Risco mantém-se mas o Benfica já não tem de ganhar na Pedreira

O incrível empate permitido pelo Porto em Vila de Conde nos últimos cinco minutos da partida, abriu as portas do título ao Benfica que, no entanto, tem este domingo uma deslocação de altíssimo risco a Braga. Só que, agora, até o empate serve aos encarnados...

O feitiço virou-se contra o feiticeiro. O Porto vinha aproveitando o facto de jogar sempre antes do Benfica para fazer aumentar a pressão sobre os encarnados. Foi assim nas últimas jornadas. Mas quando se esperava que este fenómeno assumisse os seus contornos mais intensos, com o Porto a vencer em Vila do Conde e a obrigar o Benfica a vencer em Braga, eis que cinco minutos fatídicos tudo mudaram e a pressão transformou-se em depressão própria e motivação alheia.

Os portistas permitiram a recuperação do Rio Ave entre o minutos 85 e o 90 e terão, provavelmente, dado ao Benfica aquilo que este precisava para ser campeão: a possibilidade de poder jogar para dois resultados em Braga: o empate e a vitória.

Deve notar-se, aliás, que mais uma vez os comandados de Sérgio Conceição não souberam gerir uma vantagem no marcador: o mesmo aconteceu em casa perante o Vitória de Guimarães (2-0 para 2-3) e o Benfica (1-0 para 1-2), o que no total representou a perda de oito pontos.

Uma Pedreira de risco

Tudo isto não invalida que o Benfica continue a ter um teste muito exigente (teoricamente, o mais exigente até final do campeonato) na deslocação a Braga, onde mora o quarto classificado do campeonato.

Mas este Braga de Abel é muito mais do que isso - até porque ficar nos quatro primeiros já se tornou um hábito para os bracarenses: desde 2010 só por duas vezes não ficaram nos quatro primeiros - e à exceção da única vez que lutou pelo título até ao fim (em 2009/10), com Domingos ao leme, nunca o clube fez tantos pontos como nestas duas temporadas com Abel. Em 30 jornadas da época passada conseguiu 68 pontos e na presente liga tem 64.

No entanto, Abel ainda não conseguiu a total afirmação da sua equipa, em grande medida devido à incapacidade de defrontar os adversários mais fortes com a consistência com que enfrenta todos os outros. Na presente temporada, em oito encontros perante Benfica (derrota por 6-2 na Luz), Porto (três derrotas e um empate) e Sporting (uma vitória, uma derrota e um empate - com sabor a derrota, na meia final da Taça da Liga, em Braga) somando portanto cinco derrotas, dois empates e somente uma vitória.

Para o Benfica pode ser especialmente preocupante a força demonstrada pelo Braga entre-portas: somente duas derrotas (com o Porto e o Belenenses), tendo por exemplo batido o Sporting, possuindo a terceira melhor defesa na condição de visitado: 11 golos sofridos, apenas superado pelo Porto (oito) e pelo Vitória de Guimarães (nove).

Contra este argumento, o Benfica assume-se como o melhor visitante do campeonato português e como a equipa que marca mais golos fora (33), tenda ainda a segunda defesa menos batida neste contexto (11 golos, contra nove do Porto).

Além do mais, os pontos que o Benfica perdeu fora de casa (empate em Alvalade e duas derrotas, com Belenenses e Portimonense) aconteceram ainda Rui Vitória e não com Bruno Lage, que tem um percurso limpo fora de portas (os únicos dois pontos perdidos na Liga correspondem ao empate na Luz, perante o Belenenses).

Lage tem sete jogos fora e sete vitórias - incluindo no Dragão e em Alvalade. E o saldo de golos é impressionante: 19 golos marcados, quatro golos sofridos: perto da marca dos três golos marcados por jogo, e abaixo dos 0,5 sofridos.

A história mais recente favorece igualmente o Benfica: três vitórias em Braga nas três últimas visitas, assim como quatro vitórias nas últimas cinco deslocações. Desde 2014, por duas vezes o Benfica foi a Braga já na parte final do campeonato, estando envolvido em lutas mais ou menos complicadas pelo título, e não vacilou, vencendo em ambos os casos (2014 e 2017) por 1-0

Aliás, se analisarmos as deslocações encarnadas a Braga no último terço do campeonato com o Benfica na luta pelo título, chegamos à conclusão que num total de oito ocasiões apenas cedeu pontos em duas: empates em 1986 (acabando por perder o título para o Porto) e em 1966 (perdendo o título para o Sporting).

De resto, vitórias importantes em 2017, 2014, 1994 e 1965, sempre correspondentes a conquistas do título, a que se juntam triunfos em 1993 e 1959, que no fim do campeonato não valeram de nada em termos de luta pelo título.

Numa perspetiva mais geral, deve notar-se que em tempos recentes - no século XXI - a deslocação encarnada a Braga deixou de ser favas quase contadas. Depois de estar 33 anos sem perder na capital do Minho (entre 1966 e 1999), as coisas mudaram significativamente: em todo o século XXI (que corresponde à afirmação do Braga europeu, às vezes candidato ao título) em metade das deslocações (nove) o Benfica perdeu pontos: três empates e seis triunfos bracarenses.

Tal significa que, a seguir ao Dragão, o reduto do Braga foi aquele em que o Benfica perdeu mais vezes para o campeonato no século XXI: em Alvalade perdeu apenas cinco vezes, em Braga perdeu seis.

Equipas com pontos fortes semelhantes

Além de serem conjuntos que jogam em sistemas semelhantes (4x4x2), com um dos alas a completar um trio no meio campo em muitos momentos (quase sempre o ala direito: Pizzi nos encarnados de Lisboa e Esgaio nos vermelhos do Minho), os pontos fortes de Braga e Benfica são muito parecidos:

- os ataques rápidos: as duas equipas marcam mais golos desta forma do que em ataque organizado. O que vai com certeza conduzir a que o jogo se inicie com muita vigilância recíproca e preocupação geral em manter o equilíbrio, não permitindo perdas de bola perigosas.

Cautelas que podem levar a um jogo dominado por alguma contenção, pelo menos enquanto uma das equipas não marcar, sendo que o facto do empate ser agora um resultado interessante para o Benfica pode reforçar esta contenção geral.

- as bolas paradas: o Benfica é o segundo mais forte do campeonato na sequência de bolas paradas (sem contar com penáltis), com 17 golos obtidos. Há no entanto que realçar o facto de 15 destes golos terem sido obtidos no consulado de Bruno Lage (15 jogos), contra apenas dois conseguidos com Vitória (também em 15 encontros).

O Braga marcou 11 vezes de bola parada mas deve dizer-se que tem vindo a perder eficácia neste particular.

- o jogo aéreo ofensivo: 15 golos de cabeça do Benfica (o melhor registo a par do Porto); 13 do Braga, o que constitui a terceira melhor marca da liga.

Inimigos públicos

No Benfica, a dupla Félix-Seferovic, com Pizzi a assistir, tem sido absolutamente decisiva. Félix, por exemplo, marcou três golos nos últimos dois jogos e é já o quinto melhor marcador do campeonato, com 15 golos.

O jovem benfiquista é ainda o quarto jogador mais influente da liga com 13 golos e sete assistências. Aliás, a lista é dominada por futebolistas do Benfica: Pizzi (empatado no primeiro lugar com Bruno Fernandes), com 27 participações decisivas em golo (10 tentos e 17 assistências), e também Seferovic, com 19 golos e cinco assistências... Desde a chegada de Bruno Lage, o suíço só não marcou ao Vitória de Setúbal (apesar dos seis golos encarnados), e no Dragão.

No Braga, os últimos golos têm sido obtidos por diversos jogadores, devido também a um certo apagamento de Dyego Sousa, que já não marca há nove jogos, dos quais oito do campeonato. É a maior seca de golos do avançado, que até aqui nunca ficara mais do que três encontros sem facturar.

Assim o perigo pode vir de diversos lados: depois de Dyego (20 golos e seis assistências), temos como jogadores mais influentes da equipa Wilson Eduardo (10+2), Ricardo Horta (8+4), Paulinho (5+2). Destaque recente para Fransérgio que marcou dois golos nos últimos dois encontros, as vitórias na Feira por 2-0 e em casa perante o Tondela (3-0). Triunfos que surgiram depois de duas derrotas (2-3 em casa com o Porto e 1-0 em Moreira de Cónegos), resultados que atiraram com o Braga para quarto lugar, embora ainda na luta pelo terceiro, ocupado neste momento pelo Sporting.

Notas: A antevisão do Braga-Benfica foi um dos temas do programa Números Redondos desta semana - que pode ouvir aqui, na íntegra - no qual abordamos ainda a luta pela manutenção e a proeza única de Cristiano Ronaldo ao vencer a Liga Italiana, ao serviço da Juventus.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de

Outros Artigos Recomendados