Eibar, working class hero

Nunca uma música gizada por John Lennon terá feito tanto sentido relativamente a um clube de futebol.

Falamos do Eibar, um dos clubes com menor orçamento de La Liga, mas nem por isso incapaz de fazer a vida cara aos multimilionários emblemas do país vizinho.

Bastará, pois, ouvir os acordes da fantástica música de um dos maiores vultos musicais de Liverpool, para sentirmos que a mesma poderia ser o hino do pequeno clube situado no País Basco e que faz do minúsculo Ipurua, com lotação para 7000 lugares o seu recinto inexpugnável, o seu fortim coriáceo onde o dinheiro de pouco vale.

Assim, aos primeiros sons da melodia do homem de Liverpool somos remetidos para a fantástica epopeia do actual, décimo sexto classificado de La Liga, mas que desde 2014/15 tem sabido manter-se à tona, com maior menor dificuldade. Porém, não obstante, sempre entre os mais mediáticos clubes com orçamentos que serviriam para pagar muitas épocas aos "Armeros", ou seguindo a designação euskera, preferencial entre os seus adeptos, bascos empedernidos, "Armagiñak".

Voltemos à obra de arte de Lennon, ao seu refrão: "Til the pain is so big you feel nothing at all/A working class hero is something to be/ ". Aludimos, pois, ao desejo de pelo trabalho duro se destacar dos demais, de fazer das fraquezas forças para se realçar, para se assumir perante quem com o dinheiro resolve todos os problemas.

Tal é bem verdade! Com efeito, a equipa, onde hoje actuam os portugueses Paulo Oliveira e Rafa Soares, este cedido a título de empréstimo pelo Vitória SC, subiu a pulso rumo ao galarim do futebol mais mediático espanhol.

Esta ascensão começaria em 2014, com um modelo de gestão que haveria de ficar célebre por preconizar que o clube deve ter a rentabilidade de uma empresa, mas combinando o respeito pelas raízes com a divulgação internacional do seu nome.

Esta ideologia foi conducente a um modelo de gestão altamente profissionalizado, em busca de uma política de passivo zero, da defesa da identidade do clube ao impedir que algum accionista pudesse ter o controlo de mais de 5% das acções da sociedade. Graças a estas premissas, a cidade envolveu-se com o seu maior embaixador, garantindo 110000 accionistas ao clube e aumentando o seu capital societário através de campanhas de crowdfunding.

Estes actos levaram a um facto curioso, que ocorreu no ano da subida. Pelo facto do orçamento da equipa profissional ser de 400 mil euros, para participar na liga principal do país vizinho teve de endividar-se para apresentar o orçamento mínimo exigido da primeira divisão que eram 2,1 milhões de euros. Esta realidade fez com que toda a cidade e figuras míticas do futebol espanhol, como Xabi Alonso que chegou a cumprir um período de tirocínio no clube, se envolvessem em campanhas para que este almejasse tais valores sem colocar em risco a sua estabilidade financeira.

Fruto desta política de envolvimento, o estádio Ipurua, mítico pelo ambiente vibrante do mesmo, encontra-se sempre pleno de adeptos dispostos a acompanhar um grupo de jogadores guerreiros que pelas suas cores são capazes de lutar até à exaustão das suas forças.

E esse espírito guerreiro tem feito a distinção para as demais equipas...

Com efeito, bastará olhar para o plantel dos bascos, e seguindo o site Transfermarkt, para percepcionarmos que os jogadores que apresenta maior valor de mercado é o guarda-redes sérvio Dimitrovic, avaliado em doze milhões de euros, sendo o segundo mais valioso o português Paulo Oliveira, com uma apreciação monetária de 6 milhões de euros. Valores risíveis se comparados com os demais clubes a participar na Liga do país vizinho.

E isso é um verdadeiro exemplo d'Economia do Golo! Saber trabalhar com os recursos que se tem, envolvendo toda a comunidade em volta de uma marca identitária (o clube), para gerar mais valia... depois, bem... depois, é ouvir a música aqui mencionada e parecer que estamos a ver onze guerreiros em campo a bater o pé a colossos mundiais...

Vasco André Rodrigues (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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