Os rebeldes de Saltillo
O Meu Mundial

Os rebeldes de Saltillo

Foi, talvez, o último torneio "amador" em que Portugal participou. Depois de 20 anos fora dos Mundiais, e com a memória de Inglaterra 66, em 1986 o país acreditava, sem reservas, na seleção. Na memória recente ainda estava o Europeu de França, em 1984, e a forma dramática como Portugal tinha sido eliminado pelos anfitriões. Dentro de campo, a seleção tinha mostrado bom futebol, Chalana tinha despontado para os palcos europeus e o conjunto estava afinado. Chamaram, aos que foram chamados para o México 86, os Infantes.

A história de Saltillo ainda está por contar. Aliás, como sempre, dificilmente saberemos, algum dia, toda a história. Porque o tempo apagou memórias, porque há factos que se dissiparam com o passar dos anos, e porque há versões da mesma realidade que, contada por diferentes protagonistas tem, por isso, diferentes visões.

Mais do que a vitória sobre a Inglaterra, um "milagre" que ninguém esperava, e para lá das derrotas com Marrocos e Coreia do Sul, que poucos poderiam prever, Saltillo marca o fim de uma Federação Portuguesa de Futebol amadora na organização, no planeamento e na gestão de uma grande competição desportiva. Na conversa de café, dir-se-ia que, o que na altura havia a menos, há hoje a mais.

Correu tudo mal. Bento, o guarda-redes titular, partiu a perna num treino, quando fazia de jogador de campo. Vítor Damas (o suplente) foi "informado" do acontecido enquanto se barbeava calmamente no balneário (com o treino a decorrer). Segundo rezam os relatos, terá dito: "Estamos f***dos". Tinha razão. A partir dali, dentro do campo, nada mais correu bem.

Mas as memórias desse meu Mundial vão, direitas, para a icónica imagem dos jogadores, cada qual com sua camisola, atrás de Bento, o capitão da seleção nacional, a ler um comunicado. Os jogadores queriam mais dinheiro de prémios e uma percentagem da publicidade que a FPF recebia dos patrocinadores. Nada disto foi acautelado antes. Fizeram greve. Trocaram os treinos por festas no hotel, conseguiram que "as chicas" de Saltillo saltassem para as bancadas mexicanas com cartazes de apoio a Portugal, levaram a que o caso fosse discutido no parlamento. À época - hoje seria normal - até o Presidente da República interveio para tentar "acalmar" os jogadores.

A imagem fala por si, apesar de ser apenas um instantâneo. Os chinelos de Bento, as expressões dos colegas de seleção, a mesinha de café onde repousa o comunicado escrito e os microfones e gravadores, todo o quadro é revelador. Caos, desorientação, confusão, desilusão.

"O caso" Saltillo ficou conhecido como uma "página negra" do futebol português. Hoje, sabemos que Saltillo foi o rastilho que despoletou, depois, maior cuidado e atenção na preparação das seleções e mais profissionalismo na estrutura federativa. Foi, de alguma forma, o fim de uma era. Os rebeldes de Saltillo, com todos os erros que cometeram, acabam por provocar uma revolução na estrutura do futebol.

Bento não voltou a jogar. Depois de partir a perna, fez mais meia dúzia de jogos a titular. Grande parte dos "revolucionários" não voltaram à convocatória. Dentro do campo, com as duas derrotas que afastaram a possibilidade de passar da fase de grupos, os jogadores impediram José Torres, o selecionador, um dos magriços de 66, de "sonhar".

"Deixem-me sonhar", disse na altura, antes da partida para o Mundial. O sonho transformou-se num terrível pesadelo. Longe do México, em Portugal, a esperança nos Infantes deu lugar a uma profunda desilusão e revolta. Mas não há revoluções sem custos, sem perdas e sem exageros. Só 16 anos mais tarde, a seleção voltaria a um Mundial e, também nessa altura, nem tudo foi bem feito, antes e durante.

Em todo o caso, o futebol de hoje deve muito aos rebeldes de Saltillo.

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