Pantera ferida que veste de amarelo

Daniel Freitas tem uma história para contar depois da etapa que terminou no alto do Monte Córdova. Justificou o aplauso do público no dia que a sua equipa perdeu dois elementos.

A voz de Daniel Freitas fica embargada por momentos, ao recordar o dia da Rádio Popular Boavista. Para o novo camisola amarela da Volta a Portugal, há na memória horas de tensão. No dia anterior, o chefe-de-fila, o ciclista para quem deveria trabalhar a equipa - num plano teórico, ou pelo menos, como objetivo de partida -, João Benta, testou positivo à Covid-19. Num grupo de apenas sete atletas, com responsabilidades distribuídas, planos definidos, estratégias que necessitam das pernas e do alento de cada uma das unidades, o projeto do Boavista ficava limitado.

Para além de João Benta, ficou ainda de fora o companheiro de quarto, Tiago Machado. Era isso que anunciava o diretor desportivo da Rádio Popular Boavista, José Santos, à chegada ao parque onde estão os camiões das equipas, antecâmara de cada etapa. Assintomáticos, mas fora da volta. A vida continua para os restantes cinco. O cenário repete-se com a equipa do camisola amarela, o Tavira, também com dois elementos fora do pelotão por causa da pandemia.

Na estrada, a fuga inicial de 11 elementos anunciava o já visto equilíbrio de forças: dois homens da W52 FC Porto, dois homens da Efapel, e uma longa lista que incluía alguns ciclistas que passavam até agora despercebidos. Entre eles esteve o vencedor da etapa, um inglês de 21 anos, sorriso rasgado, impecavelmente luzidio. Mason Hollyman, corredor da equipa israelita presente nesta volta a Portugal. Hollyman quebrou o andamento de Tomas Contte, o argentino que liderou a prova durante muito tempo, até cair para o terceiro lugar.

Os nomes que surgiam na lista da fuga, a distância que cavaram para o pelotão, onde estava o camisola amarela, faziam adivinhar uma passagem de testemunho. A subida de Santo Tirso, do Monte Córdova, até ao alto onde se estende um grande largo, com o Santuário de Nossa Senhora da Assunção, ajudou a encurtar distâncias. Só por causa desses seis quilómetros Alejandro Marque continua na corrida, pelo esforço, hoje longe dos holofotes, para segurar um tempo razoável para o grupo na liderança da prova.

Da subida, onde até os carros dos repórteres servem para dar boleia aos aventureiros que fazem a escalada curvilínea a pé, emerge o nome de Daniel Freitas. As contas para a camisola amarela ocupavam o tempo e o discurso nos altifalantes da prova. Uma tentativa de explicar aos milhares de pessoas que se acotovelavam na chegada que, para além do aplauso ao miúdo inglês que ia na frente, havia que reservar um outro para uma pantera. Daniel Freitas chegou em sexto. Recuperou mais de três minutos de desvantagem para Alejandro Marque e ainda colocou na tabela 42 segundos de vantagem.

"Foi um momento difícil. Não sabíamos até onde as coisas poderiam ir. O importante é seguir em frente e lutar por todos", explica Daniel Freitas.

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