No 1.º "portuenses" contra "benfiquenses" já se discutia arbitragem e bilhetes

Foi há 86 anos o primeiro FC Porto-Benfica: "As bancadas ameaçavam mesmo ruir. As senhoras, assustadas, fugiram." Muita coisa mudou no futebol português, mas muitas outras parecem ter parado no tempo.

FC Porto e Benfica vão estar esta sexta-feira frente a frente em provas nacionais pela 237.º vez na sua história. Enquanto tenta pronunciar corretamente este difícil número ordinal, aproveite para recuar connosco na história do futebol português até ao primeiro jogo desta novela de emoções, suspense, desfechos imprevisíveis e capítulos intermináveis.

A primeira vez de FC Porto e Benfica

Viajamos no tempo até 1931 e encontramos um Portugal que dava os primeiros passos numa ditadura que se fazia querer militar, numa altura em que futebol se escrevia football, os cantos eram corners, resultado era substituído por score e em plena ação no relvado o jogador shoota ao goal em vez de chutar à baliza. Lembrar também que benfiquistas e portistas eram mais conhecidos por benfiquenses e portuenses. Assim rezam as crónicas dos jornais da época.

A história do Campeonato de Portugal

Estas duas equipas que nasceram entre o final do séc. XIX e o princípio do séc. XX - deixemos de lado as discussões sobre datas de fundação - já se tinham encontrado pelos poucos relvados que ainda existiam no nosso país, mas nunca com caráter oficial. Até porque o Campeonato de Portugal, que se disputou nos moldes da atual Taça de Portugal, só nasceu em 1922. As épocas resumiam-se a campeonatos regionais e a torneios amigáveis, uns mais do que outros.

Foi esta a prova impulsionada pelos clubes e pela União Portuguesa de Futebol que deu um caráter nacional a este desporto em Portugal. Mas voltemos a 1931. Até esta época o FC Porto já tinha por duas vezes erguido a Taça de Campeão (1921/22 e 1924/25), enquanto o Benfica só o tinha feito por uma vez (1929/30), precisamente na época anterior. Quer pela forma como se escolhiam os representantes das associações locais, ou pela sorte e azar que rodeiam os sorteios, nunca calhou em sorte que estas duas equipas se defrontassem. Mas tudo mudou em junho deste ano. Após as meias-finais deste Campeonato de Portugal em que os portuenses eliminaram o Marítimo, campeão das ilhas, a duas mãos por 5-3 e os benfiquenses bateram o vizinho Vitória Setúbal por 5-1, ficou delineada uma final inédita para apurar o campeão.

O Notícias Ilustrado de 28 de junho de 1931 escrevia: "Cabe ao Bemfica e ao FC do Pôrto a honra de derimirem hoje em Coimbra a posse do título de campeão nacional (...) São dois clubs de tradições, ambos com estôfo suficiente para arcarem com as responsabilidades duma tal honra (...) a final do campeonato dêste ano toma o aspecto dum acontecimento sensacional que interessa à aficion de todo o país."

O Diário de Lisboa apelava mais ao sentimento dos seus leitores, deixando de lado as considerações habituais: "Há nestes desafios emoção. Vibra-se, sente-se. A gente apaixona-se, mesmo sem dar por isso. Quem tem sensibilidade desportiva, claro..."

Estádio do Arnado, o palco de uma final em risco de ruir

A final estava marcada para Coimbra o que fez com que os adeptos se pusessem nesse dia a caminho da cidade estudantil como podiam: alguns de automóvel, muitos de comboio. Escrevia o jornal O Século: "Em Lisboa e Porto organizaram-se dois comboios especiais que chegaram aqui replectos de entusiastas dos dois clubes finalistas."

O campo do Arnado, inaugurado em 1928, era o estádio improvisado escolhido para a contenda, e escrevemos improvisado porque houve quem tivesse de fugir das bancadas, onde estavam instalados cerca de seis mil adeptos com medo que ruíssem. Tal facto vinha na crónica de Tavares da Silva para o Diário de Lisboa: "O campo - afirmemo-lo - não merece uma final. (...) As bancadas de madeira, julgamos que improvisadas com rapidez, ameaçavam mesmo ruir. As senhoras, assustadas, fugiram... e não devem ter ficado com muito boas recordações deste encontro". O jornal O Século corroborava: "O campo era impróprio para este jogo. Exagerado, também, o preço das entradas".

As emoções dos 90 minutos

Com as bancadas cheias e ansiedade natural antes do pontapé de saída, as equipas lá entraram no relvado. Listemos os protagonistas.

Onze do FC Porto: Mihaly Siska, Avelino Martins, Pedro Temudo, Valdemar Mota, Euclides Anaura, Acácio Mesquita, Filipe dos Santos, Raúl Castro, Álvaro, Normal Hall e Lopes Carneiro.

Onze do Benfica: Artur Dyson, Ralph Bailão, Luís Costa, João Correia, Aníbal José, Pedro Ferreira, João de Oliveira, Manuel de Oliveira, Vítor Silva, Emiliano Sampaio e Augusto Dini.

A partir do banco de suplentes, o inglês Artur John orientava os encarnados, enquanto o húngaro Szabo conduzia o conjunto azul-e-branco. O jogo desenrolou-se num campo onde havia mais terra que relva, mas isso não atrapalhou o avançado do Benfica Vítor Silva que brilhou mais do que todos os outros ao marcar dois goals que ajudaram o seu team a vencer o título com um score de 3-0. O outro goal foi marcado por Augusto Dinis. O Diário de Lisboa teceu rasgados elogios à equipa encarnada descrevendo-a como "confiada e serena" em oposição "ao grupo do norte - nervoso, demasiadamente nervoso". O Notícias Ilustrado apontava o dedo à má forma de alguns jogadores e à estratégia portista: "Os portuenses sem médios laterais e com os dois interiores de ataque em má condição física, não puderam acompanhar o adversário." Já os elogios foram todos para o capitão Vítor Silva: "Um homem de extraordinários recursos. O melhor jogador no terreno. Com um grande sentido de oportunidade. E marcou dois goals", descreve o Diário de Lisboa. "Vítor Silva, o capitão dos vermelhos teve no domingo em Coimbra uma das suas melhores tardes, destacando-se de sobremaneira no papel de orientador do ataque", adjetivava o Notícias Ilustrado.

Uma análise à arbitragem sem recurso a replays

O árbitro da partida também não era esquecido, neste caso António Palhinhas de Setúbal. E claro que, sem a existência de televisão e replays, as análises divergiam, tanto quanto hoje. Ribeiro dos Reis no Notícias Ilustrado dizia que António Palhinhas "esteve à altura do encontro (...) Confirmou as suas qualidades já reveladas" e "arbitrou dentro do espírito de uma final". Opinião contrária surgia no jornal O Século: "A arbitragem foi irregular. Um penalty provocado por Luís Costa, aos 5 minutos, passou em claro, prejudicando este deslise o team azul e branco."

De onze campeões só chegou um

Quanto à festa, aconteceu toda em Lisboa. Centenas de pessoas impedidas de se descolar a Coimbra esperaram no Rossio, primeiro pela notícia do resultado, como conta O Século: "Logo que houve conhecimento, pelo nosso placar do Rossio, do resultado do jogo realizado em Coimbra, numeroso publico que ali se encontrava esperando notícias, rompeu em calorosas manifestações ao grupo vencedor." Depois, mais à noite, esperaram pelo comboio que traria os jogadores encarnados. Veio apenas um: João de Oliveira. A falta dos outros dez campeões não esmoreceu o clima de festa. O médio "foi levado em ombros pela multidão que o aclamou". Os restantes jogadores só chegariam no dia a seguir.

E este foi apenas o primeiro de 236 jogos que se realizaram até ao dia de hoje. Esta sexta-feira há mais um capítulo desta história com outros contornos, outros protagonistas, mas com a mesma emoção, vibração, sentimento e paixão, como escrevia à época o jornalista Tavares da Silva no Diário de Lisboa.

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