Os rapazes de Conceição deixaram a panela de pressão em casa

FC Porto venceu Estoril Praia por 4-0, no arranque da Liga Portuguesa. Marega bisou, depois de entrar pelo lesionado Soares. Marcano e Brahimi fizeram os outros golos.

Sérgio Conceição já teve alguns "dia 1" na sua vida. A estreia nos seniores, na Segunda Divisão, foi em agosto de 1993 com a camisola do Penafiel (vs. Tirsense). O jovem promissor ficou no banco, de onde viu Caetano, o pai do pequeno Caetano (ex-Paços), resolver a partida. Conceição entraria a 33' do final, por Paulo Antunes. O outro dia 1 foi na Primeira Divisão, em agosto de 1995, com uma tripla de arbitragem digna de registo: Carlos Calheiros, Augusto Calheiros e Amândio Calheiros. A camisola pertencia ao Felgueiras, o treinador era um tal de Jorge Jesus. O extremo, que dividia ataque com os saudosos Lewis e Earl, marcou um golo e o Felgueiras lá empatou a duas bolas com o Desportivo de Chaves.

Seguiu-se o Futebol Clube do Porto, clube onde agora tem outro dia 1, mas já lá vamos. Com o dragão ao peito, a colar-se à pele com o suor, qual segunda carcaça, Sérgio Conceição arrancou logo contra o Benfica de João Pinto, Preud'Homme e Nica Panduru, a 18 de agosto de 1996. O extremo, que também era lateral, foi colocado em campo por António Oliveira a 24' do fim. Aloísio, Barroso, Drulovic e companhia trataram do assunto antes, com um golo de Domingos Paciência. Um-zero e a Supertaça Cândido de Oliveira para o museu das Antas. Podíamos ir mais além, com as estreias nos clubes italianos onde passou ou até naquela que terá sido a estreia na Media Cup, onde ex-jogadores profissionais jogam à bola no torneio de jornalistas. Conceição, que representava um jornal da nossa praça, levou um cartão vermelho e lá seguiu chateado para o balneário. Este escriba perguntou-lhe o que se passou. "Eh, pá! Não ultrapassam assuntos do passado. São histórias com 20 anos...", revelou.

E agora o FC Porto, como treinador respeitado, principalmente depois da obra no Nantes. Quarta-feira, 9 de agosto de 2017, Sérgio Conceição estreia-se a ganhar contra o Estoril Praia de um ex-companheiro, Pedro Emanuel. Apesar de alguma atrapalhação aqui e ali dos jogadores no ataque por vezes, quem sabe pelo nervoso miudinho relativo à estreia na liga, as ideias do treinador parecem ser claras: jogar bem e ter muitos homens à frente da linha da bola.

Comecemos por aí, pelas ideias. Simplifiquemos, para não entrarmos aqui numa formação de Nível 1 do curso de treinador. Um dos médios (Danilo ou Óliver) baixa para o meio dos centrais para a jogada começar limpinha, pelo chão, beneficiando da amplitude dada pelos laterais, que avançam no terreno. Brahimi e Corona, os extremos, têm liberdade para fazer movimentos para dentro, para tocar (com médios e avançados) e para arrastar o lateral rival e deixar ali um buraco. Soares e Aboubakar na frente, sendo que um deles baixa para entrar em zonas esquecidas e fazer triângulos (tabelas, combinações e associações). Com bola, o ideal será jogar pelo chão, mas parece não haver pudor em dar uso ao passe longo, para explorar o flanco oposto, normalmente mais exposto.

Apesar disto tudo, de querer meter muita gente à frente da bola, de querer jogar e pressionar o adversário no campo inteiro, o primeiro golo chegou através de um atraso deficiente de Mano, que tocou mal para Moreira e ofereceu o golo a Marega, que acabara de entrar pelo lesionado Soares (34'). Aboubakar estava em dia não à frente da baliza. Para compensar, o talento de Brahimi, depois de um ressalto, haveria de serenar os corações palpitantes dos adeptos azuis e brancos: 2-0 (52'). O argelino apareceu na cara de Moreira, pela esquerda, e meteu no poste mais distante.

Kléber era uma ilha deserta na dianteira dos visitantes. O ex-jogador do FC Porto, com talento para dar e vender, com futebol para jogar noutros patamares, quase nunca teve bola. Carlinhos tem pedalada, bom toque de bola, mas ainda falta comer muita sopa para ser influente num jogo destes. André Claro mostrou aqui e ali qualidade. A equipa de Pedro Emanuel não teve argumentos, esteve sempre curta, sem capacidade para sair. Não havia capacidade para jogar futebol. Ou seja, limitou-se a defender. Nos minutos finais, com mais folga dada pelos dragões, o Estoril tentou dois remates jeitosos. Iker Casillas, que poderá ter outra influência nos lançamentos longos, resolveu bem.

E o terceiro golo chegou naturalmente, aos 60'. Mais uma vez, Marega meteu a bola na baliza do Estoril Praia: Óliver Torres, com a inteligência do costume, ganhou espaço na área, recebeu a bola, sacou um belo cruzamento e o avançado cabeceou para o terceiro da noite. O Estoril estava completamente bloqueado, esteve sempre. A 20 minutos do fim, Marcano, depois de um livre marcado no corredor central, cabeceou e celebrou o 4-0 (foi preciso recorrer ao vídeo-árbitro para validar o golo). O FC Porto deu continuidade à pré-época positiva.

Prri, pri! Missão cumprida para Sérgio Conceição, o homem que disse que estava no Dragão para ensinar e não para aprender. Para já, ensina a sua gente a contar até três. Três pontos. E a pressão? Nem vê-la. Agora com voz de rádio para fechar: depois das estreias contra Tirsense, Desportivo de Chaves e Benfica, nenhuma foi tão redondinha como esta enquanto treinador: FC Porto, quatro, Estoril Praia, zero.

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