O renascer da Fénix!

O final do século XX foi entusiasmante para o Leicester City. Martin O'Neill foi o líder de uma equipa quem em 4 temporadas alcançou 3 finais da Taça da Liga, tendo vencido duas delas, em 1996/1997 e 1999/2000. Para além disso, obteve classificações tranquilas na Premier League. No entanto, a glória foi efémera. Em Junho de 2000, O'Neill partiu rumo a Glasgow para orientar o Celtic e em 2001/2002 o Leicester foi despromovido. No início da época de 2002/2003, os "Foxes" inauguraram o novo estádio. 111 anos depois, o Leicester City abandonou Filbert Street e mudou para o novo Walkers Stadium. Contudo, os maiores de Inglaterra não pisariam aquele relvado naquela temporada, fruto da descida de divisão. Mas, jogar na naquela altura denominada Division One não era o maior problema do Leicester. Em Outubro de 2002, o emblema de East Midlands entrou em insolvência com dívidas de 30 milhões de libras. Foi então que um dos filhos da cidade e do clube entrou em acção. Gary Lineker, nascido e criado em Leicester, liderou um consórcio que salvou o clube da falência. Por isso, Gary Lineker, que já era conhecido por ser o "filho preferido de Leicester", ganhou o estatuto de vice-presidente honorário.

4 de Maio de 2008. Pela primeira vez na sua história, o Leicester City desce à League One, o terceiro escalão do futebol inglês. Ian Holloway, que foi o terceiro treinador do clube naquela temporada, deixou o Leicester após a descida de divisão, sendo substituído por Nigel Pearson. Este treinador, natural da vizinha e rival cidade de Nottingham, levou os "Foxes" à conquista da League One logo à primeira tentativa na época 2008/2009, para na temporada seguinte, em 2009/2010, atingir as meias-finais do play-off do Championship, onde o Cardiff foi mais forte no desempate por penalties. Pearson deixou o clube no final da época por sentir que a direcção nao confiava nas suas capacidades.

O Verão de 2010 foi de grandes mudanças em Leicester. Em Agosto, Milan Mandarić, que tinha adquirido o clube em Fevereiro de 2007, vendeu-o ao grupo King Power, liderado por Vichai Shrivaddhanaprabha, ou simplesmente, Khun Vichai. Se a nível directivo tudo se começava a encaixar, dentro do relvado as coisas teimavam em não correr bem. Logo em Outubro daquele ano, a nova administração despediu o recém-contratado Paulo Sousa, substituído por Sven-Göran Eriksson, que viria também a ser despedido um ano mais tarde, a 24 de Outubro de 2011. É então que Nigel Pearson volta e após um trabalho sustentado e bem desenvolvido surge a grande recompensa. Na época 2013/2014, o Leicester vence o Championship pela sétima vez na sua história e 10 anos depois regressa à Premier League.

As expectativas para a temporada de regresso à Premier League não eram elevadas. Sobreviver entre os tubarões era o objectivo, para de modo sustentado deixar de ser um "yo-yo club", expressão britânica que designa os clubes que são constantemente promovidos e despromovidos. E a tarefa foi hercúlea! O Leicester passou 19 jornadas no último lugar, entre Novembro e Abril, mas uma ponta final impressionante valeu a salvação aos "Foxes". Nos últimos 9 jogos, e sem que nada o fizesse prever, o Leicester somou 22 pontos e garantiu a salvação na penúltima jornada, tendo terminado o campeonato no décimo quarto lugar com 41 pontos. Designada de "Great Escape", foi uma das mais fantásticas fugas à despromoção da história do futebol inglês.

A época de 2015/2016 previa-se de sobressalto. Para lá das naturais dificuldades, Nigel Pearson foi despedido no início da pré-época devido a um desentendimento com a administração. A causa foi um escândalo sexual no qual o seu filho, também ele jogador do clube, esteve envolvido num tour de final de época na Tailândia. Claudio Ranieri foi o escolhido para substituir o inglês. As casas de apostas não foram nada simpáticas com o Leicester. Os "Foxes" eram os principais candidatos à descida de divisão e a odd para um eventual título inglês estava a 5000/1. Por exemplo, e ainda segundo os "bookies" britânicos, era mais provável encontrar Elvis Presley vivo do que um eventual título inglês no King Power, com uma odd de 2000/1. Mas... o inexplicável aconteceu. Liderado por um treinador que jamais tinha ganho um campeonato, o Leicester City Football Club alcançou provavelmente o maior feito da era moderna do futebol: o título de campeão inglês. Kasper Schmeichel, Robert Huth, o capitão Wes Morgan, N'Golo Kanté, Danny Drinkwater, o mágico Riyad Mahrez, Marc Albrighton, Andy King e o eterno Jamie Vardy foram as traves mestras de um feito absolutamente memorável.

Após uma época a todos os níveis épica, havia mais dúvidas do que certezas. Afinal, o pequeno Leicester City não estava habituado a estas andanças, apesar de ter um potencial enorme. As temporadas seguintes foram marcadas por algum sobressalto e bastante instabilidade dentro e fora do terreno de jogo. Ranieri foi despedido em Fevereiro de 2017, com a equipa apenas um lugar acima da zona de despromoção, tendo sido substituído pelo seu adjunto Craig Shakespeare. Este conseguiu levar o barco a bom porto, no entanto foi também demitido no início da temporada seguinte. Claude Puel foi o senhor que se seguiu, mas jamais conseguiu convencer o King Power, nem com o seu discurso nem com o seu futebol. Foi despedido em Fevereiro deste ano. Pelo meio, a tragédia... O icónico Khun Vichai, proprietário do clube, faleceu num trágico acidente de helicóptero em Outubro de 2018, em Leicester, após um jogo da equipa.

Nos dias que correm, é só sorrisos em Leicester. Puel foi substituído por Brendan Rodgers, que está a ser capaz de tirar o melhor proveito do plantel à disposição. Uma ideia de jogo clara, futebol atractivo e um fantástico segundo lugar na Premier League, que só poderá surpreender quem não acompanha o campeonato. Entretanto, a nova academia do clube deverá ser inaugurada no próximo Verão. Um projecto avaliado em 100 milhões de libras, cerca de 120 milhões de euros, que visa a aproximação aos maiores de Inglaterra. Por outro lado, está em curso um estudo para o aumento da capacidade do King Power em 7500 mil lugares. E com tanto "savoir faire" e tanta visão de futuro, será possível tornar o Leicester num dos maiores de Inglaterra e num regular candidato ao título?

Miguel Batista (A Economia do Golo)*

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico.

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

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