Jesualdo Ferreira recorda as conversas sobre futebol "puro" com Xavi

Desejado pelo Barcelona, Xavi Hernández partilhou balneário com o treinador português Jesualdo Ferreira, o técnico a quem o espanhol sucedeu. Foi a primeira aventura como treinador principal do antigo médio catalão. Mas que ideias partilhavam no balneário do Al Sadd?

No Qatar, Xavi Hernández tomou pela primeira vez contacto com uma realidade diferente daquela que tinha conhecido em Barcelona. Mas futebol daquele clube - e a cultura desportiva - estava-lhe na pele. Está ainda, garante Jesualdo Ferreira, o último treinador de Xavi. Esse é um trunfo para o antigo médio. Nesse encontro no Al Sadd, as conversas entre o professor e o médio espanhol passavam muitas vezes por aquela proposta que o Barcelona expunha no relvado.

"Aquilo que nós conversávamos era, sobretudo, de futebol puro. Era sobre algo que nos satisfaz enquanto treinadores e jogadores. Ele sentia um grande prazer no futebol do Barcelona. Nós, enquanto espetadores, sentimos um grande prazer com aquele futebol", explica Jesualdo Ferreira à TSF. "Agora, como treinador, vai ter que perceber que, muitas vezes, aquilo que no passado foi verdade, pode não ser verdade agora. Tem de ter capacidade para alterar algo, sem nunca fugir daquilo que são as suas ideias", e isso é válido tanto para o Barcelona como para outro contexto.

Em 2019, Jesualdo Ferreira conquistou o título no Qatar e deixou o comando técnico do Al Sadd. Deixou a pasta para o seu capitão de equipa, Xavi Hernández, lenda do Barcelona, pela primeira vez na carreira longe da Catalunha e do futebol que o apaixonava. "Estivemos juntos quatro anos no Al Sadd. Cheguei numa altura em que o clube estava muito mal." No percurso comum, o Al Sadd bateu o pé aos clubes de Coreia do Sul e Japão que dominavam as provas do continente asiático. "O Xavi curiosamente nunca foi considerado o melhor jogador, nunca percebi porquê", aponta o treinador português.

"Poderia dizer que, para mim, Xavi foi a confirmação de como são os campeões. Há uma grande diferença entre esses campeões e alguns grandes jogadores que existem, mas que acabam por não ter esses comportamentos." O médio pertencia a uma casta diferente, vencedora, lembra Jesualdo Ferreira. "Xavi foi sempre alguém cumpridor das suas funções enquanto jogador, aliás, ele tinha muito mais funções que treinar e jogar no Al Sadd."

Barcelona como segunda pele

"Penso que será como treinador aquilo que foi como jogador. A mentalidade do Xavi é uma mentalidade do Barcelona, isso é claro. Ele vê o jogo como Barcelona, como via no seu tempo de jogador." Mas a realidade do clube é diferente da que o antigo médio conhecia. "As equipas do Barcelona do passado tinham um jogador que acabou por ser decisivo na sua história e que, agora se repara, não é tão forte assim, estamos a falar de Messi." Já Ronald Koeman, encontrou um contexto desfavorável, um clube em crise. Mas também ele, Koeman, havia sido jogador do Barcelona, partilhava da cultura do clube, era um símbolo.

"[Xavi] tem pelo menos uma coisa importante para aquele clube: conhece bem o Barcelona. Já os adeptos também o conhecem muito bem. Mas ele [Xavi] conhece todos os jogadores, porque, embora esteja afastado há alguns anos, nunca deixou de acompanhar o clube, de acompanhar o futebol espanhol", avalia Jesualdo Ferreira.

"Ele agora tem a possibilidade de perceber que o Barcelona foi um Barcelona, mas agora terá de ser outro (...) Xavi tem um lastro do clube e do futebol internacional que lhe dão à partida condições para enfrentar esse desafio. Mas, meu caro, para se poder dizer que um indivíduo vai ser treinador ou não, é preciso que esteja no terreno, que tenha o tempo necessário para provar aquilo que diz ter", avisa Jesualdo Ferreira.

"Todos nós conhecemos grandes jogadores que acabaram por não ter sucesso, mas também conhecemos outros que tivemos", lembra o treinador português. "Motivado como deverá estar, pode ser uma alavanca muito grande para o Barcelona, clube que está, de facto, mal, que precisa de uma outra ideia. Mas recordo que Koeman foi campeão europeu no Barcelona. Muitas vezes são os momentos que determinam o sucesso do treinador (...) Xavi vai ter uma prova de fogo, vamos ver como ele se vai mexer nesse espaço."

As ideias de Xavi como jogador e treinador

Nos quatro anos de convívio, Jesualdo Ferreira e Xavi partilharam ideias sobre futebol. "Tivemos oportunidade de conversar muitas vezes sobre algumas questões do próprio Barcelona no qual ele era intérprete direto. A diferença que existia era a minha experiência como treinador. Na altura, aquela era uma conversa entre um treinador com muitos anos de futebol, com passagens por alguns continentes, e aquilo que era o futebol que o Xavi jogou (...) mas foi nesse quadro que sempre nos entendemos muito bem. Eu próprio sempre fui admirador do trabalho do Guardiola, sabendo que há muito mais, que a história do Barcelona é muito longa."

Foram essas ideias que originaram longos debates, também naquele balneário no Qatar. "O Barcelona tinha acima de tudo uma capacidade muito grande de controlar o jogo através da forma como posicionava os jogadores e da forma como recuperava rapidamente a bola. Ao contrário do que a maioria das pessoas dizia, o Barcelona não dominava por ter uma grande quantidade de posse mas sim, porque conseguia movimentar a equipa toda para um determinado espaço."

"Os conceitos que ele tem são claramente aquele que recordamos que o Barcelona tinha. Estou convencido que, se falar com outros treinadores, ninguém está 100% de acordo com aquilo que são os processos daquela equipa ou dos jogadores. Houve momentos em que aquele Barcelona foi brilhante. Houve outros momentos em que teve algumas deficiências, sabemos que eles não venceram sempre. O Barcelona também perdeu." A realidade do clube catalão é hoje muito diferente.

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