João Noronha Lopes, candidato à presidência do Benfica
Entrevista TSF

"Eu festejo as vitórias e não as vendas dos jogadores" do Benfica

É candidato às eleições do Benfica como adversário de Luís Filipe Vieira. João Noronha Lopes, gestor de profissão, quer interromper o reinado de 17 anos do atual presidente. Em entrevista à TSF, garante um projeto para conquistar a hegemonia do futebol português e ter mais sucesso na Europa.

Ser o presidente do Benfica é um sonho antigo ou sentiu-se pressionado por alguns benfiquistas para avançar para esta candidatura?

Ser presidente do Benfica é um sonho antigo, e o meu pai diz-me que eu, com seis ou sete anos, já falava disso. Mas, sinceramente, não me lembro. Mas sempre foi algo que pensei que podia fazer um dia, quando tivesse disponibilidade e tempo, e numa fase da minha vida que pudesse dedicar-me ao Benfica a cem por cento, e principalmente quando eu achasse que podia contribuir com a minha experiência. Esta oportunidade nasceu agora. Falei com muita gente, falei com a minha família e amigos e com pessoas que eu respeito e resolvi que seria a altura certa para me candidatar.

Foi o João Noronha Lopes que tomou a iniciativa, não foi pressionado?

Era o que faltava, ser pressionado. Eu é que tomei a iniciativa. Ser presidente do Benfica é um ato de paixão e de voluntarismo e que é tomado pela própria pessoa.

Já disse que Luís Filipe Vieira fez coisas boas no Benfica, mas o que fez Vieira de mal para avançar para esta candidatura?

Todos os benfiquistas estão reconhecidos ao trabalho que foi anteriormente feito ao nível da profissionalização e crescimento do clube. O que está agora em causa não são os 17 anos de Vieira. Estas eleições julgam o último mandato do atual presidente. E essa avaliação é negativa. Em primeiro lugar, pela gestão desportiva. Cometeram-se erros e voltaram-se a cometer os erros que nos custaram o penta, bem como o campeonato do ano passado, e isso aconteceu porque não há uma organização sólida do futebol do Benfica e estruturação sólida. Há um homem que decide sozinho na matéria do futebol. Tem de haver ambição desportiva. Para nos transportarmos para a Europa, para além da fase de grupos da Liga dos Campeões. Isso nunca aconteceu e nunca se criou uma estrutura profissional para chegarmos mais longe.

Também acredita que o Benfica pode ser campeão europeu?

Eu acredito que o Benfica tem de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ser campeão europeu. É possível fazer mais e melhor do que o Benfica tem feito na Europa. E, com as receitas que o Benfica tem hoje em dia, é possível fazer muito melhor. Não me estou a comparar em termos de orçamento com o Bayern ou Manchester United, mas, se compararmos com países com realidades semelhantes, podemos ver clubes a ir mais longe do que o Benfica.

O Ajax, por exemplo?

Um dos exemplos. Qual é a diferença desses clubes para o Benfica? Chama-se competência e capacidade de organização desportiva, que é aquilo que o Benfica não tem tido. Já estivemos em quinto lugar do ranking, depois passamos para o nono lugar e agora já estamos fora do top 20.

Com as receitas que nós temos é possível fazer muito mais e melhor termos desportivos, e depois podemos atrair mais receitas da UEFA, mas também as receitas de "merchandising", que tem um potencial enorme de crescimento fora de Portugal, e que não está a ser aproveitado porque não há um bom desempenho desportivo.

Acredita numa aposta na formação para chegar a esse patamar europeu ou num bom "scouting" que permite trazer bons jogadores?

Eu acho que tem de ser o equilíbrio das duas coisas. O Benfica tem uma das boas escolas de formação. Agora temos de conciliar uma boa formação com o reforço de um bom "scouting", para trazer bons jogadores de forma cirúrgica.

Não gostou da política desportiva deste ano do Benfica, dos reforços que chegaram?

O Benfica não tem uma política desportiva, tem uma política eleitoral. O Benfica não foi buscar bons jogadores nas alturas em que devia. Porque, se tivesse gasto menos de metade do que gastou este ano, teria sido campeão e tinha também conquistado o penta. O Benfica tem de ter um projeto desportivo ancorado num diretor desportivo que é o responsável pela formação, pelo "scouting" e pela área internacional. Com esta organização e a pessoa certa, o Benfica consegue ir buscar os jogadores certos. Porque já este ano o Benfica andou um mês atrás de um fantasma.

Cavani?

Sim, o Cavani. Depois chegámos ao jogo mais importante da época para tentarmos ir longe na Liga dos Campeões e o Benfica não tinha o plantel fechado, o que foi dito várias vezes pelo próprio treinador. Ou seja, voltaram-se a repetir os erros de planificação.

E isso foi decisivo para o falhanço do Benfica no jogo com o PAOK?

Sim, foi completamente decisivo. Aliás, isso é dito pelo próprio treinador, que não tinha os jogadores necessários para atacar o primeiro jogo da época. Portanto, nós cometemos erros desportivos nos últimos anos e que se foram repetindo, mesmo tendo gasto os milhões que gastámos esta época. Por isso, chego à conclusão de que não há organização e definição de hierarquias no planeamento do futebol.

Também teria escolhido Jorge Jesus para treinador?

Sempre disse que Jorge Jesus é o treinador do Benfica, e vai ser o meu treinador. O Jorge Jesus vai colocar o Benfica a jogar à bola. Vamos ser campeões e conquistar a Liga Europa. E é isso que todos queremos. Depois de falharmos o grande objetivo que era estar na Champions, porque é aí que temos de estar, acho que, com Jorge Jesus, vamos ter esses resultados. Mas se nós tivéssemos feito o nosso trabalho com competência, estávamos na Champions Como não fizemos, fomos obrigados a vender jogadores. Por isso vendemos o passe do Rúben Dias.

Mas não considera um bom negócio?

Eu vejo de outra maneira. Temos de criar condições para ganhar e chegar longe na Liga dos Campeões. Se tivéssemos sido competentes, não precisávamos de vender o Rúben Dias. E quando oiço elogios à grande capacidade negocial de Vieira, eu digo que o Benfica não precisa de um presidente que seja um grande negociador, mas sim um presidente que seja um grande gestor desportivo, com ambição de colocar o Benfica no lugar que merece. Mas eu também sei da importância das contas certas. Sou um gestor há muitos anos. Sei da importância da sustentabilidade financeira, que tem de ser um instrumento para o sucesso desportivo. O Benfica não é uma sociedade anónima, mas, sim, uma sociedade anónima desportiva. Portanto, tem de ter essa sustentabilidade financeira, mas também tem de ter a visão para apostar no reforço da equipa.

Já tínhamos no ano do penta, mas foi feito o contrário, não se reforçou a equipa. Eu festejo as vitórias e não as vendas dos jogadores. Nunca me verá a segurar camisolas de outros clubes quando vendemos um jogador. Esta mensagem tem de ser clara, e começa no presidente, para passar à estrutura e ao balneário.

Porque recordo que, na fase da pandemia, Luís Filipe Vieira andava a dizer que tinha um jogador que valia 60 milhões de euros, e que podia vender amanhã. E outros que valiam 100 milhões de euros. Esta não é a mensagem que, como presidente, vou passar para o balneário. Temos de ganhar o campeonato, isto é que é importante. E não os preços dos passes dos jogadores. Não é importante estarem numa montra, mas, sim, ganhar. Esta é a mensagem que tem de começar no presidente. Se não for assim, é difícil ganhar.

A propósito de Jorge Jesus, disse no início da campanha que ele devia retratar-se. Mas e se isso não acontecer?

O que eu disse foi que os benfiquistas esperam explicações de Jorge Jesus. Foi esta a expressão que utilizei. Gostava que Jorge Jesus tivesse dado algumas explicações. Mas o que eu verdadeiramente quero é ganhar, e Jorge Jesus também. Por isso, se for eleito, vou dar todas as condições para Jorge Jesus ganhar.

Mas é o seu treinador modelo?

Eu gosto de Jorge Jesus. Ele vai colocar o Benfica a jogar à bola, e vamos ser campeões esta temporada.

Luís Filipe Vieira também já conseguiu bons resultados a nível nacional, ganhou um tetra que nunca tinha sido conseguido na história do clube, por exemplo.

Se a hegemonia do futebol português que os sócios querem é isto que temos hoje... então, se calhar, não vão votar na minha candidatura. A hegemonia no futebol português é outra. Eu cresci numa década em que nós ganhámos 8 em 10 campeonatos. Chegávamos longe na Europa e os adversários tremiam em vir jogar ao Estádio da Luz. Hoje temos um presidente que se contenta com pouco. A ambição não passa da Segunda Circular. Nestes últimos anos, Luís Filipe Vieira não fez mais nada do que perder para um rival que está numa condição financeira pior do que a nossa.

Quem vai ser o seu diretor desportivo?

Tem de ser alguém com um conhecimento profundo do futebol português, do futebol internacional, e com capacidade negocial. Vai ter de supervisionar diretamente a equipa principal e a equipa B, mas também chamar a si a planificação da formação e da área internacional. E nessas relações internacionais destacava a importância de encontrar parceiros no futebol europeu, de clubes que possam também receber alguns dos nossos jogadores, num negócio de empréstimo com bilhete de ida e volta, mas que assim possam competir em campeonatos mais competitivos e crescerem desportivamente. Esses clubes também recebem depois algum do nosso conhecimento, no campo da organização. Este modelo é muito diferente do atual. A nossa ideia para um diretor desportivo também passa pelo garante da identidade do futebol do Benfica. É ele que vai escolher o treinador e não é o treinador que escolhe o diretor desportivo. Ou seja, tudo passa por ele na criação do plantel, o mercado e a formação.

Para que cargo Luís Filipe Vieira o convidou?

Para vice-presidente da direção do Benfica.

Não foi para administrador da SAD?

Não.

Porque não aceitou? Foi uma conversa cordial?

Foi uma conversa completamente cordial, e apenas comentei esse convite depois de a notícia vir a público, e de uma forma errada. Por isso tive a necessidade de contar a verdade dos factos sobre a existência desse almoço e do convite que foi feito. Essa conversa aconteceu olhos nos olhos com Luís Filipe Vieira, onde lhe disse o que pensava da gestão do Benfica, nomeadamente do futebol, e porque nunca podia integrar a lista dele, ou seja, ser apoiante dele. Porque as razões dele são diferentes das minhas. É isso que me fez avançar com esta candidatura. Temos de colocar o sócio no centro do clube, temos de ser mais transparentes e ter mais credibilidade nas relações do clube para trabalhar e projetar a marca do Benfica.

Como é que Luís Filipe Vieira reagiu à sua resposta?

Reagiu bem, foi uma conversa entre dois benfiquistas.

No seu programa eleitoral que propostas podem levar os sócios do Benfica a votar em si?

O Benfica tem de ser construído para ter sucesso desportivo, com uma estrutura para o futebol diferente da que existe hoje. Tem muito a ver com a figura do diretor desportivo, a centralização do futebol nessa figura. Só assim vamos conseguir potencializar os jogadores e encontrar reforços de jogadores com o perfil que o treinador quer. O futuro do Benfica tem de permitir gerar mais receitas. E, atrás desse sucesso desportivo, surgem as verdadeiras receitas do "merchandising", porque a marca Benfica lá fora está subaproveitada. Ninguém vai comprar uma camisola do Benfica na China porque se muda o símbolo do clube. Compra-se camisolas e produtos do Benfica quando se tem sucesso desportivo. Mas também temos de olhar para as nossas receitas externas, como, por exemplo, as redes sociais. Temos de criar mais medidas; a criação de um adepto digital, que o introduza no benfiquismo, fazer parcerias com plataformas como a Netflix e Amazon. Neste momento temos conteúdos no Benfica que me são traduzidos, como é que queremos crescer dessa forma?

Como será a relação com o FC Porto e com o presidente Pinto da Costa?

Respeito muito a instituição do FC Porto e os adeptos do clube. Mas não será possível ter relações normais que com alguém que representa o passado do futebol português, com uma cultura negativa e pouco transparente que se instalou no nosso futebol.

E com o Sporting?

Terei relações como qualquer outro clube do futebol português.

Fica incomodado por ver o Benfica, ou o presidente do Benfica, associado a processos na justiça?

Nenhum benfiquista gosta de ver o clube a ser notícia no jornal por maus motivos. Incomoda-me, mas não faço qualquer comentário sobre estes processos, o que digo é que gostava de ter mais títulos desportivos que títulos nos jornais.

Na sua lista para os órgãos sociais, que nomes destaca?

Eu não destacaria uma pessoa, mas, sim, o conjunto. Procurei reunir na lista um grupo de pessoas unidas pelo grande benfiquismo, e que viessem de vários quadrantes. Gestores de grande reputação internacional, figuras ligadas à história do Benfica, com o historiador Carlos Perdigão. Na área financeira, o António Borges Assunção, que ainda faz carreira na banca. E Francisco Benitez, que representa, para mim, o associativismo do Benfica.

Ficou satisfeito com a desistência de Francisco Benitez, para apoiar a sua lista?

Percebemos que tínhamos muitos pontos de vista iguais para o que deveria ser o clube. A importância do sócio, a transparência da relação com o sócio do clube e o sucesso para ter a ambição desportiva como prioridade número um. Por isso, fico muito contente por ter Francisco Benitez e o Movimento Servir o Benfica na minha lista, porque representa o benfiquismo das Assembleias Gerais, das modalidades, e muito genuíno.

Quer um Benfica eclético?

Sim, claro. Proponho a criação de uma figura do diretor geral para as modalidades muito mais próxima do "team manager" e que, com isso, permita tomar as melhores decisões para os orçamentos. É importante avaliar as modalidades tendo por base a qualidade do projeto e o sucesso desportivo.

Não o assusta o passivo do Benfica?

Não estou assustado, porque a minha equipa tem muita experiência a nível da área da gestão. Já geri um orçamento de 6 biliões de euros na minha vida profissional, já tive de gerir situações muito complicadas. Andei a negociar na China para fechar um negócio de 2400 restaurantes. Abri fábricas na Rússia e fechei parcerias no Cazaquistão. Por isso, o que vou encontrar no Benfica não vai ser mais complicado do que o que já enfrentei e tive de gerir. Mas também estou acompanhado de um grupo de gestores e estamos a estudar o Benfica há vários meses. Já traçámos alguns cenários, por isso, posso garantir que estamos preparados para gerir o Benfica logo a seguir às eleições, em caso de vitória.

Se não ganhar as eleições, admite voltar a candidatar-se?

Eu vou ganhar estas eleições. Os benfiquistas têm de escolher entre dois projetos. Temos a lista de Luís Filipe Vieira, que só fala do passado e que diz não ter muito para mudar, que não discute com os benfiquistas, que não vai a debates, e passa mensagem de que estas eleições pouco servem. Do outro lado, temos um projeto de futuro e de sonho. De uma nova geração que não quer este Benfica, mas que quer chegar mais longe na Europa e que responde aos sócios. Esta equipa está preparada para gerir o Benfica.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de