Rui Costa, "O Maestro"

Portugal também teve o seu maestro. Alinharam-se, pois, os astros a 29 de março de 1972 para deitar ao mundo Rui Manuel César Costa, ou, no mundo do futebol, simplesmente Rui Costa. Natural de Lisboa e benfiquista desde o berço, Rui tinha, como qualquer criança, o sonho de representar a equipa do seu coração. O talento, desde cedo, começou a ficar visível e daí a um treino de captações organizado pelo Sport Lisboa e Benfica, na antiga Luz, foi um tiro. Treino que, segundo o próprio, "era mais um foco de divertimento aos filhos dos sócios", como era o seu caso.

O pequeno Rui Costa, na altura com 9 anos, porém, não ia para operações de charme. Ou melhor, ia porque todo o seu futebol era charme aliado a um perfume muito próprio. E foi alguém muito especial que viu Rui, entre 500 crianças, a magicar com a bola. Três toques depois no esférico e a bênção de... Eusébio da Silva Ferreira, estatuto mitológico do "Rei" do futebol português. Tal bênção, claro está, só podia pressagiar o inevitável. Ou não fossem as histórias que incluam um Rei e um Príncipe plenas de finais felizes...

E a história de Rui Costa começou mesmo pelo início. Foi aí, segundo o próprio (palavra de Maestro...), o seu momento mais feliz. Estávamos em 1991, na "sua" Lisboa, no "seu" estádio, em plena final de Mundial sub-20, numa Luz a rebentar pelas costuras, onde não cabia nem mais um parafuso. O duelo com o Brasil tinha chegado ao seu epílogo... 120 minutos depois. E quis o destino que fosse Rui a revelar ao mundo qual o novo campeão planetário da categoria sub-20. Depois do matador brasileiro Élber e Marquinhos terem desperdiçado as respetivas grandes penalidades e Jorge Costa, Figo e Paulo Torres, pelas cores nacionais, terem cumprido na perfeição a sua missão, Rui Costa, com um improvável n.º 5 nas costas, partiu, guarda-redes para o lado direito e bola para o outro, entrando na gaveta do canto superior esquerdo. E Portugal era... bicampeão mundial da categoria, depois de, dois anos antes, ter protagonizado idêntica façanha em Riade.

Um feito que por pouco não fez implodir o velho Gigante de Betão! Os jovens lusitanos conseguiram passar do sonho à realidade, no que foi, para Rui Costa, a maior "alegria da carreira", num ano em que até jogava no Fafe, por empréstimo do seu clube do coração, algo que o fez catapultar na época seguinte, em definitivo, para o ninho da águia. Sobre o grandioso momento, que, segundo ele, estava condicionado pela atmosfera absolutamente demoníaca na Luz, Rui Costa garantiu que "nenhum de nós estava pronto. Posso confessar que, antes de subirmos, tínhamos meia equipa a chorar, mas compulsivamente. Não conseguiam entrar para dentro de campo e eu era um deles". Dos receios iniciais, iria surgir um quimérico troféu com sangue, suor e muitas lágrimas...

A Caixa de Pandora dos troféus foi aberta e nunca mais parou. Em 1992/93, conquistou a Taça de Portugal e, na temporada seguinte, o Campeonato Nacional. A Fiorentina, louca pelos predicados evidenciados pelo 10 benfiquista, perdeu a cabeça por ele e levou-o para Itália, numa transferência que encheu os depauperados cofres encarnados. Custou, como se de uma história de amor impossível se tratasse, mas Rui partiu para a, na altura, Liga mais conceituada do mundo.

Não havia dúvidas. Assumiu a batuta do meio campo dos Viola e não mais a deixou. Era maestro, tocador de viola e carregador de piano ao mesmo tempo e tinha, ademais, quem culminasse toda a magia produzida. Um outro ser extraterrestre denominado Gabriel Batistuta. Ou Batigol, para sermos mais claros. Juntos, eram a fotossíntese da equipa, mais tarde enriquecida por outros grandes nomes, entre os quais Edmundo "O Animal", um trio que fez sonhar os fiorentinos com a Serie A, mas que, desafortunadamente, culminou no último lugar do pódio.

Num clube pouco habituado a vencer troféus, tendo apenas dois scudetti, conquistados nos anos 50 e 60, o maestro português ajudou sobremaneira a alterar o paradigma do clube, tendo ajudado à conquista da única Supertaça Italiana do palmarés fiorentino, em 1996, e das quintas e sextas Taças de Itália, em 1995/96 e 2000/01, curiosamente esta a última temporada em Florença.

Deixou para trás um legado colossal de 7 anos de pinturas e esculturas futebolísticas na cidade da arte e, como não podia deixar de ser, eternizou-se como "Príncipe de Florença", ficando assim lendariamente alcunhado, voando, de seguida, para Milão, para ir ao encontro de uma constelação. Guardou a viola no saco e passou a tocar violino num AC Milan recheado de estrelas do mais profuso meio interestelar. Aí, na cidade da moda, desfilou o talento de sempre e preencheu a sua vitrina com mais uma Taça de Itália, ao qual juntou o maior dos maiores, a prova-rainha da UEFA, a Liga dos Campeões, em 2002/03, a Serie A Italiana, em 2003/04, ao qual se juntou a Supertaça Europeia e mais uma Supertaça do país da bota em 2004/05.

Acima de tudo, espalhou talento (in)visível a rodos no país de Da Vinci, Miguel Ângelo e Dante. Reescreveu a arte no retângulo verde e foi adorado em Florença e Milão. Fez o pleno a este nível, alargado ao eterno respeito dos clubes rivais, que sabem reconhecer a grandeza dos... gigantes.

Pela Seleção A, foi, a par de Luís Figo, o expoente máximo da Geração de Ouro do futebol português. Na retina dos portugueses, ficará eternamente o golaço apontado à República da Irlanda, no decisivo jogo de qualificação para o Europeu de 1996. De primeira, uma primorosa chapelada a Alan Kelly, golo que desbloqueou os restantes dois numa noite memorável no seu anfiteatro preferido: o Estádio da Luz. Perdurará eternamente também a arrancada monumental do meio campo, o drible a Phil Neville e o potente disparo à entrada da grande área no empate e posterior épico triunfo nas grandes penalidades sobre a Inglaterra, em 2004. Euro 2004 que acabou por ser o momento mais triste da carreira desportiva do maestro. Quis o destino que fosse o seu palco favorito a angustiá-lo, numa final perdida para a Grécia e em que Rui Costa substituiu as tantas lágrimas de alegria vertidas naquele estádio (ainda que, este, já a "nova Luz") pelas de tristeza e raiva por não ter conseguido levar Portugal ao cume da Europa de futebol sénior.

Como qualquer história de amor, Rui regressou, como sempre prometera, ao "seu" Benfica, (pre)enchendo os corações dos encarnados, eterno ídolo da massa adepta da águia, clube ao qual prometera sempre juras de amor eterno e onde concluiu magnífica carreira desenhada a régua e esquadro. Junto dos seus, que, com Rui, choraram, em 1995, quando o maestro, acabado de se tornar jogador dos Viola, marcou, num repleto Gigante de Betão, na apresentação da equipa encarnada aos sócios e adeptos. Assistido, claro está, por Batistuta, Rui marcou e, de imediato, soltou lágrimas como se acabasse de trair o amor da sua vida, com os adeptos encarnados, que foram sempre seus, a partilharem a comoção do momento, no que foi, para o jogador, o "pior golo da sua vida".

Rui teve quatro amores, mas um talento infinito. Elegância, técnica e classe marcaram a carreira de um dos mais pródigos jogadores portugueses de sempre. É genuíno, é puro, é futebol. É Rui Costa.

Autor: André Rodrigues (A Economia do Golo)

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