FC St. Pauli: um modo de vida!

Hamburgo, bela cidade no norte da Alemanha, é casa do Hamburgo SV e do FC St. Pauli. Se o Hamburgo já foi campeão alemão e até campeão europeu, o FC St. Pauli jamais venceu algo de relevante. Entre estas equipas e estes adeptos há uma rivalidade feroz e apaixonante. O Hamburger Stadtderby é sempre um momento especial na vida da cidade e, não raras vezes, os confrontos entre adeptos e a polícia começam já alguns dias antes do jogo.

St. Pauli é uma zona da cidade de Hamburgo, muito conhecida pelo seu porto e pela animação nocturna em torno da Reeperbahn, uma das ruas mais movimentadas da cidade, casa do maior red light district de Hamburgo. E é também casa do mítico Millerntor-Stadion e do FC St. Pauli. Se a sua existência informal data de 1899, o primeiro jogo ocorreu apenas em 1907 e a fundação oficial do FC St. Pauli em 1910, que conta apenas 8 presenças na Bundesliga e desde 2010-2011 que não joga no campeonato principal da Alemanha. Mas este é um clube diferente. É um clube que não se alimenta de títulos para sobreviver, para se desenvolver e para fazer crescer a sua massa adepta. Aliás, vencer não é o mais importante para o FC St. Pauli e os seus adeptos.

Foi nos anos 80 que tudo mudou na vida deste clube. A década de 80 foi de instabilidade económica na Alemanha e muitos grupos de extrema-direita usaram os campos de futebol para levantar a voz. Em 1984, adeptos neo-nazis do Hamburgo SV e do Borussia Dortmund atacaram as casas da Hafenstrasse, uma rua ao lado do Millerntor-Stadion, com cocktails Molotov e, noutra cidade, adeptos do Herta Berlin incendiaram um comboio. Cada vez mais, os adeptos de futebol nazis iam aos campos de futebol para divulgar a sua propaganda. Contudo, a área de St. Pauli, o próprio FC St. Pauli e os seus adeptos eram totalmente intolerantes para com esta ideologia.

Por isso, o FC St. Pauli foi o primeiro clube na Alemanha a banir, no seu estádio, toda e qualquer actividade ou manifestação nazi. Naquele que era também um momento delicado a nível europeu, devido ao crescimento do hooliganismo inspirado no fascismo, o FC St. Pauli deu o exemplo e mostrou qual o caminho a seguir. Isto fez com que muitos adeptos do futebol passassem a apoiar o FC St. Pauli, devido às ideias defendidas por este clube. A proximidade com a famosa Reeperbahn, conhecida pela vida boémia de quem a frequentava e habitada pela classe trabalhadora, também foi vantajosa para o crescimento da massa adepta, que era assim composta por pessoas ligadas à esquerda, mulheres, activistas sociais, "punks", boémios, sem-abrigo e pessoas com baixo rendimentos, entre outros. Os jogos no Millerntor-Stadion eram vividos num ambiente de festa. Foi nesta altura, em meados da década de 80, que o FC St. Pauli começou a desenvolver o fenómeno do "culto" e que os adeptos adoptaram a caveira como símbolo do clube, embora não fosse imediatamente reconhecida pelo clube.

Como clube diferente que é, o FC St. Pauli foi o primeiro na Alemanha a adoptar um conjunto de princípios orientadores, corria o ano de 2009. Entre outros factores, é primordial que os adeptos entendam que este clube de futebol é genuíno e autêntico, que a tolerância e respeito mútuo entre as pessoas são a base da sua filosofia e, acima de tudo, que sejam estas as razões que façam os adeptos amar o clube, independentemente do seu sucesso desportivo. Marcar mais golos do que o adversário nem sempre é o mais importante. O FC Saint Pauli foi também o primeiro clube alemão a proibir palavras sexistas e racistas no seu estádio. Por outro lado, não há adeptos de primeira ou de segunda categoria, havendo sempre a obrigação de os proteger junto dos organismos oficiais, nomeadamente na marcação atempada dos jogos, em horários benéficos para ir ao futebol.

Por todos estes motivos, o FC Saint Pauli foi angariando adeptos, não só na Alemanha mas também por esse Mundo fora. Catalunha, Itália, Toronto, Indianápolis, Argentina, Brasil, Atenas, Yorkshire e Glasgow são apenas alguns exemplos de locais onde há grupos oficiais de adeptos do clube. E, apesar da distância, estes aficionados seguem o clube e empreendem acções e campanhas que respeitam a ideologia do clube. Por exemplo, em Atenas os membros do grupo de adeptos vêem os jogos em conjunto, contudo o objectivo principal é financiar projectos sociais e apoiar pessoas em dificuldades, tais como os refugiados. Já em Glasgow, o grupo de adeptos do St. Pauli estima ter angariado mais de 10 mil libras para organizações que cuidam de crianças vulneráveis, refugiados, sem-abrigo e vítimas de violência doméstica.

Ao sucesso fora de campo, junta-se o sucesso nas bancadas. Nas últimas 4 temporadas, o Millerntor-Stadion, cuja capacidade máxima é de 29546 pessoas, registou médias de assistência superiores a 99 por cento. Ao FC St. Pauli resta agora encontrar a fórmula para atingir o sucesso desportivo. Mas, tal como a ideologia do clube defende, marcar mais um golo do que o adversário nem sempre significa o Mundo.

Miguel Batista (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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