morreu pelé

Nasceu Edson, mas todos o conheceram como Pelé. O futebol fica órfão de rei

O município de Três Corações, no estado brasileiro de Minas Gerais, batizou o bebé com o nome de Edson Arantes do Nascimento. A primeira prova de que os pais já lhe adivinhavam um futuro de sucessos foi a intenção de lhe chamarem Edison, numa homenagem ao génio que criou a lâmpada. Nos documentos, a letra 'i' caiu do nome, e assim ficou em termos oficiais.

Os primeiros passos de Pelé no mundo do futebol

A lenda começa a ser contada aos cinco anos, quando se escondia na sombra do seu pai, o também jogador Dondinho, e o acompanhava nos treinos de futebol. Na altura, sentava-se atrás das redes do que foi o seu primeiro ídolo, o guardião do Vasco de São Lourenço, que era conhecido como Bilé - e, quando jogava com os amigos, assumia mesmo o posto de guarda-redes e gritava "Bilé!" quando fazia uma defesa.

Os colegas dos jogos nas ruas da sua cidade não entendiam o que o pequeno Edson queria dizer. Em entrevista à Globo, um amigo de infância, Raul Marçal da Silva, revelou que, por brincadeira, todos começaram a chamá-lo Pelé, mas o próprio não achou piada à brincadeira e chegou a ser expulso na escola por ter agredido um dos colegas a soco.

Muito mais tarde, em 2006, ao alemão Bild, Pelé confessou: "Eu não inventei Pelé e não queria ser conhecido por esse nome. Para mim, soava infantil em português e Edson era mais como Thomas Edison, o homem que inventou a lâmpada", mas a verdade é que a alcunha pegou e acompanhou-o para o resto da sua vida.

Voltando ao habitat do pequeno craque, as habilidades futebolísticas, desconhecidas até então, foram reveladas num pequeno clube, o 7 de Dezembro. Daqui até dar o salto para um clube de maior dimensão, foi um instante, e chegou pela mão do seu pai ao Bauru Atlético Clube, no estado de São Paulo.

Lá, foi acolhido por um antigo internacional brasileiro, Waldemar de Brito, que se apercebeu logo que estava perante um talento acima da média. Depressa, essa evidência foi correndo de boca em boca, devido às grandes exibições de um pequeno e franzino jogador, que já tratava a bola por "tu".

Por muito respeito que tivesse ao clube que o revelou, o Bauru, o palco começava a ficar pequeno para o tamanho do fenómeno que ia nascendo nos relvados brasileiros. Aos 16 anos, chegou o tão desejado salto, e Pelé, embora continuasse em São Paulo, assinou pelo Santos FC, um dos grandes clubes do Brasil.

O salto de um prodígio para o Santos FC e a estreia na seleção brasileira aos 16 anos

Como uma verdadeira estrela, a sua ascensão só podia ser meteórica. Ao serviço do "peixão", não sentiu a necessidade de um período de adaptação e começou prontamente a brilhar com a camisola branca e preta. Pouco depois, já começava a partilhar balneários entre o Santos e a seleção do Brasil.

A data de 7 de julho de 1957 ficou marcada na eternidade para o mundo do futebol. Na altura, com toda a certeza, ainda não se sonhava que um miúdo de apenas 16 anos se iria tornar um ícone do desporto a nível mundial, mas, logo na estreia, começava a desenhar-se um cenário idílico.

Frente à eterna rival, a Argentina, Pelé entrou aos 77 minutos e marcou o golo do empate (1-1) e bateu mais um recorde, tornando-se o mais jovem marcador num encontro internacional de seleções. Curiosamente, esse foi o primeiro de 77 que marcou pelo escrete - o número do minuto a que se estreou.

Pelé rimava com a "Copa do Mundo"

O primeiro jogo pela seleção aconteceu um ano antes do Mundial de 1958, na Suécia. Uma lesão no joelho deixou a participação do então jovem craque em risco, mas a chamada para o primeiro grande torneio internacional aconteceu mesmo, e o talento saiu, pela primeira vez, além-fronteiras.

Ainda assim, demorou um pouco até o pequeno Pelé se estrear na competição. Só ao terceiro jogo, frente à União Soviética, é que teve oportunidade de jogar - e aproveitou logo para fazer uma assistência, motivo suficiente para ganhar a confiança do selecionador Vicente Feola.

O Brasil sonhava, após tantos anos a chegar perto, tocar na taça de campeão do Mundo. Após ultrapassar o País de Gales e a França, brilhou com dois dos golos da final e os canarinhos finalmente levantaram o troféu que tanto desejavam, batendo a seleção da casa, a Suécia, por 5-2.

A tenra idade com que se estreou no torneio que agrega as melhores seleções do planeta e uma geração de jogadores brasileiros de grande qualidade formaram a tempestade perfeita. Seguiu-se a conquista do Mundial de 1962, no Chile e em 1970, no México - foram três em quatro edições, sendo que a Inglaterra conquistou o troféu na sua casa, em 1966, numa edição em que Pelé esteve lesionado.

A herança de um Rei

Os números não deixam enganar: foram 818 jogos e 756 golos na conta pessoal. Além da glória a nível de seleções, Pelé também catapultou o Santos FC para o Olimpo do futebol mundial - o peixe venceu, com a sua ajuda, duas Libertadores e o mesmo número de edições da Taça Intercontinental - incluindo uma final em que os brasileiros bateram o Benfica, em 1962, por 8-4 no agregado de duas partidas.

Após quase 20 anos a jogar no Brasil, Pelé teve a primeira e única aventura no estrangeiro, atuando pelos New York Cosmos, dos EUA. Apesar de a velocidade e a saúde já não ser a mesma, teve um contributo importante numa tentativa de os americanos se interessarem mais pelo futebol, ou como dizem por lá, o soccer.

A carreira futebolística pode ter chegado ao fim, mas Pelé usou a sua influência e continuou ligado a várias associações, incluindo a FIFA ou a UNICEF. Até à sua morte, tentou estar presente em vários eventos e serviu de tutor a alguns dos melhores jogadores do mundo, em gerações que surgiram após a sua retirada.

O próprio assumia: "sou apaixonado por futebol desde que nasci" e assim foi até ao fim. Um Rei deixa o futebol órfão, mas continuará, com toda a certeza, a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo.

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