Roger Schmidt
Futebol

Schmidt no Benfica. Um engenheiro de relações humanas à procura de títulos

Para Roger Schmidt, quatro anos é um período demasiado longo na vida de um treinador. Para o Benfica, três anos sem títulos são uma eternidade. Rui Costa aposta num treinador que faz da relação com os jogadores um trunfo.

Roger Schmidt recusou no início de janeiro de 2022 renovar contrato com o PSV Eindhoven. O clube dos Países Baixos lutava pelo título, mas a queda da fase de grupos da Liga Europa e a eliminação diante do Benfica (com Jorge Jesus) no playoff de acesso à Liga dos Campeões enfraqueciam a posição do treinador, pelo menos do ponto de vista da opinião pública. Ainda assim, o PSV insistiu na opção. Schmidt recusou o convite.

Meses mais tarde, numa entrevista aos meios de comunicação do clube, o treinador surgia sereno, de sorriso confiante e desafiador, e com uma explicação para a recusa. "Quatro anos são demasiado na vida de um treinador. Mas penso que já demonstrei a minha lealdade", completava. Estava por decidir a Taça dos Países Baixos - que viria a vencer -, mas também as rondas finais do campeonato.

A decisão de Roger Schmidt foi encarada com alguma estranheza, explica o jornalista do Eindhoven Dagblad, Rik Elfrink. "Não percebemos exatamente qual a motivação do treinador ao escolher sair para Portugal." Nos Países Baixos, faltaram os títulos - pedia-se mais além da Taça e da Supertaça desta temporada -, mas sobretudo vitórias em jogos de maior grau de dificuldade, nota Rik Elfrink.

A escolha de Schmidt pelo campeonato português surpreende o repórter. "É de alguma forma contracultural", pelo estilo de jogo, sustenta. "Roger quer ter a bola o mais depressa possível. É proativo desse ponto de vista. Tenho ideia de que, em Portugal, com boas defesas, vai sofrer muito com contra-ataques, com os espaços que as suas equipas deixam. Mas acredito que será capaz de encontrar soluções", aponta Rik Elfrink.

O engenheiro mecânico especialista em relações pessoais

Depois de uma carreira discreta enquanto jogador semiprofissional - dizia que treinava de manhã e sobrava-lhe tempo para estudar -, passada essencialmente nas ligas regionais da Alemanha, Roger Schmidt começou a treinar no Delbrücker SC, em 2004. Durante esse período, exerceu a profissão para a qual estudou: engenheiro mecânico.

Pai, com a vida estabilizada, Roger Schmidt aceitou o convite do Preußen Münster - clube histórico, um dos fundadores da Bundesliga -, clube com o qual escalou o futebol alemão, mas de onde acabaria despedido. Já não regressou ao trabalho como engenheiro.

Em Munster, Schmidt trabalhou com o extremo turco Mehmet Kara. O talentoso avançado haveria de se tornar o atleta com mais jogos sob orientação do treinador alemão (138 partidas), seguindo mais tarde para a Bundesliga 2 na passagem de Schmidt pelo Paderborn.

"Todos os jogadores o adoram. É sempre correto, duro mas justo. Na minha carreira não tive um treinador melhor do que Roger Schmidt", explica o extremo de 38 anos, atual jogador do VFL Kamen.

Da relação que teve com o treinador, Mehmet Kara recorda as palavras de Roger Schmidt nos treinos e nos jogos uma mensagem positiva, mas também uma ideia sobre o que o técnico pede aos jogadores ofensivos. "Ele dizia-me, vai no um para um. Vamos lá, tu consegues, tu consegues. Sempre, tu consegues. Nunca o 'não vais conseguir'. Isso nunca", completa o extremo, antigo número "10" do Paderborn.

E o que mais pode pedir um extremo a um treinador? "Roger insistia que eu tinha de ir no um para um, no drible (...) Dizia-me, 'estou a apoiar-te, nas tuas costas'. Com outros treinadores, se cometes um erro, já te estão a repreender. Mas não com ele. Dizia-me sempre: 'continua, tu consegues, tu consegues'."

Tal como Rik Elfrink, Mehmet Kara destaca o papel integrador, a formulação de um grupo coeso no arranque de cada temporada. Um grupo fechado. "Ele fala com todos os jogadores, não apenas com 11. Fala com os 25 jogadores. E isto não é algo normal no futebol. Quando tens jogadores que simplesmente não jogam, há sempre quem não goste, e por isso é algo que nunca vi com outro treinador. Quem não joga acha sempre que o treinador não presta. Mas não com ele. Todos o adoram".

Um conforto que fazia os jogadores às ordens de Schmidt desejarem que o treino nunca terminasse: "Quando ia para os treinos de Roger Schmidt eu tinha um sorriso nos lábios. Não sei se percebem o que quero dizer. Eu estava sempre feliz. Quando o treino terminava ficava com a sensação que, bolas, já tinham terminado. Ia sempre treinar com um sorriso. É tão bom que queres sempre mais, estás sempre satisfeito." E bola está sempre presente, mesmo que exista grande exigência física.

Com Mehmet Kara como extremo esquerdo, Roger Schmidt levou o Paderborn a uma classificação histórica na segunda divisão alemã. O trabalho do treinador agradou a Ralf Ragnick, então diretor do Red Bull Salzburgo, que o levou para a Áustria.

Cinco segundos e o tempo da vida do futebol

Foi notícia na Áustria o recurso a uma sirene nos treinos. O som estridente soava de cada vez que a equipa, nos treinos, não recuperava a bola nos cinco segundos seguintes à perda para o adversário. Roger Schmidt foi escolha de Ralf Rangnick, atual treinador do Manchester United, à época diretor do projeto da Red Bull.

"Trocamos ideias e trabalhamos juntos por dois anos. No final desse período, o nosso futebol era ainda uma versão mais extrema do que Ralf [Rangnick] promovia, do que conhecemos da sua equipa do Hoffenheim", explicou Roger Schmidt, numa entrevista ao jornal The Guardian.

Por seu lado, Ralf Rangnick admite alguns conflitos com o técnico sobre o caminho a seguir na Áustria. "Roger queria jogar sempre em 4x2x3x1. O ponta-de-lança era Jonathan Soriano, mas também tínhamos um outro avançado, Alan. Sempre que jogava marcava. Por isso, eu e Roger tivemos uma discussão."

Rangnick queria os dois avançados em simultâneo, defendia que a presença dos dois atletas condicionava os adversários. Roger Schmidt acabou por ceder numa equipa onde estavam ainda Sadio Mané (Liverpool) e Kevin Kampl (Leipzig), como apoio direto aos dois da frente.

O antigo ponta de lança catalão Jonathan Soriano deve a Roger Schmidt um contributo importante para uma carreira cheia de golos. Orientado pelo alemão, Soriano apontou 102 golos em 109 jogos, entre Red Bull Salzburg e Beijing Guoan, na liga chinesa. Estava sempre perto da baliza, até quando defendia.

"As equipas de Roger [Schmidt] são muito ofensivas. Ele pedia-me sobretudo para estar muito próximo da área adversária. Com ele, um avançado tem de estar perto da baliza", explica o antigo goleador. A expressão ofensiva do futebol do alemão não se concretiza apenas na presença massiva de jogadores no apoio ao ataque. Há, na pressão exercida logo após a perda de bola em zonas adiantadas, uma arma importante.

A pressão exige trabalho e preparação. "O que procura é um futebol muito atrativo, com muita intensidade. Os treinos são um exemplo do que acontece ao fim de semana porque promove sessões de trabalho muito intensas, sempre pensadas para o que vai acontecer no jogo. E por isso os jogadores chegam aos encontros com muito ritmo", explica Soriano.

Mas é a relação pessoal de Schmidt com os jogadores que Jonathan Soriano destaca. "Para mim, à parte de ser um grande treinador ou de ter uma filosofia muito interessante, o melhor que tem Roger Schmidt é a relação com os jogadores. É um treinador muito próximo, que gosta de falar com os atletas, não só de futebol, mas sobre a vida. Tive a felicidade de coincidir com ele na altura do nascimento da minha filha. Recordo-me que me ligava com frequência, que se preocupava em ajudar-me com a minha vida privada."

"O Benfica é um grande clube, mas precisa de um treinador como Roger para lhe dar a motivação e intensidade de que precisa", considera Jonathan Soriano. O antigo avançado acredita que Roger Schmidt está destinado a um patamar diferente na carreira. "Não tenho dúvidas, só estranho que não tenha alcançado já um nível superior, é um grande técnico", sustenta o antigo goleador.

Homens de confiança

Jonathan Soriano seguiu Roger Schmidt para a China. O treinador gosta de se fazer acompanhar por atletas que acreditam nas suas ideias e nas relações que cria. Kevin Kampl (Salzburgo e Leverkusen), André Ramalho (Salzburgo, Leverkusen e PSV), Eran Zahavi (Guan e PSV), Jens Wissing e Mehmet Kara (Munster e Paderborn) são exemplos das pontes que procura entre projetos.

O médio do PSV Mário Gotze rasga elogios a Roger Schmidt numa entrevista "Kicker meets DAZN". "Para mim, o mais importante é a personalidade do treinador. Os outros fatores não têm um papel tão importante", vincou o jogador internacional alemão.

Roger Schmidt bem esperou por Gotze. O técnico apenas pediu o jogador à direção no último dia do mercado de transferências de 2020. O jogador estava livre, em fim de contrato com o Borussia Dortmund, mas manteve contacto durante todo o verão com Schmidt. Acabou por assinar a 6 de outubro, numa oportunidade fora da janela de transferências.

O português Carlos Leal conhece as ideias de Roger Schmidt e reconhece no treinador germânico uma mais-valia para o futebol português. Para o diretor do Arminia Bielefeld - recém despromovido à Bundesliga 2 -, o Benfica apostou num técnico "com muito caminho para andar, mas já com muita experiência internacional".

Uma aposta segura, nota Carlos Leal, colocando Schmidt entre os treinadores de elite do futebol alemão da nova vaga.

"Um treinador moderno, que exige muito aos jogadores mas que é, ao mesmo tempo, alguém que está muito perto da equipa. Que cria um ambiente de trabalho de alta qualidade e profissionalismo mas, ao mesmo tempo, muito familiar - um pouco como é na vida privada -, com esse grupo que com ele trabalha no dia-a-dia", aponta o antigo dirigente do Munique 1860, que trabalha há décadas no futebol alemão.

Da pré-temporada em Portugal à escassez de títulos

Para o treinador português Rui Mota, essa experiência alimenta a equipa técnica liderada pelo alemão Roger Schmidt, um treinador que procura um jogo ofensivo.

"Dá preferência ao futebol de ataque. Gosta que as suas equipas joguem no meio-campo ofensivo, que marquem golos." Rui Mota foi adjunto de Roger Schmidt no Beijing Guoan, na passagem pela China. "A escola alemã dá muita importância à preparação física, é algo que está sempre presente nos treinos, na preparação semanal para o jogo."

A pressão que exerce quando não tem a bola aponta à baliza contrária. "Joga ao ataque, para ganhar. Não se importa de sofrer dois ou três golos se marcar quatro ou cinco", sustenta.

Na relação com os jogadores, Rui Mota aponta a grande proximidade de Roger Schmidt com os atletas. "É uma equipa técnica grande, que gosta de dominar várias áreas. Um treinador simples, comunicativo, justo nas escolhas que faz, e os jogadores sentem e respeitam-no por isso."

Durante a passagem pela China, o técnico alemão escolheu Portugal para os estágios de pré-temporada, com passagem pelo Algarve. Expressa-se em inglês nos treinos, mas, para Rui Mota, a língua não limita a ação do treinador. "Weigl pode fazer essa ligação entre treinador e grupo, mas isto falando de situações mais específicas", atesta Rui Mota. "No quadro de jogadores internacionais do Benfica, a questão da língua não será um entrave para o trabalho do treinador", garante.

"Pode acrescentar valor ao futebol português porque tem qualidade. Ainda recentemente esteve em Portugal nesse duelo entre Benfica e PSV. Tivemos oportunidade de ver uma equipa organizada, capaz de entender os diversos momentos, algo que reflete a qualidade deste técnico", considera Rui Mota.

Mais tarde, em 2019, o alemão foi despedido do Beijing Guoan e deixou o país apenas com uma Taça da China conquistada. Faltou o título da liga, tal como mais tarde faltaria nos Países Baixos ao serviço do PSV.

A primeira grande decisão de Rui Costa

Em janeiro de 2022, quando recusou renovar pelo PSV, o nome de Roger Schmidt era equacionado na Bundesliga - associado ao Hertha de Berlim -, enquanto o Benfica acabara de resolver o contrato de Jorge Jesus, com Rui Costa a nomear Nélson Veríssimo para a equipa principal. O presidente do Benfica sabia que tinha apenas algumas semanas para projetar a primeira grande decisão como presidente do clube, a escolha do sucessor de Jorge Jesus.

Rui Costa faz uma escolha pessoal, a primeira grande decisão como presidente do Sport Lisboa e Benfica. Na bagagem, Roger Schmidt traz um modelo inegociável, uma ideia concreta sobre a construção de grupos no balneário, a ambição de renovar um plantel muito criticado, com muitos nomes que geram mais dúvidas do que certezas entre os associados.

Rik Elfrink aponta uma competência fácil de perceber em Schmidt. "Tem competências sociais de elevado nível. Cria uma relação, perspetivas, mesmo nos atletas que ficam no banco. Dessa forma, cria uma equipa ligada, onde todos sentem que podem ter uma oportunidade", indica o jornalista do Eindhoven Dagblad. Tem como desafio lidar com um plantel que não conquista títulos há três temporadas.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de