A surfista medalhada que nunca viu o mar. "O mais difícil é perceber as ondas"

Marta Paço, cega, 14 anos, medalha de bronze nos Mundiais de Surf adaptado é a convidada do programa "Tudo Menos Futebol".

Tem 14 anos acabados de fazer e domina as ondas como gente grande. Nasceu cega, mas isso nunca foi impedimento para se atrever nos desportos mais radicais. Skate, patins, bicicleta, natação,... experimentou tudo até descobrir a prancha, há dois anos. No mês passado, foi à Califórnia ganhar uma medalha de bronze no Mundial de Surf adaptado.

Qual é a tua onda no surf?

Eu acho que a minha onda é muito boa onda, sou muito tranquila e isso também me ajudou no surf.

É uma limitação muito grande fazer desporto sendo cega?

Eu acho que não, porque, como eu nasci cega, para mim é o natural. Acho que é mais difícil as pessoas que cegaram durante a vida.

No surf, como é que sabes que está a chegar a onda certa?

O meu treinador Tiago Prieto está sempre comigo na água. Ele vai-me dando indicações verbais de como está a onda, vai-me avisando, diz "vai nesta", por exemplo. Ele é os meus olhos na água.

Qual é o maior desafio no surf para ti?

É perceber o que eu tenho que fazer na onda durante a onda. Porque é muito difícil para uma pessoa que nasceu cega, que nunca viu o mar, perceber como funcionam as ondas e a forma das ondas.

E como é que tu, nunca tendo visto o mar, me descreves a mim como é que funcionam as ondas?

É muito difícil, porque eu não tenho uma perceção clara do mar. Eu vou na onda e sei que as ondas podem virar, podem ir para a esquerda ou para a direita e durante o surf eu consigo perceber isso. Só que explicar o mar eu não consigo.

Não consegues imaginar o mar?

Não.

Ou seja, não há um desenho na tua cabeça.

Sim, não há um desenho.

Mas crias sensações. Uma delas é o mar ser justo para com as pessoas. O que é que isto quer dizer?

Quer dizer que às vezes eu sinto-me um pouco diferente das outras pessoas, mas no mar é onde eu me sinto mais igual às outras pessoas, porque eu sei que o mar não me vai ajudar, vai ser igual para todos.

Fora do mar tens mais ajudas, será por aí? As pessoas ajudam-te mais por seres cega?

Às vezes, as pessoas tentam ajudar, e é bom as pessoas ajudarem, mas dependendo da situação. Às vezes, nós temos mesmo que ir lá e conseguir fazer as coisas sozinhos.

Ouça aqui a entrevista na íntegra

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