Não deviam ter manchado a bola, novamente
Crónica o meu mundial

Não deviam ter manchado a bola, novamente

Que imagem vai sobrar do Mundial de 2022? A despedida de Messi ou de Ronaldo do grande palco do futebol? A subida ao altar do futebol de Pedri ou Mbappé, os golos de Lewandowski, ou de Lukaku, ou Mitrovic. As defesas do herói nacional mexicano Ochoa? Dificilmente. Como ninguém se lembra do que jogava a Argentina em 1978, ou da qualidade que tinha Meazza em 1934.

Os nomes de Mário Kempes ou de Giuseppe Meazza não fazem os cartazes do Argentina 1978 ou do Itália 1934. Não são esses os nomes que marcam as competições, não são esses protagonistas os motivos pelos quais essas duas provas se destacam na história dos campeonatos do mundo de futebol. São dois mundiais marcados pela anomalia que é a celebração de uma festa mundial num local onde reina a opressão ou o terror.

Maradona pediu, no discurso com o qual encerrou a carreira no mítico La Bombonera, que, acontecesse o que acontecesse, "nunca se manche a bola" - "El fútbol es el deporte más lindo y más sano del mundo. Porque se equivoque uno, no tiene que pagar el fútbol. Yo me equivoqué y pagué, pero la pelota no se mancha" - e este mundial no Catar é apenas mais um episódio já visto. Mais uma vez, roubaram o protagonismo aos jogadores e ao público.

Roubaram o protagonismo a Saleh Javier Al Shehri, o antigo jogador do Beira-Mar que um dia, já lá vão dez anos, disse numa entrevista num estágio em Fornos de Algodres, ao jornalista João Miguel Machado, do jornal Record, que queria ir ao Mundial de 2022 pela Arábia Saudita, o primeiro Mundial na península arábica, já agendado na época para o Catar. Saleh jogou e marcou à Argentina (1-2) de Lionel Messi, e festejou um novo feriado para o público saudita. Saleh deve ter orgulho do que a equipa consegiu: Arrigo Sacci ou Jorge Jesus vão guardar o DVD ou a cassete daquela linha defensiva ordenada de Hervé Renard.

Mas a FIFA roubou também o protagonismo a Kevin Rodriguez, promessa equatoriana que chega ao mundial como atleta de um clube da segunda liga do seu país, o Imbabura SC. Sorriu no final do jogo com o Catar, entrado aos 90 minutos, quando nas bancadas já milhares de pessoas tinham virado as costas ao jogo de abertura do campeonato do mundo, com aversão à derrota ou ao desporto. Gustavo Alfaro, o treinador que convocou Kevin Rodriguez explicou a chamada da seguinte forma. "Ele fez-me lembrar de quando eu tinha de lutar por um lugar, do ano em que fiz viagens de 44 mil quilómetros para jogar a segunda liga na Argentina, o meu país. Eu sirvo para dar oportunidades."

Roubaram o palco de Iñaki Williams, o supersónico avançado basco da seleção ganesa, irmão de Nico Williams - que neste mundial vai representar a seleção espanhola. Inãki contou, em 2021, ao jornal The Guardian, que a família, pai e mãe, cruzaram o deserto do Saara à procura de uma vida melhor na Europa. Pagaram mil dólares pela viagem, "uma parte do percurso numa dessas carrinhas de caixa aberta, com 40 pessoas encavalitadas, e depois, a pé, caminharam durante dias". Encontram porto seguro em Espanha, onde nasceram Iñaki (1994) e o irmão Nico (2002). Talvez se cruzem em campo ainda durante este Mundial, os dois ágeis bascos jogadores do Atlético de Bilbau.

Levaram o palco de Awer Mabil, antigo jogador do Paços de Ferreira, que se estreou em Mundiais pela Austrália. Os pais eram do Sudão do Sul, mas Mabil nasceu e viveu os primeiros dez anos da sua vida num campo de refugiados no Quénia, em Kakuma. "Mas também vivi na Austrália durante dez anos, por isso é metade de um lado e metade do outro", explicou ao The Guardian antes do Mundial. Mabil criou com o irmão uma fundação, Barefoot to Boots - De descalço às chuteiras, em português - que recolhe fundos para ajudar jovens em campos de refugiados do Quénia, Turquia, Líbano e Uganda.

Não há cartão amarelo que lhes roube o "seu" Mundial. O campeonato do mundo em que o capitão belga, Jan Vertonghen, usou o silêncio para marcar uma posição. "Se falar sobre a braçadeira posso ser punido. Por isso, estou com medo e não vou dizer nada. Não estou confortável com esta situação. Estamos a ser controlados (...) Mas não gosto de fazer comentários políticos. Certo que estou aqui para jogar futebol, mas que lógica há em que não o possa fazer porque digo algo que devia ser normal, como que estou contra o racismo ou a discriminação? Só não vou dizer nada porque amanhã quero estar no pontapé de saída."

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