Final da Liga das Nações: a história e Ronaldo para fazerem esquecer 2004

Para o futebol português a temporada fecha este domingo, no Dragão, com uma final (a da primeira edição da Liga das Nações) e tem tudo para terminar da melhor forma, tirando partido do fator-casa, da história recente perante a Holanda e do poder do homem de quem os números tanto falam: Cristiano Ronaldo. Mas para isso é também necessário afugentar os fantasmas de 2004.

Há três anos a última emissão da temporada (2015/16) de Números Redondos consistiu na antevisão da final do Euro 2016 entre Portugal e França. Mais uma vez fechamos uma época do programa com a antevisão de uma final envolvendo a seleção nacional e isso só pode ser bom sinal. E, claro, seria ainda melhor se o desfecho da história se repetisse, com uma vitória portuguesa.

Desta vez, na primeira edição da Liga das Nações, a equipa das quinas tem a vantagem de jogar o encontro decisivo em casa, no Estádio do Dragão, não deixando de ser verdade que a única final que a seleção principal realizou na condição de anfitrião até perdeu (no Euro 2004, perante a surpreendente Grécia).

Ficar com a parte boa da História

Olhando a final caseira com a Holanda pelo prisma da história, não restam dúvidas de que para Portugal o objetivo é conseguir repetir a parte boa e evitar a má. Fugir aos fantasmas da final perdida para os gregos em 2004 e renovar a habitual superioridade recente perante os holandeses. Estes até chamam a Portugal a sua "besta negra" e não é por acaso: em sete confrontos em competições oficiais entre as duas seleções Portugal apenas perdeu um e ganhou seis, incluindo os três últimos, todos em grandes competições.

Aconteceu na meia-final do Euro 2004 (2-1), nos oitavos de final do Mundial 2006 (1-0) e na fase de grupos do Euro 2012 (2-1). Nestes três encontros, Cristiano Ronaldo marcou um total de três golos, decidindo por exemplo o jogo de 2012, com dois tentos.

Além disso, em partidas disputadas em Portugal com os holandeses a seleção nunca perdeu, incluindo jogos particulares, sendo que no último registou-se um empate a uma bola (com mais um golo de Ronaldo), em 2013 no Estádio do Algarve.

As duas seleções vão querer nesta final aumentar o seu pecúlio de troféus, para já reduzido a um, exatamente na mesma competição: a Holanda foi campeã da Europa em 1988 e Portugal em 2016. Os do Norte já estiveram em quatro finais, mas perderam três delas, todas em Mundiais (1974, 1978 e 2010) e os portugueses em duas (ambas de Europeus: 2004 e 2016).

Uma final do futuro?

Neste domingo no Estádio do Dragão estarão frente a frente duas equipas muito competitivas, que deixaram para trás no caminho até esta final algumas das mais poderosas e históricas seleções europeias, mas que estão em ambos os casos em processo de renovação, com muitos jogadores pouco experientes a este nível, ainda que demonstrando enorme qualidade nos respetivos clubes.

No caso de Portugal, que eliminou Itália, Polónia e Suíça, entre os convocados para a final four da Liga das Nações há sete jogadores com menos de 25 anos: Rúben Dias, Bernardo Silva, Rúben Neves, João Félix, Bruno Fernandes, Diogo Jota e Gonçalo Guedes, seis dos quais participaram no encontro da meia-final perante a Suíça.

Uma geração (de que fazem também parte João Cancelo, Nelson Semedo ou Raphael Guerreiro, todos com 25 anos, e ainda Rafa, com 26) que tem um grande exemplo em CR7, mas que parece ainda não ter ultrapassado completamente uma certa reverência perante o capitão de equipa, o que por vezes pode não contribuir para a sua "explosão" e total afirmação na equipa nacional.

Apesar disso, a transição tem sido feita de forma inteligente por Fernando Santos (que lembre-se levou a seleção à final da Liga das Nações sem a contribuição de Ronaldo e Moutinho, por exemplo). O atual selecionador apresenta um registo verdadeiramente impressionante: em 39 jogos de competições oficiais apenas perdeu dois, o que mostra até que ponto a equipa das quinas é consistente e difícil de bater, mesmo sem jogar um futebol empolgante.

Do lado holandês, há também muitos jovens: De Ligt (19), De Jong (22), De Beek (22) Bergwijn (21), Vilhena (24), Aké (24) e Dumpries (23), sendo que os quatro primeiros jogaram perante a Inglaterra na meia-final de quinta-feira.

Também devido à presença de tantos jovens de grande qualidade nos dois conjuntos, o valor de mercado dos dois plantéis é muito elevado e semelhante: 637 milhões de euros de Portugal contra 602 da Holanda.

Apesar disso, Portugal está mais bem colocado (sétimo) no ranking das FIFA do que a Holanda (16º), comprovando que nos últimos anos os resultados obtidos têm sido muito superiores. Aliás, a Holanda falhou a presença nas duas últimas grandes provas internacionais (Mundial-2018 e Euro-2016).

Para os holandeses, foi necessário recomeçar quase do zero, com Ronald Koeman a empreender a tal renovação radical, aproveitando também o excelente trabalho feito no Ajax (principalmente) e no PSV. De tal forma está a ser bem-sucedido que até à final de domingo a nova "Laranja Mecânica" deixou pelo caminho três enormes tubarões (os dois últimos campeões do mundo, Alemanha e França e ainda a Inglaterra).

A final de Ronaldo?

Sempre que Portugal atingiu a final de uma competição, Cristiano Ronaldo marcou na meia-final (foi assim frente a Holanda em 2004 e perante o País de Gales), mas o madeirense ainda não fez o gosto ao pé numa final disputada pela equipa portuguesa.

Na meia-final perante a Suíça, na passada quarta-feira, valeu a Portugal um Ronaldo inspirado, uma vez que os helvéticos até foram superiores em muitos momentos do jogo. Acima de tudo, CR7 confirmou com o seu hat-trick que na história do futebol há poucos que lhe peçam meças em termos de força mental e competitiva. Quase sempre aparece nos momentos da verdade e consegue esconder algumas das debilidades coletivas da seleção, mormente em termos ofensivos.

Foi o seu 53º hat-trick da carreira e o sétimo na equipa nacional, sendo que cinco deles aconteceram sob o comando de Fernando Santos. Deve aliás dizer-se que Ronaldo nunca marcou tanto na seleção como no período do atual selecionador: 38 golos em 41 jogos (entre Setembro de 2014 e Junho de 2019), contra 50 golos em 118 encontros entre 2003 e julho de 2014.

Relembre-se que Ronaldo atingiu contra a Suíça os 88 golos na seleção e faltam apenas 21 para igualar Ali Daei como o melhor marcador de sempre na história do futebol de seleções. Ronaldo é o segundo melhor neste particular e o sexto em toda a história do futebol, com 697 tentos marcados em jogos oficiais (clubes e seleção). Nesta última contabilidade está a 108 golos do primeiro, o austríaco/checo Josef Bican (805 tentos), tendo ainda à sua frente Romário, Pelé, Puskas e Gerd Muller (todos na casa dos 700 e tal golos). Companhias muito recomendáveis, a que se junta Lionel Messi, sétimo classificado com 670 golos, mas com menos dois anos (de idade e de futebol profissional) do que Ronaldo.

CR7 vai com certeza querer ficar para sempre ligado à primeira edição da Liga das Nações, apesar de ter entrado na prova apenas nas meias-finais. Se a nível de clubes a Liga dos Campeões tem a sua história muito marcada pelas proezas de Ronaldo o mesmo pode acontecer à Liga das Nações, em termos de futebol de seleções. Para isso, basta que o madeirense decida a final, o que nem parece uma possibilidade muito irrealista.

Talvez o seu maior obstáculo seja aquele que é considerado atualmente o melhor defesa central do mundo, o holandês Van Dijk, conhecido por ser intratável nos duelos individuais. O confronto entre os dois jogadores pode também ser decisivo na atribuição da Bola de Ouro 2019, já que o defesa do Liverpool parece estar bem colocado para integrar a short list dos eleitos após vencer a Liga dos Campeões pela equipa inglesa. Claro que há ainda que esperar pelo desempenho de Messi na Copa América, que tem início no próximo fim de semana no Brasil, mas é bastante óbvio que o jogo deste domingo no Dragão tem no duelo Ronaldo-Van Dijk um (forte) atrativo suplementar.

Nota: A antevisão da final da Liga das Nações foi o grande tema do últimos "Números Redondos" da temporada - na antena da TSF na passada sexta-feira, às 20h30, programa que pode ouvir aqui na íntegra. E já que falamos de números, fique a saber que entre os diversos formatos de Números Redondos nas suas cinco temporadas de existência atingimos para já os 983 programas. Tem sido um gosto.

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