Futebol grego: a debacle de um Estado sem lei

O futebol grego há muito que se tornou uma espécie de Estado sem lei. De lá, exceção feita aos desempenhos dos treinadores portugueses (são muitos os que têm passado, com Fernando Santos, nesta matéria, a "abrir as portas" aos seus compatriotas), só chegam notícias de violência entre adeptos, jogos a concluir antes do tempo, motins nas bancadas que extravasam por vezes ao relvado, entre tantos outros episódios, no mínimo, rocambolescos. Na lista de incidentes, está o famoso ataque ao antigo líder do Conselho de Arbitragem Giorgos Bikas, que viu a sua casa de férias consumida pelas chamas devido a mão criminosa, algo que levou à suspensão das competições domésticas e posterior intervenção da FIFA, que acabou por criar uma espécie de Troika da arbitragem, assumida pelo português e ex-líder do Conselho de Arbitragem Vítor Pereira, em 2017, cargo que mantém até hoje.

Ocorrências também como a do presidente do PAOK de Salónica entrar de arma em punho para mostrar a sua insatisfação para com a equipa de arbitragem em pleno relvado e a do ex-técnico Vítor Pereira, na altura no Olympiacos, ser forçado a abandonar o relvado, perseguido por adeptos do Panathinaikos, fazem parte dum longo cardápio autodestrutivo do futebol helénico. O também tradicional campeão Olympiacos já viu citado, por diversas vezes, o seu presidente, Vangelis Marinakis, acusado de vários crimes, como tráfico de droga e envolvimento em esquemas de resultados combinados.

De resto, de futebol jogado e de bons desempenhos europeus das equipas do país da democracia praticamente nem vê-los. Na última década, por exemplo, nenhuma, quer na Liga dos Campeões, quer na Liga Europa, foi além dos oitavos de final. Em 2009/10, o Panathinaikos atingiu esta fase na Liga Europa e o Olympiacos da Liga dos Campeões. O mesmo Olympiacos, em 2013/14, voltou ao convívio entre os dezasseis melhores da Liga milionária e, em 2011/12 e 2016/17, fez o mesmo, mas na segunda competição mais importante da UEFA.

Desempenhos que fazem corar de vergonha, mas que não é mais do que um reflexo de um campeonato interno pouco competitivo e internacionalmente apenas citado pelos ambientes infernais nos estádios e coreografias galácticas dos fanáticos adeptos gregos. Um campeonato que, desde 1996/97, foi vencido por 19 vezes pelo

Olympiacos, uma por AEK de Atenas e PAOK de Salónica e duas pelo Panathinaikos, este último a atravessar grave crise no plano financeiro e longe, nos dias de hoje, de ser um candidato ao título, tendo mesmo terminado a passada edição da Liga na exata metade da tabela, a 8.ª posição.

E quando se pensava que o país, que ocupa o 15.º lugar no ranking de clubes da UEFA, não podia ter batido mais no fundo, eis que, nesta mesma temporada, o campeão PAOK, atualmente comandado pelo português Abel Ferreira, não só não conseguiu qualificar-se para a fase final da Champions League como também da Europa League.

O AEK, que entretanto já dispensou os serviços do português Miguel Cardoso, também não foi capaz de ultrapassar os turcos do Trabzonspor nas eliminatórias de acesso à Liga Europa, situação idêntica às de Atromitos, incapaz de ultrapassar o Legia de Varsóvia, e Aris, eliminado no prolongamento pelos norugueses do Molde. No meio de tudo isto, foi o clube mais titulado Olympiacos, atual vice-campeão, a conseguir ultrapassar três eliminatórias e chegar, assim, à fase de grupos da Liga Milionária, tendo o técnico português Pedro Martins alcançado, assim, um dos grandes objetivos da temporada. Contas feitas, o futebol grego está representado por uma única equipa nas competições europeias.

Sendo o panorama a nível de clubes sôfrego, na Seleção não é diferente. O Euro 2020 é uma miragem, ocupando a penúltima posição do Grupo J de qualificação, não vencendo desde março deste ano, altura em que derrotou o Liechtenstein, modesta Seleção com quem, insolitamente, no passado dia 8 deste mês, acabou por empatar a uma bola, em Atenas. O 60.º lugar no ranking FIFA, atrás de Seleções como Hungria, Jamaica e Mali diz muito sobre o decrépito estado futebolístico de uma Federação necessitada, mais do que nunca, da lógica aristotélica, da ética de Sócrates, do idealismo de Platão, da sapiência de Tales e dos cálculos de Pitágoras.

Definitivamente, o futebol grego está bem longe do Monte Olimpo. Entenda-se: espetacularidade, emoção, respeito entre os intervenientes e qualidade a nível global. Está comandado por Ares, que, na mitologia helénica, é o Deus da Guerra.

André Rodrigues (A Economia do Golo)

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

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