Desporto

"En garde!" Praticar esgrima como o D'Artagnan

Estudam textos antigos, desenvolvem técnicas de outros tempos, usam armas de época. A esgrima histórica conquista adultos e crianças. Portugal recebe este ano o torneio internacional.

"Meus senhores, a saudação". Inês faz as honras. "Aos nossos antepassados, que o meu braço seja forte. Aos meus companheiros, eu vos saúdo."

São 18h de quarta-feira. Alinham-se armas na Escola Básica do Alto de Algés, uma das cinco da região da grande Lisboa com aulas gratuitas da Academia de Esgrima Histórica. A aula começa com uma revisão da matéria, com o mestre de armas Fernando Brecha ao comando. Depois, um pouco história.

"Isto é uma jogada Thomaz Luiz, é uma jogada de um autor português do século XVII. Nós vamos recriar uma jogada chamada estocada com parada de mão".

É aqui que está a diferença da esgrima olímpica, a mais comum. Na esgrima histórica usam-se armas e técnicas de época desenvolvidas a partir do estudo de textos antigos. O mais importante, "A Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela", de El-Rei D. Duarte.

"Não é possível a esgrima histórica sem recurso à História e ao conhecimento", afirma Fernando Brecha, mestre de armas da Academia de Esgrima Histórica.

Para ser mestre de armas ou instrutor são necessários pelo menos quatro anos de estudo. Os candidatos são submetidos a exames e têm de fazer uma tese, que apresentam a uma mesa de júris internacionais.

Pedro Brito, instrutor na Sala de Armas de Alapraia, em Cascais, escolheu como tema o uso da espada de Fiore dei Liberi, mestre esgrimista do século XIV, e uma segunda parte da tese dedicada à espada roupeira a partir do autor italiano Ridolfo Capoferro.


Príncipes, cavaleiros, mosqueteiros... e até Guerra das Estrelas

Foi o fascínio pela História que trouxe Afonso até aqui. Aos 11 anos, acredita que é importante conhecer armas de outros tempos. "É basicamente a partir disso que se ganham as batalhas, que se faz um país, que ganha a sua independência".

João, de 7 anos, chegou às aulas de esgrima histórica por causa de uma paixão. "Gosto muito de cavaleiros e quando a minha mãe me perguntou se queria vir para a esgrima, disse logo que sim".

Já Duarte, de 11 anos, inspirou-se noutros cavaleiros. "Como era muito viciado em Star Wars e adorava espadas, a minha avó perguntou à minha mãe se podia inscrever-me no programa de esgrima na minha escola. E adorei". As espadas da luz são diferentes, lembra Duarte, "mas ao menos sei lutar com espadas".

Por uma ou por outra razão, descobriram uma paixão que ultrapassa idades e géneros. Inês tem 9 anos. É uma das poucas raparigas da turma.

"Para mim é indiferente. Já houve mais raparigas, mas todas desistiram", explica, "é duro. Nós fazemos muito trabalho aqui".

E como qualquer desporto, esgrima histórica é muito mais do que atividade física. Maria Inês salienta os princípios que passam.

"O respeito e a confiança. Nós temos de ter confiança no nosso parceiro, que ele não vai falhar e nós também não. E, para mim, lealdade. Isto para mim é uma espécie de família".

Aos 16 anos acredita que a esgrima histórica lhe mudou a vida. "Sou uma pessoa extremamente nervosa, que às vezes tem um pouco de dificuldade em falar com as pessoas. E antes de entrar na esgrima, isto que estou a fazer seria completamente impossível", revela, "a esgrima acolheu-me. Deu-me uma casa".

Todos garantem que a modalidade não é violenta. Ajuda a criar disciplina, promove a confiança e pode ser praticada por qualquer um. "Se entender a esgrima histórica como xadrez em alta velocidade, o que conta é a inteligência", garante o mestre de armas Fernando Brecha.

Na Escola Básica do Alto de Algés alunos entre os 7 e os 11 anos aprendem a manejar espadas. Travam combates, discutem as armas favoritas. Roupeiras, espadins, arcos, sabres, adagas. Cada um tem uma.

As aulas são uma atividade fundamental da Academia de Esgrima Histórica, que começou há 11 anos. A academia faz parte da H.E.M.A. Portugal (Historical European Martial Arts), a federação que representa as artes marciais europeias históricas a nível nacional.

Mais de uma centena de crianças e cerca de 70 adultos aprendem a modalidade em cinco salas de armas em escolas básicas da Grande Lisboa. Mas há outras academias por todo o país que ensinam a modalidade aos mais novos - no Porto, em Tomar, em Torres Novas e Leiria. Em breve, também Viseu e Aveiro.

Todos os instrutores são certificados pelo Instituto Português do Desporto e Juventude.

As aulas são gratuitas. O único financiamento da academia são as sessões de apresentação ao público feitas por alunos e professores.


Portugal, país anfitrião do crème de la crème da esgrima histórica

Na esgrima histórica, o estudo é intenso e a prática também. Portugal tem campeões do mundo na modalidade e este ano, em dezembro, é o país anfitrião do torneio internacional de artes marciais históricas.

Entre 30 de novembro e 2 de dezembro, mais de 140 atletas de 24 nacionalidades vão lutar pela pena de prata dourada na Escola D. Dinis, em Lisboa. "Vamos receber o crème de la crème da esgrima histórica europeia", salienta Fernando Brecha.

Com os atletas vem a equipa e mais aqueles que querem assistir ao torneio. "Isto é turismo histórico-militar", salienta o mestre de armas, que lembra que não há qualquer apoio do Estado para o evento.

Até lá, muitos combates serão travados.

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