Jogos à porta fechada podem obrigar clubes a indemnizar adeptos

A medida não tem precedentes na Europa. Nas próximas semanas, um pouco por todo o continente centenas de jogos vão ser disputados sem que o 12.º jogador esteja em campo. Mas será que os clubes foram beneficiados por jogarem à porta fechada?

Cerca de 200 mil portugueses vão ter de mudar de planos nos dois próximos fins de semana. Futebol, só através da televisão ou da rádio. Esta é certamente uma das consequências da medida anunciada esta terça-feira pela Federação Portuguesa de Futebol. As próximas duas jornadas das competições de futebol profissional vão ser jogadas à porta fechada.

O cenário, inédito em Portugal, vai repetir-se um pouco por toda a Europa. Na Liga dos Campeões três jogos dos oitavos de final (Bayern de Munique - Chelsea, Barcelona - Nápoles e PSG - Borussia Dortmund) vão ser jogados sem espetadores nas bancadas.

A Liga espanhola anunciou, esta terça-feira, que as portas vão estar fechadas nas próximas duas jornadas, tal como os jogos do campeonato francês e na Alemanha pelo menos três jogos do principal escalão não vão ter espetadores nas bancadas. A liga italiana está suspensa, tal como a Bundesliga austríaca.

De resto, Itália foi o primeiro país a avançar com os jogos à porta fechada. No último fim de semana, em cinco partidas do campeonato italiano, entre bolas a serem pontapeadas, foi possível ouvir todas as conversas entre os jogadores, num ambiente que mais parecia de treino e não de jogo. A situação é ainda mais estranha, quando estamos a falar de equipas italianas que têm muitos adeptos. Foi assim quando a Juventus de Cristiano Ronaldo entrou em campo, na passada segunda-feira, defrontar o Inter num jogo que decidia o novo líder, tal como já o tinha sido noutras quatro partidas da Serie A.

Estádios vazios até podem ser lucrativos

Quando Benfica e Tondela entrarem em campo para disputar a partida da 25.ª jornada da I Liga vão ter à sua espera 65.647 cadeiras vazias. O mesmo vai acontecer em mais oito estádios da liga portuguesa. Para lá dos jogadores e árbitros, vão estar apenas equipas técnicas, direções dos clubes, pessoas com funções relacionadas com a organização do jogo, como por exemplo apanha bolas, delegados, médico do controlo antidoping, emergência médica, bombeiros, segurança, jornalistas e técnicos de rádio e televisão.

Se os impactos nos campos da I Liga são fáceis de imaginar - estádios vazios, silenciosos e sem cor -, o efeito nas contas dos clubes é mais difícil de calcular, mas até pode ser positivo.

Na opinião de Carlos Vieira, professor universitário e ex-vice presidente para a área financeira do Sporting, o cenário pode ser benéfico para os clubes: "Fora dos três grandes, todos os jogos dão prejuízo. Isto é, os custos de policiamento, limpeza, etc. são superiores à receita conseguida com a venda de bilhetes. A exceção será talvez os jogos contra os três grandes, mas mesmo essa quebra não é significativa. A grande fonte de receita dos clubes são os direitos televisivos", assegura à TSF.

"Se a situação se mantiver até ao final da época, os efeitos são mitigáveis porque a falta de receita é compensada pela redução de custos da operação. Se o cenário não se alterar para a próxima época, aí sim haverá um impacto grande. Se as pessoas não comprarem os bilhetes de época, as contas dos clubes vão-se ressentir. Se os hábitos de consumo mudarem e os espetadores começarem a comprar jogo a jogo, também. Mas esta época, se nenhum clube for obrigado a devolver parte das verbas, não há grande efeito nas contas", explica Carlos Vieira.

Há lugar à devolução de dinheiro?

Ouvida pela TSF, Sónia Covita, coordenadora do centro de competências legal e financeiro da Deco, garante que pesar de os clubes serem alheios aos motivos, não podem deixar de ser responsabilizados.

No entanto, a jurista lembra que "estamos a falar de consumidores que são adeptos e dificilmente querem ver o clube prejudicado por um jogo ou dois, mas como em qualquer espetáculo, os espetadores têm direito a ser indemnizados pelos custos que já tiveram". No caso de bilhetes para um só jogo não há dúvida quanto ao preço, mas o cenário muda quando falamos dos bilhetes de época: "Nesses casos, à luz da lei, os consumidores têm direito a um desconto ou um acerto no valor que pagam", garante Sónia Covita.

E como é determinado o desconto? A jurista da Deco explica que "o cálculo terá que ser feito clube a clube, tendo em consideração que os jogos não têm todos o mesmo valor. O bilhete para uma partida entre os grandes não custa o mesmo que um jogo com equipas de menor dimensão. Terá que ser feito um acerto".

O preço médio para assistir a um jogo da Primeira Liga era, na época 2017/2018, era de 36€, segundo o Anuário do Futebol Profissional Português feito pela consultora EY. De acordo com os dados da Liga, cada jornada tem cerca de 100.000 espetadores.

Considerados estes valores - e partindo da premissa de que, para já, vão ser apenas duas as jornadas disputadas à porta fechada -, a decisão pode custar aos cofres dos clubes da I Liga cerca de 7 milhões de euros. "No entanto, ainda é difícil de contabilizar o valor", lembra a jurista da Deco.

Numa altura em que ainda não era conhecida a decisão de suspender as competições desportivas, em Itália já se calculava que os jogos à porta fechada custariam aos clubes da Serie A perto de 30 milhões de euros. As contas foram feitas pelo site especializado nas finanças do futebol Calcio e Finanza . No cenário traçado, a Juventus é o clube mais prejudicado.

"Há sempre consequências do ponto de vista financeiro, mas aqui a prioridade de toda a comunidade é garantir medidas de contingência para que este vírus não se alastre", resumiu o diretor de comunicação do Benfica, Luís Bernardo, em declarações à BTV.

Leia aqui tudo sobre a Covid-19

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de