Da fúria a um futebol quixotesco
Crónica o meu mundial

Da fúria a um futebol quixotesco

É para já a imagem que guardo do mundial. Os primeiros oito minutos da Espanha diante da Costa Rica transportam-me para um lugar diferente neste campeonato do mundo de futebol. Dois passes para golo de Pedri, não correspondidos na finalização de Asensio e Olmo. Uma sucessão de passes com critério, uma viagem de pé para pé. Na memória do futebol, não há apenas lugar para os vencedores, há (talvez) espaço para uma possibilidade estética, uma determinada ideia de futebol coletivo, apologia do passe, da qualidade técnica, um passe feito remate de sorriso no rosto (como aquele de Rafael Leão diante do Gana).

Luís Enrique quer a equipa espanhola a jogar de vermelho, uma cor que, diz o selecionador, o transporte para a ideia de "la furia", expressão que, durante décadas, o país vizinho acolheu como um ideal futebolístico de intensidade, crença, mas alguma virilidade transgressora, esforço de sobra mas nem sempre eficaz. Mas o que se vê em campo de "la roja" em 2022 é bem diferente desta ideia. Transbordam nesta equipa calma e confiança. Viu-se isso contra a Costa Rica (7-0), mas também diante da poderosa (e ferida no orgulho) Alemanha, com alguns erros à mistura, alguns exageros, talvez.

Sérgio Busquets continua a medir cada gesto com uma precisão notável a partir de uma posição de farol da equipa - mais do que uma âncora defensiva. Ao lado do veterano, Gavi, médio formado no Barcelona, nunca deixa os adversários em paz, e, com bola, sabe sempre o que fazer com gestos ágeis e desembaraçados. E só tem 18 anos. Mas é no pé direito de Pedri (21 anos, 130 jogos como profissional entre Barcelona e Las Palmas) que respira o jogo espanhol. Tem uma forma económica de jogar, dribles precisos, passes bem medidos, radar sempre ligado e a habilidade, o "giro" necessário para abrir a cada receção o campo adversário.

Um trio de filhos da revolução do futebol espanhol que transformou a fúria em algo mais pausado e ponderado - chamem-lhe tiki-taka se quiserem- uma nova forma de entender o jogo e as suas urgências, que convida a bola a passar por todo o relvado. Luís Aragonés e Vicente del Bosque beneficiaram de uma geração dourada do Barcelona para dar dois títulos europeus e um título mundial à Espanha (2008, 2010, 2012). Em 2022 ainda há Dani Olmo, Koke, Rodri - feito central por Luis Enrique neste mundial -, Jordi Alba (suplente no Barcelona, mas que atira o "titular" Baldé para o banco na seleção) ou Ferran.

O segundo jogo de Espanha, contra a Alemanha, mostrou que talvez esta equipa ainda precise de se apurar para juntar esta estética aos resultados. Mas ainda há tempo e há, sobretudo, uma crença entre os jogadores espanhóis de que o caminho está escolhido e que, perdendo - como perderam o Brasil de 1982, a Holanda de 1874 ou 1978, a Hungria em 1950 - ou ganhando - como a Espanha, um pouco mais cínica, em 2010 -, são os jogadores escolhem como querem cair.

Também na Alemanha se fazem sentir os frutos de uma revolução nas últimas duas décadas. A derrota diante do Japão não mudou a intenção da equipa de Hansi Flick, um futebol que procura dispor em função dos espaços, colocar o adversário numa posição em que, a dança da bola em frente da grande área se torne indefensável. Não pode a Alemanha estar mais distante de uma ideia de dimensão física e atlética. Esta é uma Alemanha nova, fundada numa revolução da formação naquele país.

Do título mundial de 2014 sobram Gotze, Muller; mas há uma nova geração que acredita na ideia coletiva para conquistar o título. Sobressaem Kimmich, Gnabry, Havertz e, sobretudo, Jamal Musiala, ambidestro, esguio, incapaz de perder a baliza adversária de vista na forma como roda, dirige a bola com o pé direito ou o pé esquerdo.

Ninguém espera, em 2022, que estas equipas tenham o impacto que tiveram a Holanda de 1974 - e tudo o que estava atrás dessa equipa, da revolução de Rinus Michels e Johan Cruijff - ou do Brasil de 1982. Mas vale a pena refletir no percurso que a federação espanhola e a federação alemã têm desenhado nos últimos anos: treinadores/selecionadores ajustados a uma forma de pensar o jogo e o treino que vai dos escalões de formação ao futebol sénior, com a seleção principal como produto final.

Espanha e Alemanha parecem, para já, um passo à frente de outros países, pela coerência, mesmo que não disponham de gerações tão ricas no número de soluções (penso nos plantéis de França, mas também na Argentina, no Brasil e em Portugal). Para fugir ao efémero não basta libertar os matraquilhos com o objetivo único de deixar uma última imagem de futebol criativo e solto de amarras.

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