É hora de Conceição ser mais Pedroto e menos Robson

O FC Porto visita esta terça-feira uma das catedrais do futebol mundial, Anfield Road, para defrontar o finalista vencido da Liga dos Campeões da época passada, o Liverpool, e todos os dados disponíveis aconselham Sérgio Conceição a apostar, por uma vez, numa estratégia realista e "matreira".

O Porto partilha com Barcelona e Manchester City o primeiro lugar do ranking da UEFA da presente temporada, e ocupa a nona posição do ranking geral (relativo às últimas cinco temporadas), também aqui à frente da 12ª posição do Liverpool, o seu adversário dos quartos-de-final da Liga dos Campeões.

Ao mesmo tempo, os portistas são juntamente com o Barça a única equipa europeia que ainda está nas três principais frentes: campeonato, taça e Liga dos Campeões.

Mas sejamos francos: o comum adepto dos dragões tem plena consciência que o Porto não está no mesmo patamar desportivo do Liverpool. Desde logo porque, como disse Sérgio Conceição na conferência de imprensa de antevisão do jogo desta terça feira, os universos competitivos dominantes das duas equipas são totalmente diferentes: o conjunto inglês está a discutir o título nacional na liga mais exigente do futebol mundial, enquanto o Porto luta pelo título numa liga semiperiférica da Europa.

Como se isso não bastasse, o Liverpool perdeu somente um jogo nesse campeonato híper-exigente e concedeu apenas 20 golos em 33 partidas da Premier League, um desempenho verdadeiramente impressionante.

Convém ainda lembrar que falar do Liverpool é falar do vice-campeão europeu, nos dias que correm provavelmente a equipa mais competitiva do Velho Continente, a par da Juventus. Não é por acaso que estes são os dois emblemas que perderam as duas últimas finais da Champions, ambos perante o tradicional rei da prova, o Real Madrid. Afastado o senhor da "coutada", Juve e Liverpool assumem naturalmente o favoritismo ao cetro europeu, assente na manutenção dos respetivos craques (no caso da Juventus ainda reforçada pelo príncipe da Champions, CR7) e seus timoneiros (leia-se, treinadores).

Registo assustador

É, portanto, enorme a montanha que o Porto tem que ultrapassar se quiser manter vivo o sonho na Liga dos Campeões, tal como ficou provado na temporada passada, quando perdeu 5-0 com este mesmo Liverpool no Dragão. Empataria depois em Anfield (0-0), mas aí já a eliminatória estava decidida, contribuindo para o péssimo registo histórico portista perante os reds: em seis jogos, três derrotas e três empates, com dois golos marcados e 12 sofridos.

Igualmente assustador é o registo do Porto em Inglaterra nos 20 encontros de competições oficiais: 17 derrotas e três empates, com um saldo total de 10-50 em golos.

Apesar disso, a história é provavelmente a dimensão que menos preocupa os portistas antes do jogo de Liverpool. Bem mais problemático é o contexto atual do equilíbrio de forças no futebol europeu, com assimetrias brutais entre os mais fortes e os outros, os outsiders.

Para o Porto, o problema começa logo na diferença de qualidade dos planteis: o do Liverpool está avaliado em 950 milhões de euros (terceiro mais valioso dos oito quarto-finalistas, apenas atrás de Barcelona e Manchester City, ambos avaliados em mais de um bilião de euros). O Porto possuiu o oitavo (e último) plantel mais valioso desta fase da prova: 320 milhões.

Para agravar a clara inferioridade na qualidade individual ao seu dispor, Sérgio Conceição não pode contar com dois titulares absolutos da sua equipa, Herrera e Pepe, enquanto um terceiro elemento crucial está em dúvida, Alex Telles.

Perante tudo isto, o treinador portista está obrigado a ser ainda mais criativo (foi o próprio que escolheu a palavra) em termos estratégicos. Mostrar que aprendeu com o confronto da época passada, mas acima de tudo ser capaz de equilibrar as operações no meio-campo, onde muitas vezes o Porto se desequilibra devido à necessidade de jogar sempre para ganhar na Liga Portuguesa.

As lições de Pedroto

Conceição nunca escondeu a sua admiração por dois treinadores míticos na história do Porto: José Maria Pedroto e Bobby Robson. Será caso para dizer que, em Anfield, Sérgio deverá procurar contrariar a sua tendência natural para seguir a famosa filosofia "all out attack" de Robson. Em lugar disso, seria bom que desta vez encarnasse o espírito 'pedrotiano', mais estratégico, mais "matreiro", mais correspondente à postura de contenção enquanto "direito do mais fraco", suficientemente humilde para jogar com o empate como objetivo final.

Ao longo da sua carreira, Pedroto deu várias lições de estratégia e tática perante equipas inglesas. Por exemplo, no comando da seleção nacional empatou três vezes com a Inglaterra em outros tantos encontros realizados, apostando quase sempre em "roubar" a bola aos jogadores britânicos, atuando para isso com um meio-campo muito reforçado e composto por elementos tecnicistas, habitualmente de baixa estatura, como Octávio Machado, João Alves, Vítor Martins ou António Oliveira.

Essa pode ser uma inspiração importante para Sérgio Conceição nesta partida de Liverpool, mesmo contrariando um pouco a sua identidade enquanto treinador, mais virada para o jogo rápido e em profundidade. Nem faltam alguns "baixinhos" para preencher fortemente o meio-campo - Octávio, Oliver, Brahimi ou Corona -, à frente do rochedo que costuma ser fundamental nos jogos internacionais (Danilo), e que possam retirar ao meio campo inglês a capacidade de alimentar permanentemente o trio-maravilha que massacra qualquer linha defensiva: Mané, Firmino e Salah. De duas maneiras: pressionando com agressividade sem bola, retirando tempo para pensar aos médios do Liverpool; e escondendo a bola, quando na sua posse, procurando depois os desequilíbrios ofensivos.

O que não se recomenda ao Porto é a insistência no jogo longo, designadamente a partir dos centrais, permitindo constantes recuperações de bola ao Liverpool. É certo que pior do que isso só mesmo perder muitas vezes a posse em zonas perigosas, potenciando as temíveis transições rápidas da equipa de Jurgen Klopp. Mas também por isso é importante que a construção de jogo portista seja feita por quem tem mais capacidade de ter a bola e de a passar eficazmente. Para o Porto sair vivo de Anfield terá que começar a contrariar a superioridade do Liverpool com base na inteligência, nem que seja enquanto esperteza. À Pedroto.

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