Teodoro aproveitou a reforma e trocou o sofá pelo desporto adaptado

Teodoro Cândido perdeu a perna aos 32 anos mas só descobriu o desporto adaptado aos 62 anos, depois de ver que a equipa de andebol portuguesa estava cheia de atletas "de cabelos brancos".

Teodoro Cândido lembra-se bem do dia em que decidiu começar a praticar desporto adaptado. "Eu estava sentando no sofá a ver televisão - era vida de reformado - e estava a dar as notícias e reparei que tinha chegado da Bélgica a seleção de andebol".

O atleta nem sabia que havia uma equipa de andebol em cadeira de rodas e foi pesquisar. "Comecei a ver vídeos, vi que grande parte dos jogadores que praticavam a modalidade, tinham cabelos brancos já. E eu pensei que também tinha hipótese".

Foi até ao treino da Associação Portuguesa de Deficientes de Lisboa e saiu de lá integrado na equipa de andebol e de basquetebol. "Eles gostaram de mim e pediram também para jogar basquete. Sim senhor, eu jogo basquete".

Além do andebol e do basquetebol, Teodoro também se dedica à vela e ao ténis de mesa adaptado. As atividades preenchem-lhe os dias mas anda feliz. "Foi a melhor coisa que me apareceu. Eu quando em sento em cima desta cadeira, a gente não pensa em mais nada. Só se pensa naquilo".

Ténis de mesa adaptado

Teodoro Cândido treina todas as semanas no Grupo Desportivo de Monte Real em São Domingos de Rana para o ténis de mesa. Também descobriu a modalidade por acaso. "Fui com um colega meu que joga basquete, que ainda é mais velho do que eu. Fomos a Setúbal a um torneio de ténis de mesa e gostei de ver aquilo. Começamos por concorrer com o nome da Associação Portuguesa de Deficientes de Lisboa mas depois houve uns desentendimentos e eles acabaram com o ténis de mesa e vim aqui ao Monte Real e eles deixaram-me vir para aqui treinar. E tem dado resultado".

No ano passado, Teodoro Cândido foi campeão nacional de ténis de mesa em cadeira de rodas pela Federação Portuguesa de Ténis de Mesa, apoiada pelos Jogos Santa Casa. O atleta admite que o bichinho do desporto vai crescendo com a competição. "Eu pratico desporto para competir e para ganhar. Se não for para ganhar não vale a pena. Eu posso não ganhar o torneio mas tenho de dar luta".

O desejo de ganhar vale para o ténis de mesa mas também para as restantes modalidades. No caso do andebol, Teodoro não esquece a participação no campeonato da Europa.

"Foi uma experiência como eu já não esperava. Com esta idade, com 65 anos. Eu tinha idade para ser avô de alguns atletas que andavam ali", conta. "Foi muito bom. Não há palavras. É qualquer coisa de extraordinário. Jogar contra uma Alemanha, contra uma Bulgária, contra uma Itália, chegar ao fim e ganhar. Foi uma experiência única. Aliás, a nível desporto, possivelmente não terei outra experiência igual", recorda.

Começar tarde, mas começar

Quem vê Teodoro Cândido não lhe dá mais do que 55 anos. Talvez seja o desporto adaptado que lhe mantém a frescura, apesar de ter começado tarde. "Comecei aos 62 anos. E já não restam muitos mais anos. Com esta idade, já não podemos esperar muito".

Apesar de praticar vários desportos, o atleta não esconde a paixão pelo andebol, talvez por ser uma modalidade que começou a praticar ainda antes de ter sido operado. Aos 32 anos, teve de amputar uma perna devido à doença de Buerger, uma patologia que afeta as veias e as artérias dos membros inferiores e superiores.

"Tenho uma doença que me estrangula as veias e o sangue não passa. Eu andei com uma ferida num pé durante nove meses. Ia aos médicos e ao fim de nove meses é que eles descobriram que o sangue não passava e não alimentava a ferida e a ferida manteve-se ali nove meses. Depois levei as veias plásticas, andei ainda cinco anos com as veias plásticas, mas depois isto voltou tudo a entupir. Voltei a ser operado, levei novamente veias plásticas. 48 horas depois entupiu tudo outra vez, tornei a levar veias plásticas mas depois já não deu para meter mais. Tive de amputar a perna", recorda.

Não foi fácil perder a perna aos 32 anos mas Teodoro Cândido garante que foi à luta e adaptou-se à nova vida. "A minha sorte é que eu trabalhava por minha conta e consegui conjugar as coisas".

Conta que só teve dificuldades no primeiro ano, depois disso voltou à antiga rotina. "Eu trabalhava na construção civil, era serralheiro. Eu subia e descia andaimes, havia pessoas que nem sabiam que eu não tinha uma perna".

Aos 65 anos, faz a vida entre a cadeira de rodas e a prótese mas são investimentos nem sempre fáceis de suportar. "Estou à espera que me arranjem uma prótese nova. Isso é outro cancro. Para termos uma prótese, leva-se anos e anos. Uma cadeira destas, nova - a mais barata - custa mais de 4 mil euros. Não é brincadeira".

Mas desde que descobriu o desporto adaptado, há menos tempo para pensar em mazelas. "Eu sinto-me muito bem a praticar este tipo de desporto. Tinha noites que eu nem dormia, com aquela ansiedade de jogar, na noite anterior. É uma felicidade enorme".

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