Gianni Infantino
Crónica o meu mundial

O infame Infantino

Gianni Infantino dirige uma das mais poderosas corporações do mundo, que não passa, no entanto, do ponto de vista do direito, de uma associação privada de federações de futebol. A FIFA detém um poder supranacional, que tem força que muitos governos, sem qualquer escrutínio democrático e público, com uma política de opacidade, imposição e impunidade sem paralelo. (Há uma outra, semelhante, a UEFA, mas esse tema fica para outros dias). A FIFA pratica um regime semelhante ao de uma ditadura musculada, opressiva e feudal.

Há algo de errado na ordem mundial quando a FIFA decreta sanções, proíbe atos de liberdade individual de jogadores ou adeptos, ameaça federações de futebol suas associadas que, essas sim por serem de «interesse público», representam países soberanos, com a exclusão de competições internacionais ou castigos desportivos ou financeiros. E, pasme-se, mesmo os países ocidentais mais «avançados» e, por isso, mais fortes, acabam por acatar as decisões da UEFA, recuando em intenções firmes e proclamações já anunciadas. Todas as federações que queriam usar a braçadeira arco-íris neste mundial para chamar a atenção dos direitos das mulheres, dos homossexuais e das minorias, foram ameaçadas e cederam. Cederam de forma cobarde e medrosa. Recuaram, com medo de enfrentar «a FIFA», essa organização que tudo decide, tudo pode e tudo manda.

A ideia de que futebol e política não se misturam, o «conceito» de que quem joga ou assiste ao mais popular desporto do mundo tem de se abstrair do contexto em que vive em nome do mais importante acontecimento desportivo do mundo, não só não serve, como, repito, castra a liberdade individual de atletas e espetadores. No fundo, em linguagem simples, o que acontece é que a FIFA manda e nós obedecemos. E quando digo nós, somos nós todos - cada um individualmente, as seleções enquanto grupo e as federações de futebol dos países que o permitem. A força do negócio, do dinheiro, dos patrocínios, de tudo o que está fora das quatro linhas é hoje muito mais importante para a FIFA do que a essência do futebol e o que fez dele o jogo mais apreciado do mundo - a célebre máxima são onze contra onze e a bola é redonda e que ganhe o melhor.

Não quero, agora, escalpelizar porque é que este mundial é no Catar, como foi lá parar e porque é que os indignados só se lembraram da indignação a semanas da abertura do torneio. Se, na verdade, as federações de futebol tivessem bolas que não apenas as de futebol, teriam tomado posições conjuntas, afrontado o poder da FIFA, recusado participar na prova e, no limite, assumir que deixavam fugir a oportunidade de ganhar um troféu. E seriam decisões em nome da dignidade, dos direitos humanos, da decência e da igualdade. Mas deveriam tê-lo feito logo em 2010, quando a escolha foi feita. Não agora, depois de seis - ou quinze, conforme as fontes - mil trabalhadores mortos na construção de estádios.

Infantino sente-se «catari», «árabe», «gay» e envergonhado pelas lições que os povos europeus querem dar a outros povos, sem olhar para os «três mil anos» (?) de opressão dos europeus sobre «os outros povos». Além de não saber de história, também parece não ter a mínima noção de que a sociedade está a mudar, de que o que há 20 anos era «admitido» hoje já não é tolerado e que uma sociedade livre, justa e igual implica o empenho de todos, sobretudo dos poderosos e, mais do que isso, dos poderosos que lideram uma federação que tem o impacto que tem a nível global.

Queremos ver Ronaldo, Messi e outros atletas que nos deslumbram e fazem sonhar. Vamos gritar pelas nossas seleções, que são parte de nós; mas, senhor Infantino, depois de todas as infâmias que disse e que permitiu, faça-nos o favor de se ir embora. E, já agora, talvez este seja o momento em que faz sentido repensar toda a FIFA. Ou acabar com ela e construir algo novo. Que não seja uma ditadura feudal.

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