Benfica

Jesus consolidou Vieira. Agora regressa para o salvar

No Benfica, Jorge Jesus vai cumprir o 32.º ano de carreira. Regressa à casa que o projetou a nível internacional, onde conquistou os primeiros títulos. Agora, volta com um estatuto diferente daquele com que saiu.

A final de Lima marcou um momento histórico para Jorge Jesus. O treinador teve de esperar pelos 65 anos, por uma ida para o lado de lá do Atlântico, por um plantel considerado o melhor da América do Sul, por um clube com mais, dizem, de 40 milhões de adeptos, para chegar àquele dia. Lima viu Jesus consagrar-se como um nome forte do futebol internacional, somar aos diversos títulos nacionais no Brasil e em Portugal um título internacional, a Copa Libertadores.

Alguns meses depois, na final frente ao Liverpool, no Mundial de Clubes, a exibição daquele grupo de jogadores do Flamengo deixou perceber que também aquela prova, frente à, provavelmente, melhor equipa do mundo, poderia ter sido conquistada por Jesus.

Não fosse a pandemia, Jorge Jesus poderia até ter repetido os feitos. Disse-o publicamente quando renovou o contrato com o Flamengo, que queria voltar a ganhar tudo: Brasileirão, Libertadores e, desta vez, Mundial de Clubes. Apesar das aproximações constantes do Benfica - sobretudo depois da saída da Rui Vitória -, a janela de oportunidade para o reencontro com o amigo, Luís Filipe Vieira -, Jorge Jesus chegou a acordo para ficar mais um ano no Brasil. Pelo menos mais um, com garantia de um plantel ainda mais recheado, e, sobretudo, da manutenção de alguns dos melhores jogadores.

O novo contrato previa, no entanto, uma possibilidade de fuga. Uma cláusula de um milhão de euros que poderia ser ativada pelo treinador caso quisesse sair para a Europa, em especial para destinos como Portugal ou Espanha, que agradavam ao treinador. Foi esse o alçapão utilizado pelo Benfica para se reaproximar do treinador. A pandemia facilitou um acordo que parecia impossível ou, no mínimo, improvável.

32 anos de carreira

O "mestre da tática", como o apelidam alguns jogadores, esperou várias décadas para chegar ao topo. 31 temporadas como treinador - a próxima, no Benfica, será a 32.ª -, logo depois de uma carreira como jogador profissional.

Começou no Amora, onde conseguiu a subida de divisão à Liga de Honra (II divisão na época), em 1991/1992. Subiu o Felgueiras à 1ª liga em 1994/1995. Passou depois por uma sequência de clubes primodivisionários. União da Madeira, Estrela da Amadora, Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães, Moreirense, União de Leiria, Belenenses e Sporting de Braga.

A que conseguiu em Belém e a qualidade de jogo da equipa do Belenenses, convenceram o presidente do Sporting de Braga, António Salvador. O meio-campo do Belenenses tinha um alinhamento profético. Rúben Amorim (treinador do Sporting), Zé Pedro (ex-treinador adjunto do Sporting), Silas (ex-treinador do Sporting), qualquer um deles com percurso como treinador nos anos seguintes e que, sempre elogiaram Jorge Jesus. E haviam ainda Meyong (adjunto no Vitória de Setúbal), Hugo Leal, Cândido Costa.

Em Braga, Jorge Jesus conquistou a Taça Intertoto, as foi na Liga Europa que o clube se destacou, com exibições de encher o olho. Exibições que convenceram Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica que em quase um década de liderança apenas tinha vencido um campeonato, em 2004/2005 com Trappatoni. Vieira queria um treinador português, depois das experiências falhadas com Ronald Koeman e Quique Flores - pelo meio o malogrado Fernando Santos, que deixou boa imagem na primeira temporada, mas sucumbiu rapidamente na segunda -, Vieira queria um técnico conhecedor do futebol nacional, com um estilo de jogo atrativo. Jorge Jesus assinou em 2009 e foi campeão na primeira época.

Benfica. As finais perdidas e a confiança de Vieira

No Benfica, Jorge Jesus somou, em seis anos, três campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e cinco edições da Taça da Liga. Faltou-lhe a consagração europeia, que esteve muito perto de conseguir em duas ocasiões.

Mas resumir a passagem do treinador aos títulos não basta. Campeão na primeira temporada, Jorge Jesus ficou longe de repetir o feito na segunda época. Perdeu inclusive no Dragão por 0-5 com o FC Porto de André Villas Boas, e foi eliminado nas meias-finais da Liga Europa pelo Sporting de Braga de Domingos Paciência. A vontade de Luís Filipe Vieira segurou o treinador.

Nas duas épocas seguintes o Benfica voltou a ficar em segundo. O FC Porto de Vítor Pereira conquistou dois campeonatos consecutivos. O segundo foi o mais duro, com uma derrota no Dragão num remate certeiro de Kelvin, que deixou Jesus prostrado no relvado do estádio do rival. O Benfica acabaria, quatro dias depois, por perder também a Liga Europa na final frente ao Chelsea, e a final da Taça de Portugal frente ao Vitória de Guimarães de Rui Vitória. Mais uma vez, perante um coro de críticas, Vieira segurou o amigo, Jorge Jesus.

A confiança foi retribuída com títulos. Dois consecutivos de Jorge Jesus, uma nova final da Liga Europa perdida frente ao Sevilha, na qual, uma vez mais, ficou a sensação que o Benfica tinha ficado muito perto, demasiado perto, que bastaria uma nova oportunidade para quebrar a maldição de Bella Guttman, de voltar a ver os encarnados festejar na Europa, cinquenta anos depois.

Jorge Jesus deu a Vieira aquilo que o presidente do Benfica precisava para cimentar a liderança do clube. Títulos, três em seis anos de Jorge Jesus. Uma etapa marcante na recuperação do clube encarnado que o presidente encontrou em destroços no inicio da década de 2000. Dez títulos em seis anos, mais do que qualquer outro treinador do clube da Luz.

Sporting: o clube do pai e o drama de Alcochete

Com enorme polémica, Jorge Jesus mudou-se no verão seguinte, com estuto de campeão nacional, para o Sporting. O presidente Bruno de Carvalho aproveitou o fim de contrato de Jesus com o Benfica para o convencer a assinar por um projeto ambicioso, no clube onde o pai de Jorge Jesus tinha sido atleta profissional.

E Jorge Jesus esteve muito perto de voltar a ser campeão. 2015/16, ao somar 86 pontos. O Benfica de Rui Vitória, o "Ferrari", como apelidou ironicamente Jorge Jesus, somou 88 pontos.

Nas duas temporadas seguintes falhou o título, apesar de ser reconhecida pela crítica a qualidade do jogo apresentado nos leões, ou a valorização de atletas como João Mário, Rui Patrício, William Carvalho, Adrien Silva - base na seleção campeã da Europa de 2016 por Portugal -, Slimani, Rúben Semedo, Bruno Fernandes, entre outros.

A 15 de maio de 2017 tudo mudou. Jesus fez as malas e deixou o Sporting depois da invasão à academia de Alochete. No Sporting somou dois títulos, com a Supertaça em 2016, frente ao Benfica, logo na estreia, e ainda uma Taça da Liga (2017(2018).

As viagens de Jesus. Arábia Saudita e Brasil

A primeira oportunidade de Jorge Jesus fora de Portugal chegou já perto da terceira década de carreira como treinador. O Al-Hilal não era o destino mais desejado para um treinador que nas épocas anteriores, tinha recebido convites de clubes de topo na Europa. Rejeitou os convites porque queria ganhar títulos, e isso poderia acontecer tanto no Benfica como no Sporting. Acabou por sair do clube sem fechar a temporada, depois de uma rescisão de contrato quando os dirigentes do clube saudita queriam um acordo de longa duração.

Meses depois Jorge Jesus era apresentado como novo treinador do Flamengo. Num clube que diz ter mais de 40 milhões de adeptos, o treinador português teve de conquistar a opinião da crítica e dos dirigentes locais com vitórias. Os primeiros meses revelaram uma equipa em crescendo, com mudança radical na prestação de alguns atletas do plantel.

Cinco meses depois era campeão da Taça Libertadores da América e ainda campeão brasileiro. Ouvia no Estádio Maracanã o seu nome elevado ao estuto de herói, num estádio que guardava memórias longínquas da glória com nomes como Zico, na distante década de 1980.

Dois golos de Gabriel Barbosa na final de Lima, no Perú, aos 89 e 90+2 minutos, valeram a Jesus uma vitória por 2-1 sobre o River Plate. Era uma forma de compensar o golo nos descontos do Chelsea e os penáltis do Sevilha, nas duas finais da Liga Europa perdidas pelo Benfica, a confirmação que Jorge Jesus também sabia ganhar nas provas internacionais. "Só ganha quem chega às fases decisivas sempre", dizia Jesus no Benfica.

Faltou apenas a conquista do Mundial de Clubes. No prolongamento, o Flamengo acabou por cair perante o Liverpool de Jurgen Klopp, campeão da Europa. Nas bancadas ouvia-se então: ""Volta para o trio". Os adeptos pediram, Jorge Jesus acabou por assinar novo contrato, com o objetivo de garantir novo título brasileiro, novo título da Libertadores e ainda o Mundial de Clubes.

Faltou apenas no Brasil a Taça do Brasil e a Taça Rio, ambas perdidas nas grandes penalidades. Ainda antes do mais do que provável regresso a Lisboa, Jorge Jesus venceu o Fluminense, o arquirrival do "Mengão", numa final a dois jogos do campeonato Carioca.

Jorge Jesus, sempre Jorge Jesus

À saída para o Sporting seguiu-se um processo judicial do Benfica contra o treinador. As águias acabaram por chegar a um acordo com o técnico e, nos meses seguintes, Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira voltaram a reatar a relação próxima que mantinham. Nas visitas a Portugal, os dois amigos ter-se-á encontrado várias vezes, mantido conversas ocasionais, onde o futebol não deixava de marcar presença.

A saída Bruno Lage das águias acabou por reacender o interesse do Benfica no treinador. Mas para levar novamente Jorge Jesus para a Luz, Luís Filipe Vieira sabia que teria uma missão diferente daquela que teve quando elegeu Jesus para treinador em 2009. Jesus era consensual no Brasil, elogiado amplamente pela crítica em Portugal, tinha um contrato milionário assinado recentemente, um plantel recheado de estrelas que tinha selado um "pacto". Ninguém saía, técnico incluído, antes do próximo mundial de clubes, no Qatar.

A pandemia mudou o cenário no futebol brasileiro. As dúvidas sobre a realização do campeonato, da Libertadores e do Mundial de Clubes adensam-se. Luís Filipe Vieira tem agora um trunfo na mão. Mas tinha também pressa. Com eleições à porta, viu um cartão amarelo dos adeptos ao chumbar em assembleia geral de sócios as contas do clube.

As eleições devem acontecer em outubro, mas até lá, o Benfica tem uma final da Taça de Portugal frente ao Futebol Clube do Porto, em Coimbra, uma pré-eliminatória que se avizinha complicada para passar na Liga dos Campeões, já em setembro, logo depois do arranque da nova temporada. Há ainda a sombra dos processos judiciais, como a investigação do fisco onde Luís Filipe Vieira é arguido. Se o Benfica passar da pré-eliminatória terá ainda de jogar playoff de acesso aos milhões da Liga dos Campeões, mesmo antes do ato eleitoral. E o Benfica sem treinador, com uma solução interna, Luís Filipe tem muita urgência.

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