar pessoas. Não que as pessoas não tenham capacidades, mas porque num determinado momento, não conseguem tirar o melhor proveito ou ter os melhores resultados."

"Temos exemplos de grandes campanhas, por exemplo, no Reino Unido, para desmistificar situações de psicologia no desporto, porque sofrem em surdina", aponta Pedro Almeida. Ainda assim, comenta o psicólogo, em Portugal há sinais positivos nesta área, como o crescente número de psicólogos nas equipas.

Racismo e xenofobia

Das bancadas, não são apenas os comentários e a pressão dos pais que perturbam o desempenho e a saúde dos intervenientes "As questões das abordagens raciais no mundo do futebol são óbvias. As frases típicas racistas, xenófobas, acontecem nos campos de futebol pelo país inteiro todos os finais de semana. Mas isso só se resolve quando se conseguir banir esses comportamentos, para que sejam substituídos por comportamentos aceitáveis do ponto de vista social", aponta Pedro Almeida.

"Se houver brechas por parte de regulamentos, da justiça desportiva, as coisas vão complicar", explica, numa alusão à decisão recente do um acórdão dos juízes da 9.ª Secção Criminal do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL), que confirma a decisão de primeira instância de não levar a julgamento um processo por crimes de injúria e ofensa à honra, intentado por um treinador contra um delegado por insultos.

Formar pais de atletas de elite

Se os atletas da formação são acompanhados por equipas de psicólogos, também os pais devem ser envolvidos, defende Pedro Almeida, porque são intervenientes importantes no processo de formação de atletas. "Muitas vezes temos questões com os pais, não porque eles não conseguem ser bons pais, mas porque não conseguem ser bons pais de atletas de alta competição. Eles próprios têm de ser pais de alta competição, com viagens que nunca mais acabam, com outros filhos que vêm de arrasto para ver o irmão, famílias organizadas em torno do filho que é atleta de alta competição. Isto no futebol é verdade, mas noutras modalidade é gigante. E isto é transversal a muitos atletas nesse país."

No final do período de formação, a transição para o futebol profissional apresenta também um desafio. No futebol, como nas restantes modalidades desportivas, algumas até bem mais exigentes no que aos períodos de treino diz respeito. "Temos de olhar quase à lupa os jovens. O salto que vão dar é gigante. Num clube grande como o Benfica, os atletas são confrontados com situações complexas, como falar com os média. E nós também ajudamos nesse momento, na intervenção psicológica, o saber o que dizer, saber como estar."

No Benfica, as estruturas de acompanhamento dos atletas de elite atingiram um nível de excelência, aponta Pedro Almeida, no futebol. Faltam agora as restantes modalidades, na formação, mas também os desportos femininos, como futebol.

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