Benfica-Porto: confirmação de Lage ou "vingança" de Conceição?

O primeiro clássico da liga portuguesa acontece este sábado, na terceira jornada da prova: um Benfica-Porto, que faz reviver a titânica luta pelo título da época passada e todo o ambiente crispado entre os dois clubes que já vem de há muito. Mas este será também um novo capítulo do duelo particular entre Bruno Lage e Sérgio Conceição.

Quinta-feira, 3 de janeiro de 2019. Bruno Lage, até então treinador da equipa B do Benfica, assume interinamente o cargo de técnico principal após saída de Rui Vitória, na sequência da derrota sofrida em Portimão (0-2), no dia anterior, a contar para o campeonato.

Nesse mesmo 3 de janeiro, o FC Porto de Sérgio Conceição vence na Vila das Aves (1-0) e passa a ter vantagem de cinco pontos sobre o segundo classificado (o Sporting), seis sobre o terceiro (o Braga) e sete sobre o quarto (o Benfica). Assim se concluía a jornada 15 da liga 2018/19, com o Porto aparentemente lançado na senda do bicampeonato... de Conceição.

Sábado, 24 de Agosto de 2019: Benfica-Porto na Luz, para o campeonato. Passaram-se 233 dias, menos de nove meses, sobre a chegada de Bruno Lage ao comando técnico do Benfica. Mas muita coisa mudou entretanto:

- O Benfica sagrou-se campeão nacional 2018/19, recuperando da desvantagem para o Porto, perdendo apenas dois pontos no processo (um empate em casa perante o Belenenses), o que significa que venceu 18 dos 19 jogos realizados no campeonato com Lage, marcando um total de 72 golos (média de quase quatro por jogo). Por sua vez, no mesmo número de encontros, o Porto perdeu 11 pontos.

- A ultrapassagem definitiva do rival aconteceu em pleno Estádio do Dragão, à jornada 24, a 2 de Março de 2019, num encontro ganho pelo Benfica por 2-1, no qual Sérgio Conceição foi muito criticado por deixar de fora Danilo Pereira e Éder Militão. Os portistas estiveram a ganhar, parecendo que se ia repetir o desfecho do primeiro confronto entre os dois treinadores (vitória do Porto por 3-1 nas meias-finais da Taça da Liga, em Braga, a 22 de Janeiro), mas golos de João Félix e Rafa Silva deram a volta ao jogo...e ao campeonato.

- Se Lage garantiu 18 vitórias em 19 jogos de campeonato, Conceição concedeu quatro empates fora - Alvalade, Guimarães, Moreira de Cónegos e Vila do Conde e a tal derrota em casa frente ao Benfica-, ainda assim mantendo a pressão sobre o Benfica até à última jornada, com muitas acusações portistas de benefícios de arbitragem a favor dos encarnados nas derradeiras deslocações do campeonato.

- Enquanto o Benfica festejava o seu quinto título, o da "Reconquista" (ao Porto), Sérgio Conceição perdia a sua terceira competição interna em cima da meta na mesma temporada. Depois da Taça da Liga (nos penáltis, frente ao Sporting) e do campeonato perante o Benfica, foi a vez da Taça de Portugal, novamente no desempate por penáltis, novamente enfrentando o Sporting).

- O defeso fica marcado pela extraordinária venda (por 120 milhões de euros) de um jovem que começou a temporada 2018/19 na equipa B do Benfica, com Lage, e que se tornou titular indiscutível e pedra fundamental do sucesso encarnado no campeonato também com Lage: João Félix. Mas Félix não foi o único jovem a ser lançado na equipa principal 2018/19 pelo ex-treinador da equipa B com total sucesso: o mesmo sucedeu com o defesa-central Ferro e o médio-defensivo Florentino, materializando definitivamente a promessa do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, de construir uma equipa com base na Academia do Seixal. Simultaneamente, no mercado de verão, Sérgio Conceição perde metade da sua equipa titular: Casillas, Felipe, Militão, Herrera e Brahimi.

- Nova temporada (2019/20): o Benfica de Lage continua arrasador, com vitórias claras nos três primeiros encontros oficiais: 5-0 ao Sporting na conquista de mais um troféu (a Supertaça Cândido de Oliveira), 5-0 ao Paços de Ferreira no arranque do campeonato; 2-0 no Estádio Nacional perante o Belenenses (única equipa que até hoje roubou pontos a Lage no campeonato). Já o Porto entra em 2019/20 da pior forma: derrota na primeira jornada da liga em Barcelos, frente ao primodivisionário vindo do terceiro escalão Gil Vicente; afastamento da possibilidade de chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões, face ao Krasnodar, da Rússia.

Ponto da situação: Lage é hoje um herói consensual na Luz, Conceição divide opiniões e paixões no Dragão.

Treinadores-símbolo

Se Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira são neste momento os grandes símbolos de FC Porto e Benfica enquanto clubes (curiosamente, o Benfica seguiu neste particular as pisadas do rival nortenho: a personalização do clube, algo que os seus adeptos sempre criticaram a propósito de Pinto da Costa no Porto), Sérgio Conceição e Bruno Lage assumem-se como grandes símbolos das respetivas equipas de futebol.

Sinais dos novos tempos, talvez. Mas mais do que um jogador, um craque, uma estrela dos relvados, os dois treinadores surgem como representantes máximos de Porto e Benfica. Como acontece com Guardiola e Klopp, noutra dimensão, claro, no Manchester City e no Liverpool.

No caso de Conceição e Lage, é provável que isso aconteça também porque faltam os grandes jogadores nos dois clubes. Isto sem retirar o inegável mérito no protagonismo que alcançaram. Conceição deu ao Porto um título mítico - aquele que impediu o penta do Benfica - com o pior plantel campeão da história portista. Lage escreveu o conto de fadas da "reconquista", o de uma recuperação improvável, feita de bom futebol e jovens promessas transformadas em heróis do povo benfiquista.

A principal diferença é que o "estrelato" de Lage parece não parar de aumentar, enquanto a "estrela" de Conceição já conheceu dias melhores, na sequência da perda do campeonato para Lage, das finais perdidas para o Sporting e da saída da Champions 2019/20. Também por isso, a visita ao Estádio da Luz e uma eventual vitória pode ser uma oportunidade de ouro para o treinador portista recuperar muitos dos portistas que passaram a questionar o seu valor. Já uma derrota, principalmente se for clara ou mesmo pesada, terá com certeza consequências devastadoras.

Mas não é apenas Conceição que joga muito na partida deste sábado. Também Bruno Lage, como tudo o que parece bom demais para ser verdade, tem que, quase cruelmente, continuar a provar que é uma última Coca-Cola do deserto. E uma primeira derrota na liga portuguesa, face ao grande rival e em casa, não seria exatamente um passo em frente num percurso que, sendo absolutamente brilhante, ainda é muito curto.

Diferentes também nos números

É um cliché dizer que Sérgio Conceição e Bruno Lage surgem como quase opostos. Talvez por isso valha a pena começar pelas semelhanças óbvias: treinam as equipas principais dos dois clubes portugueses mais bem-sucedidos na história do futebol luso e que venceram todos os campeonatos nacionais na última década; cada um deles possui uma medalha de campeão nacional enquanto treinador; preferem o sistema 4x4x2 para as suas equipas atuais.

E por aqui fica a identificação. O resto é oposição, e continuamos apenas no campo do óbvio, do unânime: Conceição foi um jogador de topo, Lage não chegou a ser profissional; Conceição vai já na sua décima temporada como treinador de primeira divisão, Lage vai na segunda; Conceição tem o coração ao pé da boca, parece ser muitas vezes dominado pelas emoções, não tem medo do conflito, Lage aparenta enorme tranquilidade mesmo sob pressão, dá ideia de privilegiar sempre a dimensão racional e a sensatez.

No capítulo das diferenças, podíamos entrar mais no campo pessoal, mas isso seria infundado e inócuo. Bem mais interessante será olhar para o campo de jogo, para as formas diferentes de Conceição e Lage porem a jogar as suas equipas e para os resultados obtidos. E nesse sentido recorremos, como é habitual, aos números, de forma muito cirúrgica, destacando três indicadores.

- Ao contrário do que muita gente pensa, o Porto de Conceição tem uma média de posse de bola superior à do Benfica de Lage (no campeonato nacional: 58.5% contra 57%), o mesmo acontecendo em termos de passes efetuados por encontro (527-506). Mas a grande diferença entre as duas equipas está na forma como atacam no último terço do adversário: aí o Benfica de Lage tem mais posse de bola e mais passes realizados (média de 128 por jogo contra 116 do Porto), privilegiando mais o corredor central do que os portistas.

- O Benfica de Lage cria mais situações de golo flagrantes por jogo do que o Porto de Conceição (no campeonato os valores andam à volta de sete oportunidades contra seis). Mas a principal razão para a enorme diferença no número de golos marcados na Liga (3,8 por encontro nos 21 jogos de Lage na liga e 2,3 por encontro para Sérgio Conceição em 70 partidas como treinador do Porto) está na taxa de aproveitamento das ocasiões claras (54% de Lage, 35% de Conceição - o Benfica concretiza mais de metade das oportunidades, o Porto cerca de um terço).

- O Porto de Sérgio Conceição depende mais das bolas paradas para marcar golos: apontou 54 golos na sequência de bolas paradas num total de 161 golos de campeonato (um terço dos tentos obtidos); por seu turno o Benfica de Lage leva 22 golos de bola parada em 79 marcados na liga (correspondendo a 27% do total).

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