Marco Ferreira: a descida de divisão e o telefonema antes de um Rio Ave-Benfica

No Entrelinhas, da TSF, antigo árbitro internacional acusa Vítor Pereira de ter tomado atitudes que não eram compatíveis com o cargo de presidente do Conselho de Arbitragem e fala do telefonema que recebeu antes de um Rio Ave-Benfica.

Foi árbitro internacional durante três anos, mas uma descida de divisão em 2014/2015 tirou-lhe as insígnias da FIFA e, por opção pessoal, o resto da carreira de árbitro. Marco Ferreira, ex-árbitro, é o convidado desta semana do programa Entrelinhas , da TSF.

A descida de divisão do juiz madeirense gerou muita polémica. À época, era Vítor Pereira quem liderava o Conselho de Arbitragem. Em entrevista à TSF, Marco Ferreira refere uma conversa que alegadamente teve com o dirigente e revela mesmo que Vítor Pereira terá incorrido em "atitudes que não são compatíveis com o cargo que desempenhava".

"Nenhum clube tentou, alguma vez, pressionar-me seja para o que for. Acredito que Vítor Pereira, para defender a sua imagem e a sua posição - que já estava muito fragilizada em relação ao presidente Fernando Gomes - tentou agradar a quem ia na frente e a quem via que tinha, realmente, algum poder no futebol. Nesses momentos, por iniciativa própria ou não - só a ele compete dizer - tomou algumas atitudes que não são compatíveis com o cargo que desempenhava", revela o antigo árbitro internacional.

Quanto a quem detinha esse poder, Marco Ferreira afirma: "A equipa que vai na frente é a que tem sempre mais impacto, mais informação e mais divulgação. Falo no poder nesse sentido, o da imagem. Na altura, o Benfica estava à frente." Se o clube criticasse o presidente do Conselho de Arbitragem, defende o ex-árbitro, "teria um impacto muito grande" na imagem de Vítor Pereira. "Atendendo a que ele zelava muito pela sua imagem, não iria querer" que tal acontecesse, pelo que "abdicou das suas responsabilidades ao nível de classificação", sublinha.

Marco Ferreira acredita que a explicação para a sua descida de divisão está relacionada com estes argumentos e recorda mesmo um jogo da temporada em questão, o Rio Ave - Benfica, que os encarnados perderam por 2-1, apitado pelo próprio.

"Vítor Pereira ligou-me na terça-feira e ligou-me na quinta-feira, o que não era nada normal. O tipo de conversa que ele fez - e que todos já sabem, porque a comuniquei até às autoridades - não era compatível com o cargo que ele desempenhava. Disse-me que 'o jogo tem de correr bem, senão não posso contar contigo para o clássico do mês de abril' e depois que 'é preciso ter atenção porque são esses que reclamam' e que era 'o jogo do título'. Quando o questionei sobre por que era o jogo do título - o Benfica estava a quatro pontos de diferença - disse 'sim, mas é diferente o clássico estar com quatro pontos de diferença ou estar só com dois ou com um'", explica o madeirense, reforçando a estranheza da conversa.

O jogo até terá corrido bem, pelo menos "ao nível de observação", mas Marco Ferreira acabou por não ser chamado para o clássico. "Começo a suspeitar sobre se aquela chamada era para me dar confiança para o clássico ou se tinha outras intenções."

Questionado sobre se tem provas desta conversa, o antigo árbitro diz não as ter, mas explica que estava dentro do carro para ir treinar, com um colega ao lado, que terá ouvido a conversa. "Provas não tenho. Infelizmente, neste país, as pessoas cada vez desvalorizam mais a palavra e valorizam mais documentos ou escutas. Sei que tenho razão, não tenho nada a temer. Desde que diga a verdade, facilmente defendo a minha tese", acredita.

Ainda no que diz respeito a conversas entre árbitros e membros da estrutura do Conselho de Arbitragem, Marco Ferreira reconhece que existiam conversas "que não eram claras, mas alguns árbitros percebiam que havia ali uma segunda intenção". Os árbitros comentavam estas interações entre si e identificavam mesmo os interlocutores, afirma, acrescentando: mas evitavam "outro tipo de conversa com pessoas que estavam no jogo, do nosso lado, e que a priori deviam estar na nossa equipa, mas, pelo tipo e conteúdo da conversa, suspeitávamos que haveria interesses além do grupo da arbitragem".

VAR sem árbitros

O VAR é um dos temas que mais tinta tem feito correr no futebol nacional - e até internacional - e Marco Ferreira tem, como antigo interveniente no jogo, uma palavra a dizer. O antigo juiz lembra que a arbitragem é um desporto individual e que, tal como há união, há também muita competitividade.

"É difícil para um árbitro que está a fazer de videoárbitro a um colega - e sabendo que estão os dois com más notas -, se o árbitro não assinala algo em campo, porque é que o VAR é que vai intervir? Para o árbitro ser valorizado porque não cometeu um erro?", questiona.

"Há uma competição, todos querem ser primeiros, mas só um é que o pode ser. Há descidas, há despromoções e ninguém quer ser despromovido", algo que Marco Ferreira diz não poder ser negado pelo Conselho de Arbitragem. "É justo? Foi o que se pôde arranjar, em Portugal é muito ao desenrasque", critica.

E se há uma classificação dos árbitros, há alguém que se destaca por ser o melhor. Para Marco Ferreira, o melhor árbitro português é Jorge Sousa "há muitos anos", sendo "claramente" melhor e "muito mais constante" do que Artur Soares Dias, que "também tem as suas qualidades". "É o protótipo de árbitro de que Collina gosta. Alto e magro como o italiano. Isso também tem alguma influência nas escolhas" para o Grupo de Elite da UEFA.

Já ao "nível de qualidade e análise técnica, Jorge Sousa é muito mais constante e garante sempre uma arbitragem pelo menos suficiente e boa", considera ainda.

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