Taça dos Libertadores

River-Boca em Madrid, uma final glocal-surreal na capital do… "Império"

De final mais aguardada de sempre da Taça dos Libertadores (equivalente sul-americana da Liga dos Campeões), o confronto entre os arquirrivais de Buenos Aires, Boca Juniors e River Plate, transformou-se numa novela de contornos quase surreais, cujo epílogo terá lugar na Europa, em Madrid, no estádio Santiago Bernabéu, ao fim da tarde deste domingo.

A competição chama-se Taça dos Libertadores, uma referência aos líderes dos Movimentos de Libertação da América hispânica e do Brasil, nos séculos XVIII e XIX, o que torna ainda mais irónica a escolha de Madrid (a capital dos "Conquistadores da América"), para palco da segunda mão da final, entre RIver Plate e Boca Juniors.

A opção da Confederação Sul-Americana tem como (pobre) justificação o facto do Campeonato do Mundo de Clubes se disputar a partir da próxima quarta-feira nos Emirados Árabes Unidos. É inegável que Madrid fica mais perto dos Emirados do que Buenos Aires, mas também é verdade é que o representante sul-americano apenas entra na prova nas meias-finais, no dia 18 de dezembro, nove dias depois da segunda mão da Libertadores.

Como tantas vezes acontece, paga o justo pelo pecador. Por causa do comportamento lastimável de meia dúzia de fanáticos, a maioria esmagadora dos apaixonados adeptos do River Plate perdeu a possibilidade de assistir ao vivo a um jogo ao qual apenas eles tinham acesso - tal como aconteceu na primeira mão com os adeptos do Boca Juniors. Isto para não falar do facto do River desperdiçar a vantagem de jogar em casa esta partida decisiva.

E, como até as regras da Libertadores são surreais, mesmo a aparente vantagem do River por ter empatado a duas bolas em La Bambonera, na primeira mão, não lhe serve de nada. É que a "regra dos golos marcados fora de casa" aplica-se em toda a competição menos na final. Assim sendo, começa tudo de novo, o primeiro jogo é como se não tivesse acontecido, e este encontro em campo neutro decide tudo: em caso de empate nos 90 minutos regulamentares, há prolongamento e, se necessário, desempate por penáltis.

Fica pelo menos a consolação de o estádio escolhido para a final ser um dos mais míticos da história do futebol mundial. Palco de finais de um campeonato do Mundo (1982), de um Europeu (1964) e de quatro Taça/Liga dos Campeões (1957, 1969, 1980 e 2010), o Santiago Bernabéu é ainda a casa do clube mais bem-sucedido de sempre à escala global, o Real Madrid.

No domingo, em Madrid, estarão frente a frente dois clubes que nasceram no mesmo bairro, La Boca, da zona portuária de Buenos Aires, na primeira década do século XX. Aí nasceu uma rivalidade sem igual a nível planetário, segundo muitos especialistas. O jornal inglês "The Observer" elegeu mesmo este dérbi como uma das 50 coisas a ver antes de morrer, na área do desporto, considerando que o ambiente tenso do "Superclássico" faz parecer o "Old Firm" (o dérbi de Glasgow, entre Rangers e Celtic) um jogo da escola primária.

Esta rivalidade de bairro é hoje quase um ódio visceral, com Boca e River a dominarem quase por completo o futebol argentino, tanto em termos de adeptos (cerca de 40% dos argentinos são do Boca e 30% do River) como de títulos nacionais conquistados (36 pelo River e 33 pelo Boca). Curiosamente, o Boca é mais forte do que o River no que diz respeito a títulos internacionais ganhos (22-16, com 6-3 na Taça dos Libertadores). A qualificação das duas equipas para uma inédita final da maior competição continental provocou quase tanta alegria entre aqueles que cultivam o amor pelo "beautiful game" como preocupação: é que rapidamente se percebeu que este confronto se assumiria como "demasiado" importante e que a derrota seria quase inaceitável para os adeptos da equipa menos feliz da final.

O historial de violência entre adeptos "Xeinezes" (os do Boca, em referência às origens genovesas de muitos deles) e dos "Millionários"(os do River, que se mudou para uma zona mais abastada de Buenos Aires na década de 30) é longo e chega a ser assustador: em 1968 morreram 71 adeptos do Boca no estádio Munumental, do River, após um jogo entre as duas equipas, na sequência de uma situação de pânico na bancada dos adeptos visitantes; e desde então os múltiplos casos de conflitos mortais nestes dérbies levaram a que estes passassem a ser de "torcida única", a do clube da casa.

Este domingo os velhos rivais de bairro jogam bem longe de casa e estarão sob o olhar do Mundo, até porque os grandes jogos das ligas europeias foram realizados na sexta e no sábado, devido à jornada da Liga dos Campeões da próxima semana. Será um verdadeiro caso de "sente local" e "pensa global", com muitos milhões de dólares pelo meio, mas no fim espera-se que o grande vencedor seja o futebol, o único jogo-desporto-fenómeno social verdadeiramente "glocal"!

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