A era Amorim. O campeão Sporting que não quis ser candidato até ser impossível evitá-lo
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A era Amorim. O campeão Sporting que não quis ser candidato até ser impossível evitá-lo

Amorim chegou a Alvalade, pegou nos "miúdos" da casa, colocou a experiência a defender a baliza e fez a festa do campeonato regressar ao covil dos leões.

Quando, a 5 de março de 2020, Frederico Varandas apresentou o quarto treinador do Sporting na época 2019/20, apresentava-o como o "treinador certo". Essa certeza tinha um nome: Rúben Amorim, o técnico que levou o Sporting a um título de campeão da Primeira Liga 19 anos depois do último sucesso.

O investimento no treinador fez torcer muitos narizes: eram dez milhões de euros - que foram agravando até chegarem perto dos 14 - por um técnico que tinha passado, na altura, apenas por Casa Pia e dois escalões do Sporting de Braga.

Mas, ainda que curto, o currículo não era vazio de conteúdo. Em 11 jogos pela equipa B dos minhotos tinha somado oito vitórias e, quando chegou à equipa principal, somou outras dez em 13 jogos e uma delas valeu uma Taça da Liga ao Sporting de Braga.

Passado pouco mais de um ano, solidificou o hábito de vencer e em 32 jogos não só ganhou 25 como não perdeu nenhum, nem contra os adversários diretos na luta pelo título.

Apesar do saldo muito positivo, Rúben Amorim só quis assumir-se como candidato ao título a pouco mais de 24 horas do jogo que confirmou o triunfo leonino. Foi esta segunda-feira que, sem rodeios, abriu a conferência de imprensa de antevisão do jogo contra o Boavista com as palavras que Alvalade queria ouvir: "Obviamente somos candidatos ao título." Mas, para chegar aqui, Amorim começou a preparar a equipa ainda na época passada.

Confiar e valorizar para vencer

Amorim mostrou, logo no segundo jogo aos comandos da equipa do Sporting, ao que vinha. Os leões faziam a tradicionalmente deslocação a Guimarães com duas novidades "verdinhas" no onze: Matheus Nunes e Eduardo Quaresma.

O primeiro é, aliás, base de uma das declarações mais marcantes de Varandas: "Não tenho dúvidas nenhumas de que vai pagar o Rúben Amorim. Só ele vai pagar o Rúben Amorim", dizia em entrevista ao Canal 11. O médio luso-brasileiro entrou na equipa e, dos dez jogos que Amorim comandou na época passada, foi titular em nove.

E, ao terceiro jogo, a aposta que promete rechear os cofres do Sporting em breve: Nuno Mendes. Então com 17 anos, o lateral-esquerdo assentou que nem uma luva no sistema que o treinador português levou para Alvalade. Fez 18 minutos contra o Paços de Ferreira e só saiu do onze inicial quatro jornadas depois. Fez outras quatro a titular, até ao final do campeonato.

Com alguns "tubarões" estrangeiros interessados na sua contratação, o jovem já chegou à seleção nacional (tem três internacionalizações).

Mas, se Rúben Amorim não arredou pé da aposta nos jovens, mas também não quis deixar o mercado de verão passar ao lado de Alvalade, embora numa vertente mais experiente.

Chegavam Antunes (33 anos), Adán (33 anos), Feddal (30 anos) e João Mário (27 anos), mas também Porro (20 anos), Pedro "Pote" Gonçalves (22 anos), Nuno Santos (25 anos) e Tabata (23 anos).

E "em casa" já havia jogadores que deram certezas a Amorim: Palhinha e Daniel Bragança regressavam de empréstimo, Nuno Mendes e Eduardo Quaresma transitavam da época anterior, e Tiago Tomás e Gonçalo Inácio subiam à equipa principal. Mas o que é que o treinador fez com tudo isto?

Os onze que construíram um título

A aposta foi num 3-4-3/5-2-3 construído com experiência na defesa e irreverência no ataque às balizas adversárias. Com uma pressão organizada a partir dos três da frente e um duplo pivot no espaço do meio-campo, o Sporting apostou sobretudo na mobilidade do ataque ao longo da época para tirar o melhor partido da velocidade a partir das alas.

A defesa, sempre compacta e com pelo menos três homens a guardar a baliza, não foi apenas uma unidade destrutiva. Quando o meio-campo não conseguia encontrar a linha de passe certa para progredir, não foi raro ver um dos três defesas centrais aparecerem soltos em zonas sem pressão do adversário para oferecerem uma hipótese de reciclar a posse e até procurarem passes longos para o ataque.

A ideia de jogo de Rúben Amorim resultou nos seguintes onze jogadores mais utilizados no campeonato: Coates, Adán, Pedro Gonçalves, Porro, Palhinha, Feddal, Nuno Mendes, João Mário, Nuno Santos, Luís Neto e Tiago Tomás.

Gonçalo Inácio surge logo a seguir, como 12.º mais utilizado, mas com o destaque de ter conquistado a titularidade a Luís Neto. Com passes milimétricos e muita segurança com e sem bola, o jovem defesa central esquerdino de 19 anos - que atuou como defesa central mais descaído sobre a direita - acabou por revelar-se mais importante do que seria de esperar para o título do Sporting.

Na jornada 29 viveu um momento de terror ao ver dois amarelos em 18 minutos em Braga, mas os leões contaram com a ajuda do 13.º jogador mais utilizado para resolver: Matheus Nunes.

Apesar de não ter conseguido agarrar a titularidade num meio campo a dois - que Palhinha e João Mário agarraram com unhas e dentes - foi decisivo quando a pressão aumentou.

Só marcou três golos durante a época, mas dificilmente poderiam ser mais importantes: um ao Braga em janeiro, outro ao Benfica (o único do jogo) em fevereiro e, por fim, o golo que cimentou o sonho do título do Sporting na jornada 29, quando os leões venceram por 1-0 em Braga e reduzidos a dez.

O "banco de suplentes" dos mais utilizados é fechado com Paulinho, Daniel Bragança, Sporar (seguiu para Braga a meio da época), Jovane Cabral, Tabata, Matheus Reis e Antunes.

Destaque para Paulinho, que custou 16 milhões de euros ao Sporting em janeiro e leva três golos em doze jogos pelo Sporting, e para Jovane Cabral, que conta com cinco golos em apenas 566 minutos de utilização na Primeira Liga e foi o "abre-latas" dos leões ao longo da época.

Cinco pilares com coração de leão

Se, ao longo da época, Rúben Amorim preferiu sempre falar na equipa, no "grupo" ou no "coletivo", há cinco jogadores incontornáveis para o sucesso leonino desta época.

A transfiguração de Coates

Capitão, eixo da defesa do Sporting e ponta de lança de improviso em jogos de maior aperto, Sebastián Coates mostrou-se o patrão dos leões e é um sério candidato a melhor jogador da época em Portugal.

Na sexta época de leão ao peito - e depois de na época passada ter estado ligado a autogolos, penáltis e expulsões - jogou, impediu os adversários de jogar e carregou a força anímica de uma equipa que, por vezes, não conseguiu esconder a juventude.

O exemplo máximo da liderança e vontade de vencer do uruguaio surgiu à jornada 18: em Barcelos, o Sporting perdia por 1-0 desde o minuto 36. Chamado a jogar no ataque leonino, virou o jogo em oito minutos, com golos aos 83' e 90+1' e assegurou-se de que os leões não deixavam os três pontos fugirem.

Fez o mesmo na jornada 22, com um golo aos 90+3' para garantir três pontos em Alvalade, frente ao Santa Clara e repetiu a dose à jornada 28. O Sporting perdia por 2-0, em casa, com a Belenenses SAD mas, aos 83', o uruguaio deu início à resposta leonina num jogo que acabou empatado a duas bolas.

Um abono chamado Adán

Chegou de Madrid como suplente de Oblak no Atletico e com apenas dois jogos oficiais disputados na época anterior, mas pegou de estaca na baliza do Sporting, que tinha estado entregue a Maximiano e Renan na época anterior.

Com 33 anos e passagens também por Real Madrid e Bétis, o espanhol foi crucial para segurar vantagens do Sporting, em especial quando eram apenas de um golo. No passado recente, foi peça fundamental para as vitórias do Sporting em Faro e em Braga.

E nem quando precisou de usar os pés se escondeu. Nem sempre correu bem - como ficou demonstrado no golo que sofreu frente à Belenenses SAD - mas foi sempre útil à construção de jogo privilegiada por Rúben Amorim.

O (des)conhecido Porro

O resumo é simples: chegou a Alvalade emprestado por dois anos pelo Manchester City depois de uma época muito morna em Valladolid e agora é internacional A por Espanha.

Com 21 anos, o lateral do Sporting encaixou como uma luva no corredor direito idealizado por Rúben Amorim. Veloz, ágil e com uma facilidade de remate surpreendente, tem três golos e duas assistências ao serviço do Sporting na Primeira Liga.

Titular em todos os jogos em que participou, viu chegar em janeiro um concorrente para o lugar chamado João Pereira, mas nem isso desacelerou o espanhol. A opção de compra é de 8,5 milhões de euros.

O omnipresente Palhinha

Ver um jogo em que Palhinha participe cansa até o mais sereno dos adeptos de futebol. Com a tarefa de destruir todo e qualquer jogo que os adversários quisessem fazer passar pelo miolo do Sporting, o médio português - que também já chegou à seleção - de 1,90 metros fez-se sempre notar.

"Duro de rins", viu sete cartões amarelos até ao momento na Liga, mas foi o quinto que mais deu que falar. Viu-o no Bessa, o que o deixaria fora do jogo seguinte, com o Benfica, mas o caso foi parar a tribunal. O castigo acabou suspenso e, embora o cartão amarelo não lhe tenha sido retirado, jogou mesmo na partida que o Sporting acabaria por vencer frente aos encarnados.

Marcou apenas um golo na Liga, mas os cortes e interceções que fez terão valido por muitos outros para Rúben Amorim.

Um Pote de ouro

Poucos adivinhariam aquilo que Pedro Gonçalves - Pote no mundo do futebol - traria ao Sporting. A qualidade que lhe era reconhecida depois da época passada no Famalicão, com sete golos em 40 jogos, deixava água na boca e, 6,5 milhões de euros depois, chegou a Alvalade.

Até agora, foram 18 golos e quatro assistências marcados em 30 jogos e numa posição que parece existir só para ele no xadrez do Sporting. É um médio? É um avançado? Só Rúben Amorim saberá responder, mas o que é certo é que, seja com Paulinho ou com Tiago Tomás, o jovem português encontrou sempre espaço para jogar e fazer jogar.

A tudo isto junta-se ainda a luta por um título individual: disputa, com Seferovic, o título de melhor marcador da Liga.

O que se segue?

Com o título conquistado, o Sporting tem desde já duas certezas: na próxima época disputa a Supertaça portuguesa e joga a fase de grupos da Liga dos Campeões, que traz uma injeção financeira importante para os leões tentarem segurar ativos ou investir de imediato no reforço da equipa.

Rúben Amorim já mostrou que sabe fazer render a prata da casa, optando por fazer contratações para posições cirúrgicas do plantel que precisem de alternativas.

De saída estão, para já, João Mário - o português é jogador do Inter de Milão e está apenas emprestado - e João Pereira assinou apenas até ao final de junho.

Nas entradas, estão programados os regressos de empréstimo a Alvalade dos defesas Ilori e Rosier, dos médios Doumbia, Eduardo Henrique, Battaglia, Misic e Mattheus Oliveira e dos avançados Camacho, Diaby, Pedro Marques, Pedro Mendes e Sporar.

Em cima da mesa pode estar a contratação a título definitivo de Porro, cujo empréstimo termina apenas no verão de 2022, e sobre o qual o Sporting tem uma opção de compra.

Rúben Amorim tem contrato até 2024, pelo que o futuro próximo do Sporting passa pelas mãos do treinador de 36 anos.

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