"Ninguém pode dizer que o árbitro não pode ter clube"

Ex-árbitro João Capela está agora dedicado à ética e... ao basquetebol. O fim da carreira no futebol foi apenas o fim de um ciclo de vida.

João Capela terminou a carreira como árbitro de futebol no final da última época, mas vai dedicar-se a apitar jogos de basquetebol, uma brincadeira que começou pelo facto de a filha ser jogadora da modalidade e que acabou por se tornar algo mais sério.

Neste momento da vida, o ex-árbitro de futebol recorda que, em determinada altura, quando se tem uma época "menos conseguida" e se verifica uma descida de divisão, há que repensar o futuro. "Temos de equacionar, tendo em conta a idade ou a perspetiva do que podemos fazer em termos de carreira, se faz sentido continuar ou não a arbitrar jogos", começa por dizer.

"Achei que a vida me tinha dado um sinal de uma mudança de ciclo, achei que seria o momento ideal para pôr termo a um ciclo de arbitragem no campo e começar outro ciclo, sempre relacionado com a arbitragem e a ética", adianta em entrevista à TSF.

Depois do adeus às quatro linhas, João Capela garante que não vai abandonar a arbitragem nem o desporto, apenas vai mudar o foco para a ética e para o desporto em geral.

"Acho que há muita coisa para fazer na arbitragem, principalmente nesta questão da ética na arbitragem e no desporto em si. Quando conheci o plano nacional de ética desportiva percebi que o desporto é muito mais que a prática desportiva, é um veículo muito importante para uma transformação social, inclusão", explica, enaltecendo que "a ética pode ser uma energia fantástica para impulsionar essa mudança".

Neste sentido, João Capela deu o exemplo do cartão branco, um "sonho" que gostava de ver realizado, nomeadamente nas competições profissionais.

"Qualquer agente desportivo que esteja envolvido naquela competição [pode receber um cartão branco], é uma forma de valorizar um comportamento positivo. O árbitro tem agora a possibilidade de ter um cartão branco que faz com que possa não só ser visto como um agente de punição, mas também como um agente de valorização do espírito positivo do desporto", ressalva.

Agora que deu por terminada a carreira em campo, João Capela admite que "infelizmente" recebeu algumas mensagens intimidatórias. "É uma coisa que acontece a muitos colegas nossos, mais até à nossa família mas que temos de aprender a viver com isso. A solução é, como fiz algumas vezes, mudar de número de telefone, de e-mail e começar a viver", recorda o ex-árbitro.

Capela assegura que nunca o tentaram subornar e relembra apenas momentos difíceis quando era árbitro das divisões distritais, nomeadamente quando teve dificuldades em deixar o estádio, mas realça que não teve "grandes episódios de grande violência".

O ex-árbitro falou abertamente sobre os salários - que reitera serem conhecidos publicamente -, mas garantiu que nem sempre é possível ganhar dinheiro para viver.

"Dá para viver bem, o problema é que para se chegar a este estatuto são precisos no mínimo 15 anos de carreira, onde começamos a ganhar cinco euros por jogo. É uma progressão, não é imediato, não se consegue viver logo da arbitragem", justifica, frisando que um árbitro de primeira categoria ganha 1200 euros num jogo da I Liga, 900 euros na II Liga e depois depende da categoria.

E se há acusações feitas a árbitros, muitas têm a ver com o clubismo, mas João Capela garante que é algo que vai desaparecendo durante a carreira.

"Ninguém nasce árbitro, toda a gente que gosta de futebol nasce com alguma afinidade a um clube, é óbvio. Ninguém pode dizer que o árbitro não pode ter clube. À medida que vamos progredindo na carreira a afinidade clubística desaparece, não tenho dúvidas nenhumas disso. Estamos tão envolvidos na nossa atividade que depois perdemos aquela perspetiva do adepto", reforça o ex-árbitro, mostrando que se deixa de ser adepto para passar a ser árbitro.

"Um árbitro não é adepto de futebol, gosta de futebol, mas é árbitro. Temos sempre de ter equilíbrio. A vertente adepto vai começando a desaparecer", reitera.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de