Na Cova da Piedade, fé na Taça, só de bilhete no bolso

O Cova da Piedade recebe o Benfica num estádio com capacidade para apenas 2200 espectadores e duas bancadas. Nas bilheteiras do clube de Almada os sócios do clube da II Liga correram para garantir um ingresso.

O Cova da Piedade recebe o Benfica num estádio com capacidade para apenas 2200 espectadores e duas bancadas. Nas bilheteiras do clube de Almada os sócios do clube da II Liga correram para garantir um ingresso.

À hora de almoço há um movimento incomum em torno do pequeno estádio Municipal José Martins. Nelinho foi jogador do Cova da Piedade e já tem no bolso o ingresso para a partida frente ao Benfica. Deixa-se ficar na conversa, sem pressas, à frente de uma fila de vários metros, onde dezenas de pessoas aguardam por um bilhete. Confessa ao final de alguns minutos que até prefere que o Benfica passe "porque o Cova da Piedade não iria muito longe", mesmo depois de eliminar os campeões nacionais.

Ali, paredes meias com a bilheteira, os atletas do clube cumprem o treino matinal. "Há bons jogadores aqui", explica Nelinho, "como o André Carvalhas, que jogou no Benfica". Mas o futebol da equipa da terra não entusiasma este sócio do Cova da Piedade, talvez porque ainda tenha na memória glórias de outros tempos, das décadas de 1960 e 1970, quando Nelinho era jovem."Chegaram a fazer excursões com 30 ou 40 autocarros", recorda.

Este ano Nelinho também já assistiu a alguns jogos fora de casa. "A SAD meteu aí dois ou três autocarros para levar as pessoas." Sobre o investidor chinês que comprou a maioria da SAD do Cova da Piedade, Nelinho diz nada querer dizer, não tem opinião, espera para ver como termina a temporada. No entanto, lá vai assistindo aos jogos em casa, no pequeno estádio municipal, com as paredes caiadas de branco.

Há quatro anos, quando o investidor chegou, o clube recuperou o fôlego. Depois de várias décadas afastados do futebol profissional, voltaram aos nacionais e garantiram um lugar na II Liga. Com o crescimento da SAD chegaram alguns jogadores experientes. Para André Carvalhas foi a possibilidade de regressar a casa.

"Estive no Benfica muitos anos, fiz por lá bons amigos, como o mister Bruno Lage, amizades que ainda hoje mantenho", lembra o jogador. Aos 28 anos, o médio ofensivo confessa o entusiasmo de jogar com os encarnados na Cova da Piedade. "É um jogo especial, sabemos as dificuldades e apenas prometemos fazer o nosso melhor".

A receita para vencer o Benfica não pode ser muito diferente da que utilizaram, semanas atrás, contra o Benfica B, na segunda liga, explica Allef Nunes. O clube de Almada venceu por 2-0 os encarnados, um jogo em que o central e capitão de equipa se lesionou. De regresso à competição depois de várias semanas a recuperar, Allef revela que também tem uma ligação aos encarnados. "Sei que o meu tio jogou no Benfica, um dos motivos para ter escolhido vir jogar para Portugal é porque ele passou por aqui." Allef fala de Paulo Nunes, antiga glória de Flamengo, Palmeiras e Grêmio, internacional brasileiro que teve uma passagem fugaz por Portugal nos anos 90.

"Vou ligar-lhe para falar com ele sobre o jogo. Já falamos esta semana, mas de outros assuntos, familiares, da minha avó", lembra entre sorrisos Allef Nunes. O tio Paulo é o único tema que retira a Allef o semblante compenetrado. Fala da equipa e do papel de capitão num tom assertivo. Aos 25 anos diz não sentir necessidade de preparar discursos para os colegas, prefere dar o exemplo. "Aqui não há meninos, temos jogadores mais rodados mas também outros mais jovens, mas todos sabem que jogo é este. Não sou de pegar no pé, se alguém fizer algo errado, então, aí sim, tenho de cobrar."

No plantel do Cova da Piedade há um internacional português, Edinho. Aos 37 anos o ponta-de-lança contínua confiante nas suas capacidades. Já fez três golos em oito jogos na segunda liga, embora nem sempre tenha sido titular esta época.

Regressou a Almada para jogar esta temporada no clube da cidade onde cresceu, e onde o pai, Arnaldo Silva, também jogou. "Queremos vencer, mas para isso temos de ser sérios. Vamos defrontar uma equipa muito forte. É preciso acreditar, porque os jogos da taça são sempre 50/50." Meio por meio, pelo menos no apito inicial, diz a sorrir Edinho.

E porque não pensar num regresso à seleção? Edinho acredita. "Estou sempre disponível", refere numa mensagem ao selecionador Fernando Santos. "Sou um ponta-de-lança puro", recorda.

Edinho até já ganhou a Taça de Portugal ao serviço da Académica de Coimbra, numa final frente ao Sporting. Agora, na Cova da Piedade e frente ao Benfica, o avançado tem apenas uma certeza. "O estádio vai estar cheio." Um cenário previsível, até porque o palco do encontro tem apenas duas bancadas, 2200 lugares, uma bancada para cada um dos clubes, porque não há espaço suficiente para garantir uma zona de segurança por parte da organização.

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