Bruno Lage e a história do título contada na primeira pessoa

Não viu a Luz no Seixal, mas teve uma epifania quando chegava de carro a uma reunião no centro de estágios. Bruno Lage queria deixar uma marca, mudar para 4x4x2 e colocar "o miúdo" Félix a jogar.

Enquanto ligava o carro para viajar para o Centro de Estágios do Seixal, Bruno Lage pensava na reunião que iria ter com a direção do Benfica. Queria deixar uma marca no período em que ia ficar à frente da equipa principal dos encarnados. Na cabeça tinha orquestrado duas mudanças para o jogo de estreia, frente ao Rio Ave, em pleno estádio da Luz: o regresso ao 4x4x2 e aposta em João Félix, "o miúdo".

"Depois de um dia de trabalho, cheguei a casa por volta das 20h30. Recebi uma chamada para voltar ao Seixal. Regressei para falar com o presidente e sabia que tinha ali uma oportunidade para mostrar o meu trabalho", refere em conversa com os jornalistas, no Seixal. "Vinha no carro e uma das coisas que pensei foi: tenho de pôr o miúdo a jogar." João Félix haveria de ser decisivo na vitória por 4-2 sobre o Rio Ave, ao apontar dois golos num encontro em que o Benfica entrou a perder por 0-2.

Bruno Lage assumiu o comando técnico interino, depois da saída de Rui Vitória, a 3 de janeiro. No balneário encontrou um grupo de trabalho "triste e desiludido". Os resultados não eram os desejados e a equipa estava "à procura de um novo líder", lembra o treinador.

"Quando estávamos no balneário a falar e há um momento em que me sento com eles e peço que olhem uns para os outros. Disse-lhes então que, a partir dali, tinham de de jogar uns em função dos outros", lembra o treinador, enquanto fazia um gesto de união com os braços. "A reação foi muito positiva e senti que se as coisas corressem bem eu poderia continuar a ser o treinador deles", lembra "senti no olhar dos jogadores que eu ia ser o líder".

Tinha causado um boa primeira impressão, mas faltava alimentar a relação no quotidiano, o que no futebol significa, segundo Lage, no trabalho, no treino e na preparação do jogo seguinte. Cada jogo, cada adversário, dita uma forma de jogar. Há equipas mais chatas, que nos obrigam a ter três médios para ligar, a ter bola, tomar decisões", considera.

A forma de jogar e os muitos golos marcados nos primeiros jogos encantaram os adeptos, talvez, recorda o treinador, porque também os jogadores se sentiam confortáveis. "Disse aos jogadores que nunca iria colocar em causa as decisões deles, porque eles é que têm a bola no pé. Mas, no entanto, disse também que seria muito chato no posicionamento", explica sobre as ideias que quis transmitir. "Este foi o ponto de partida. Queria os médios-ala a jogar por dentro, os laterais a jogar por fora. Os médios para construir e pontas-de-lança com os movimentos de apoio e de profundidade (...). Foi essencial ter uma transição defensiva eficaz de imediato. Recuperar a bola alguns passos mais à frente", indica.

Um crescimento com nomes próprios. O primeiro, o sempre discutido, Haris Seferovic. "Ele é muito importante para a equipa, sobretudo por aquilo que faz no processo defensivo. Disse-lhe isso várias vezes, sobretudo quando o golo não aparecia. Foi isso que ajudou a que dupla [com João Félix] funciona-se. O golo poderia não aparecer, mas ele não podia deixar de correr. Na nossa forma de pressionar, defender condicionando o adversário, isso era essencial".

Algumas semanas depois, o ataque do Benfica perdeu dois jogadores. Duas contratações sonantes que não se conseguiram impor: Nicolás Castillo e Facundo Ferreyra. "Após os primeiros 15 dias, quis um plantel mais curto, e dar a felicidade aos jogadores que não estavam a render. O Ferreyra, um grande jogador, nos cinco ou seis meses em que cá esteve não teve oportunidade de render, e depois das críticas negativas, o ambiente criado não era bom. O mesmo com Castillo e com Lema", recorda Bruno Lage.

A opção passava por encurtar o plantel, permitindo a subida gradual de jogadores da segunda equipa. Apareciam então, nomes como Florentino Luís, Francisco "Ferro" ou João Filipe "Jota". "Naquela altura disse que não tínhamos três avançados mas cinco, mas havia ainda um outro tinha na manga", confessa. "Queria perceber como é que a equipa ia reagir à entrada de quatro ou cinco atletas no imediato e, só depois, perceber como iria reagir a equipa à entrada do Taarabt, porque ele também pode jogar ali, naquela posição do Félix, entrelinhas".

Os 103 golos conseguidos no campeonato - que igualou o recorde da prova -, não justificam rótulos. Bruno Lage diz que não procura emular forma de jogar de outras equipas, de um Manchester City, Barcelona. "A nossa fórmula de analisar a equipa é olhar para o conjunto dos jogadores à disposição, e perceber, para onde é que os podemos levar. Quando temos os 'cavalos de corrida' que temos, eles têm de ser potenciados. Vejamos a forma de acelerar o jogo de Pizzi, de Rafa, do João Félix, do Seferovic, do André [Almeida], o ADN da equipa. Dar cinquenta ou sessenta passes antes de chegar à área não é a nossa forma de estar".

Os erros na Taça de Portugal e a Europa

Instado a olhar para a nova temporada, a primeira que começa como técnico principal do Benfica, Bruno Lage admite que há muito a melhorar. "Temos de ser uma equipa mais consistente a defender e a atacar". Um exemplo para ilustrar, diz o treinador, pode ser primeiro golo sofrido em Braga [vitória por 4-1]. "Perdemos a bola na área adversária, e permitimos que o adversário ganhasse uma grande penalidade".

Erros pelos quais o Benfica pagou caro na Taça de Portugal e na Liga Europa. Com vantagem na primeira mão frente a Sporting e Eintracht de Frankfurt, os encarnados permitiram a reviravolta. "Podíamos e devíamos ter feito melhor nessas competições, e não o fizemos por culpa própria", admite. "Não podemos ficar à espera que, por estarmos a vencer por 2-1 ou 4-2 a eliminatória, as coisas se resolvam por si só. Sofrendo um golo as coisas mudam. O futebol é isto".

Uma segurança que diz, é o passo que falta para que a equipa possa chegar ao nível de elite. "Muitas vezes entramos fortes, 1-0, 2-0, mas depois sofremos um golo. É isso que temos de mudar, ir à procura do 3-0", uma forma de impor um estilo, que, diz Bruno Lage, pode permitir à equipa sonhar com outros voos, também na Europa.

2019/2020 com plantel "curto" e com João Félix

Bruno Lage quer voltar a ter um plantel curto, com espaço e tempo para dedicar aos jogadores, com margem para que os jovens da equipa B acreditem na possibilidade de chegar ao plantel principal durante a temporada. "Há dois ou três jogadores [da equipa B] que vão fazer a pré-temporada connosco. Ainda não falei com eles, e por isso não posso dizer os nomes", refere o técnico do Benfica.

Jogadores identificados dentro de portas, aos quais se podem juntar outros, vindos de fora. "Parte da equipa técnica já identificou quais as soluções a procurar caso saia um ou outro jogador. A partir de agora temos de definir as opções para chegar ao plantel que todos desejamos", refere.

Opções a explorar num verão em que Bruno Lage espera reencontrar João Félix. Lage gostava que o avançado de 19 anos ficasse no Benfica. "Eu acho que poderia fazer-lhe bem estar mais um, ou mais anos, dar continuidade ao que foi metade de época fantástica para ele, poder consolidar um lugar na seleção nacional e, depois, com outra maturidade, poder dar um passo ainda maior na sua carreira".

Já o futuro de Jonas está nas mãos do goleador brasileiro. "Antes de ir de férias, disse-lhe que quero que esteja sempre feliz entre nós", revela Bruno Lage. O jogador tem mais um ano de contrato e depois de uma temporada de "sacrifício", o técnico diz esperar pelo avançado para o arranque da nova temporada.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de