Liga dos Campeões

Obladi, oblada, fica difícil contra Mané e Salah

Liverpool goleia FC Porto na primeira mão dos oitavos de final, por 5-0, com golos de Mané (3), Firmino e Salah.

Em dia de São Valentim podemos começar com uma frase que deixa qualquer pombinho com pele de galinha: "Temos de falar". O FC Porto caiu esta noite na sua casa, com o Liverpool, numa derrota por 5-0, algo inédito na história do clube. O último a assinar um hat-trick no Porto, tal como Sadio Mané fez esta quarta-feira, foi Bendtner em 2010, ao serviço do Arsenal. Temos de falar...

Sérgio Conceição aplicou a fórmula Champions (ou jogos grandes no início da temporada): três jogadores no meio. Entrou Otávio, quando normalmente entrava Sérgio Oliveira, que vivia feliz com Danilo Pereira nas costas. O trinco da seleção está fora por lesão há várias semanas, por isso é necessariamente um Porto diferente. Herrera mantém-se como o jogador mais rodado para estas andanças. Soares, Brahimi e Marega jogaram na frente. Jogaram pouco.

O que sabíamos de antemão destas duas equipas? Gostam de pressionar e atacar com muito veneno. Verticais, verticais, verticais, com gosto e queda para o golo (Liverpool-94, FCP-90). Uns à base de triangulações rápidas, outros a piscar o olho ao espaço nas costas. O Whoscored diz-nos que o FCP é a segunda equipa do campeonato português com mais posse de bola (57,2%), a mais forte nos duelos aéreos (63,8%), a que faz mais remates por jogo (17,6) e a que acerta mais passes (81,9%). O Liverpool é a quarta equipa da Premier League com mais bola (56,4%), a terceira com mais remates (17,4) e a quinta com melhor acerto no passe (83,3%). Estes valores quase convidam a desvirtuar a teoria da verticalidade, mas é preciso contexto. Sim, por vezes têm paciência e ficam atrás a trocar a bola, mas assumir o jogo, pegar na bola e furar, estacionar no meio campo rival não se vê assim tanto. Funciona tudo mais ou menos através de contra-ataques. É a essência. Veneno, fúria e rock'n'rol.

O FC Porto não foi o FC Porto que gosta de morder os calcanhares, que prefere pressionar quase ao estilo do Liverpool, que impôs a primeira derrota do Manchester City esta época na liga graças a este gegenpressing de Klopp. É difícil ter pernas para acompanhar. Conceição explicaria no final do jogo a ideia: eles atraem, jogam longo e depois apostam na segunda bola, com uma agressividade tremenda. O FCP abdicou da bola e deixou pensar uma equipa que nem gosta muito de pensar, que talvez nem o saiba fazer muito bem. Os médios não são criadores, não se veem muitos passes verticais, muitas linhas queimadas, muitas saídas de pressão. Saudades de Coutinho, certo? Isto vive da pedalada, talento dos avançados, que comem todos à mesma mesa, ouvindo a mesma música romântica acelerada.

Os portugueses até foram os primeiros a criar perigo, por Otávio. O brasileiro teve minutos muito interessantes, com toques de primeira, paredes, simplificando o jogo alheio, jogando para os colegas. Basicamente, fez o que viu e não fez o que não viu. Bola no pé para os colegas. A partir dos 20 minutos a cantiga começou a desafinar...

Com o Liverpool a crescer, Mané fez o primeiro da noite aos 25' -- José Sá ficou mal na fotografia, em dose dupla, pois foi apressado a colocar a bola em jogo. Wijnaldum forçou pelo corredor central, viu o remate bloqueado, recuperou e tocou para o senegalês. O segundo chegou a seguir, quatro minutos depois, por Salah. Agora era uma armadilha: o FCP vai querer mais bola, vai abrir mais espaços, vai querer atacar. Bom, más notícias, senhores: é por isto que o Liverpool suspira. Soares ainda ameaçou, depois de uma bela bolinha engendrada por Otávio e Brahimi, mas falhou a mexida no marcador por alguns centímetros. Intervalo no Dragão. O PSG ia vencendo o Real no Bernabéu (Real venceria por 3-1).

Otávio foi o primeiro a saltar, foi logo ao intervalo (fatigado, admitiria no final Conceição). Para quem gosta de ver gente com coragem para tocar, o brasileiro parecia dos mais audazes. Entrou Corona, para abrir pela direita mas também para procurar espaço no interior, para ver a subida de Ricardo. Marega, pois claro, seguiu para o meio, onde as limitações técnicas se tornam mais evidentes.

Mané voltaria a marcar mais duas vezes, sendo que um deles, o último, seria um golaço. Firmino marcou o golo que falta, depois de um cruzamento à vontade de Milner. A simplicidade do contra-ataque, que encontrou algumas vezes um três contra três, é a versão favorita deste Liverpool.

Ao 4-4-2, que parecia fazer desligar ainda mais os jogadores do FCP (atenção ao resultado, claro), juntaram-se os três centrais da equipa visitante, que também sabia fazer uma linha de cinco para fechar subida aventureiras. O FCP teve pouca qualidade com bola e foi menos agressivo que o adversário sem ela. Assim fica complicado. Pior quando o que foi refrescado foi o ataque, com Waris e Gonçalo Paciência (saíram Brahimi e Soares). Ou seja, a chave nunca esteve no pensamento, na criação de jogo no meio campo, na subida em bloco com a bola, na tal viagem que os treinadores falam. Nop, foi sempre o ataque.

"Não fomos aquela equipa intensa do costume...", sentenciaria no final da partida Herrera, que sofre com aquele vaivém cheio de músculos e aceleração dos rivais. "Os erros pagam-se caro", refletiria Conceição, lembrando que este 0-5 "não belisca o que foi feito até agora".

Conclusão: o FCP perde a primeira mão dos "oitavos" da Liga dos Campeões por 5-0, um resultado inédito no Dragão nesta competição. Mais: o FCP nunca tinha sofrido mais do que três golos em casa. Segundo o Playmakerstats, Mané copiou o que quatro jogadores já haviam feito na Europa: um hat-trick na sua casa.

A segunda mão joga-se dia 6 de março, em Liverpool, a terra dos Beatles, no mítico Anfield, que conta já ter a eliminatória no bolso. Bom, mas isto é futebol, senhoras e senhores. Nunca se sabe...

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