Cristiano Ronaldo
Crónica o meu mundial

Não quero falar do Cristiano Ronaldo

Não tenho muita paciência para a ideia, e que para mim é um pouco equivocada, de que existem somente duas posições, quase como antagónicas, sendo que, na verdade, há outros caminhos a seguir para a seleção nacional.

A posição de que "ou estamos com Cristiano Ronaldo, ou estamos contra o Cristiano Ronaldo" é uma reflexão do mundo em que vivemos hoje, do sim ou do não. Certamente, há sempre um terceiro caminho a percorrer.

Mas eu não quero falar do Cristiano Ronaldo. O capitão da seleção nacional não ficou contente com a posição de suplente no último jogo. Qualquer profissional, seja em que área esteja a exercer a sua profissão, não fica contente com uma despromoção. Quem disser o contrário pode estar a faltar à verdade. Ronaldo não é exceção.

Agora resumir a vitória de Portugal frente à Suíça só porque Ronaldo ficou no banco, não me parece ser uma discussão justa.

Mas eu não quero falar do Cristiano Ronaldo. Portugal jogou bem? Sim. Ronaldo estava a ter neste Mundial uma prestação técnica, tática e até física bem longe daquilo a que nos habituou na seleção nacional? Sim. Concordei com a decisão de Fernando Santos em colocar o capitão no banco? Sim.

Mas atenção, eu não quero falar do Cristiano Ronaldo. Portugal conseguiu uma boa exibição, porque foi mais forte do que a Suíça no jogo coletivo, foi mais eficiente à frente da baliza e contou com um inspirado Gonçalo Ramos.

Este jovem avançado português tem tudo para conseguir construir uma carreira com muitos golos. Mas calma com esta nova divisão de um conceito em dois outros. Agora, descobriu-se o Gonçalo Ramos. Não percebo. Mas ninguém sabia que o "miúdo" é o habitual titular da equipa invicta do Benfica desta temporada? Adeptos distraídos.

Mas eu não quero falar do Cristiano Ronaldo. Já se opinou, e já se escreveu muito sobre o capitão. O problema é quando o filtro não surge. Principalmente nas redes sociais e no comentário da opinião sobre a opinião do "opinador". Porque hoje em dia parece que o mais importante é comentar, e muito.

É nestas alturas que me recordo sempre de uma ideia de Umberto Eco. O escritor e filósofo italiano apontou uma característica às redes sociais, que dão o direito à palavra aos "imbecis que antes apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, mas sem prejudicar a coletividade". Acrescentou Umberto Eco que "normalmente, eles eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel".

Esta ideia de Umberto Eco, que também foi uma autoridade no campo da semiótica, foi lançada em 2015. Já lá vão uns anos. Mas o escritor fez questão de acrescentar a seguinte ideia: "Antes das redes sociais, a televisão já havia colocado o 'idiota da aldeia' num patamar em que este se sentia superior. O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade", disse Umberto Eco quando recebia mais um prémio na sua prestigiada carreira.

A facilidade com que, hoje em dia, as pessoas criticam e apontam o dedo ajuda a explorar o conceito da dicotomia. Mas eu não quero falar de Cristiano Ronaldo.

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