"Espero que os Jogos Olímpicos traduzam os resultados em grandes competições"
José Manuel Constantino

"Espero que os Jogos Olímpicos traduzam os resultados em grandes competições"

José Manuel Constantino, o presidente do Comité Olímpico Português (COP), em entrevista ao Fórum TSF, antes da cerimónia de abertura dos "jogos mais estranhos de sempre".

Os jogos Olímpicos vão começar, e basta isso para ser um motivo de alegria, mas o senhor está em Tóquio em circunstâncias muito especiais. Não há público, nem sequer convidados na cerimónia de abertura. Por isso, são para si os Jogos Olímpicos mais tristes de sempre?

São os mais estranhos, se são os mais tristes ou não, só no final poderei fazer essa avaliação. Mas são os mais estranhos, porque são aqueles que são organizados em condições completamente distintas das que eu tive oportunidade de presenciar. E nessa circunstância, naturalmente que há um conjunto de regras e procedimentos que são exigíveis pelo quadro pandémico que se vive, e pelas exigências das autoridades japonesas, o que torna todo o contexto do evento, um contexto especial e muito distinto daquilo a que estamos habituados nas olimpíadas.

A acreditar nos estudos de opinião que foram feitos, a maioria dos japoneses era contra a realização dos jogos. Isso de algum modo se reflete, por estes dias, na forma como as pessoas são recebidas aí em Tóquio, nomeadamente as da comitiva portuguesa?

Não creio. Nós tivemos um conjunto de modalidades que fizeram estágios pré-competitivos em várias cidades japonesas, e foram todos recebidos de forma excelente, com uma grande afabilidade e entusiasmo, numa relação muito empática que a todos nos surpreendeu. Relativamente a Tóquio, eu confesso que não tenho nenhum indicador. Hoje visitei a aldeia olímpica, e na viagem que fiz do hotel até lá, não vi pessoas na rua, não vi cartazes a anunciar os Jogos, não vi bandeiras. Enfim, não vi aquilo que é habitual, nas cidades organizadoras acontecer por ocasião dos Jogos Olímpicos. Portanto, tenho alguma dificuldade em sentir qual é a reação da população de Tóquio, relativamente a estes Jogos Olímpicos, para além daquilo que referiu. É que de facto há estudos de opinião que sinalizam, de uma forma muito extensiva e intensa, o desagrado da população japonesa pela realização dos jogos em Tóquio. Mas até à presente data, não tenho nenhum elemento objetivo, que permita sentir o que está, neste momento, a população de Tóquio a pensar relativamente ao evento que se vai inaugurar daqui a umas horas, mas em que já há competições a decorrer.

Portugal faz-se representar por 92 atletas de 17 modalidades. Como o senhor escreveu no jornal A Bola, na quarta feira, Portugal apresenta-se com um equilíbrio de género jamais atingido noutras edições dos Jogos Olímpicos. Ainda assim, são 36 mulheres e 56 homens...

Sim, cerca de 40%. O nosso objetivo era atingir os 40%, não foi atingido por escassas décimas, mas no essencial corresponde aquilo que tinha sido o nosso propósito. Naturalmente, se tirarmos uma modalidade coletiva masculina, essa percentagem sobe de forma ainda mais significativa nas modalidades individuais, portanto, consideramos que o objetivo foi atingido. Não é possível, em cinco anos, alterar um quadro que é muito assimétrico no tecido associativo e desportivo português, que é uma participação maioritariamente masculina e que depois, naturalmente, ao nível da representação internacional também repercute e reflete essa assimetria. Ela hoje está mais esbatida, é menor do que aquela que foi em Jogos Olímpicos anteriores, mas ainda está aquém daquilo que são os propósitos do Movimento Olímpico Internacional, que passa por estabelecer um regime de paridade entre a participação masculina e a feminina.

Dos atletas portugueses, 16 são naturalizados, vindos de 10 países, o que também dá a ideia de um país aberto ao mundo, certo?

Sim, e é importante chamar à atenção de que desses 16, há cinco ou seis que iniciaram a sua formação desportiva em Portugal, portanto vieram para o país ainda como crianças e não tinham ainda o início dos seus percursos desportivos. Os restantes onze já tinham iniciado a sua atividade desportiva, há até dois ou três que já tinham representado os seus países de origem em competições internacionais. É um indicador sobretudo mais baixo, do que aquele que tivemos nos jogos do Rio . Porque em 2014 tivemos 18 atletas naturalizados de 17 países, e agora baixámos de forma significativa. Dito de outra maneira, cerca de 88% dos nossos atletas iniciaram o seu trajeto desportivo em Portugal, incluindo aqueles cinco ou seis que começaram a sua atividade desportiva em Portugal, portanto devem tudo aquilo que são, enquanto atletas, ao sistema desportivo nacional.

Quais são as suas expectativas em termos de resultados e de medalhas?

Mais do expectativas, eu tenho esperança de que a Missão Olímpica nacional possa traduzir, em termos de resultados, aquilo que têm sido os resultados alcançados em várias competições internacionais, designadamente em campeonatos do mundo. Nós contratualizámos com o Estado, em 2017, a obtenção de dois lugares de pódio. Tenho conhecimento de um conjunto de estudos, nacionais e internacionais, que apontam para um resultado superior a este que contratualizámos, e se tal acontecer, naturalmente ficaremos muito satisfeitos. Se ficar aquém do contrato, ficaremos tristes e seremos responsabilizados por não termos alcançado esse objetivo, mas a minha esperança é que o consigamos alcançar e até ultrapassar.

Se alcançarem o objetivo do contrato, seria a melhor participação olímpica portuguesa de sempre?

Do ponto de vista do critério de pontuação, sim, atendendo a uma pontuação que é feita em função dos diplomas, das posições até ao 16º e das posições medalháveis, que nos daria uma pontuação final acima daquilo que temos realizado em anteriores edições. Vamos aguardar, para ver se, de facto, se concretizam estas nossas esperanças.

Quando se contratualizaram os dois lugares no pódio, foi a pensar em quem?

Foi a pensar nas modalidades que poderiam ter atletas, aquela data, com possibilidades de obter posições de pódio. Estávamos a pensar no atletismo, na canoagem, no judo. Olhando para aquilo que era previsibilidade da nossa participação olímpica em 2020, e com os atletas que, à data, estavam integrados nos planos de preparação desportiva, nós estimámos que estas modalidades tinham atletas com valor suficiente para poder obter posições de pódio. E essa avaliação permanece válida para os dias de hoje, porque continuamos a pensar que as modalidades que referi têm atletas com valor suficiente para poder obter posições de pódio. Mas nós temos de ser muito prudentes nessa avaliação, porque no histórico das nossas participações olímpicas tivemos, sobretudo em Pequim, uma situação muito próxima daquela que estamos a ter atualmente, com atletas nas primeiras posições do ranking, campeões mundiais e o nível de expectativa muito elevado, e que depois, infelizmente, não se veio a traduzir em resultados finais. Portanto, a nossa avalização é realista, mas simultaneamente prudente, para que não se criem expectativas elevadas que depois, se tenha alguma dificuldade em gerir as consequências que daí decorrem.

O andebol, enquanto modalidade de estreia, é uma modalidade em que Portugal coloca as expectativas em alta?

Não responderia de forma afirmativa. O apuramento do andebol, que saudámos com muita satisfação, não esconderemos que foi, de algum modo, uma certa surpresa. Porque foi a primeira vez que uma modalidade coletiva se apurou para os jogos, e quando iniciámos o ciclo olímpico, na nossa avaliação das possibilidades de apuramento de uma modalidade coletiva, tínhamos as fichas todas colocadas no futebol. O futebol não se conseguiu apurar, contra aquilo que esperávamos, e o andebol, progressivamente, veio criar-nos expectativas de garantir esse apuramento que, felizmente, se vieram a concretizar. Garantido o apuramento, o quadro competitivo de uma modalidade coletiva nos Jogos Olímpicos é extremamente elevado. A nossa expectativa neste momento, é que a seleção nacional de andebol passe à fase seguinte. Creio, se esse objetivo for alcançado, que seria um resultado excelente. A partir daí, se avaliará, também em função do quadro de competições, se estas nossas esperanças podem ter um horizonte mais elevado, ou se devemos ficar confinados ao apuramento para a fase seguinte. O estado de espírito da equipa é muito bom e muito forte, tem um foco competitivo muito elevado, e creio que há condições para terem uma prestação exemplar, para além daquela que já foi a prestação exemplar de se apurarem para os Jogos Olímpicos.

Será, certamente, um orgulho para os atletas, mas ter Nélson Évora e Telma Monteiro, já medalhados, como porta-estandartes na cerimónia de abertura, é um orgulho também para o presidente do comité olímpico de Portugal?

Sim, são dois dos atletas que tiveram mais elevadas distinções desportivas, em termos de pódio, e é também, naturalmente, um exemplo para os restantes atletas, e ainda um reconhecimento que o país lhes faz quanto à sua qualidade desportiva.

Porque é que no texto que assinou no Jornal A Bola, diz que há uma responsabilidade social perante o país?

Porque não há forma de fugir a essa responsabilidade. É evidente que o país vai estar atento aquilo que é a nossa missão olímpica. Essa responsabilidade decorre de um comportamento, em termos desportivos, que tem de ser exemplar, não sendo aceitável que possam ocorrer contextos ou comportamentos que, de algum modo, fujam aquilo que deve ser um elevado comportamento do ponto de vista sociodesportivo. E, nesse sentido, há uma responsabilidade social, nós temos uma missão e essa é uma missão desportiva, mas também com um significado de natureza social. Todos nós nos sentimos, a começar pelo presidente do comité olímpico, que respondemos perante um país, por aquilo que fizermos, pelo nosso comportamento e pela atitude que temos relativamente à nossa participação. Essa atitude tem de ser exemplar, e os resultados desportivos, esperemos que correspondam aquilo que é o valor dos atletas.

E depois destes jogos, vai retomar a batalha da operação de financiamento dos jogos de Paris, em 2024. O que é que está atrasado da parte do Governo e dos organismos estatais?

Bom, neste momento, depois das declarações que fiz, o Instituto Português do Deporto e da Juventude (IPDJ), oficiou-nos no sentido de manifestar disponibilidade para iniciarmos as conversações relativamente a Paris, imediatamente a seguir aos jogos de Tóquio. Ao mesmo tempo, garantiu-nos a continuidade dos apoios financeiros aos atletas que aqui atinjam os resultados e que transitam, automaticamente, por força desse facto, para o ciclo olímpico seguinte, terão as suas bolsas garantidas. Portanto, não haverá aqui nenhuma quebra ou desfasamento entre a passagem de um ciclo para o outro, e isso é positivo, tranquiliza-nos a nós e aos atletas. Faltará agora formalizar esta manifestação de vontade, que estou certo ocorrerá, de acordo com o calendário que foi sugerido pela administração pública desportiva, imediatamente a seguir aos Jogos.

Já sabe quanto gastou a mais com os atraso nas partidas, por causa do conflito laboral no aeroporto de Lisboa?

Ainda não, temos de fazer essa avaliação e verificar o que pode ser ressarcido, da parte das operadoras que não garantiram os voos. Esse é um balanço que teremos de fazer, mas provavelmente só o conseguiremos fazer no final dos jogos, para avaliarmos com suficiente rigor, qual foi o custo acrescido que toda esta operação exigiu, por força das alteração a que fomos obrigados a enfrentar.

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