Silêncio que se vai falar do Rei Arantes

Edson Arantes do Nascimento poderá, à partida, nada dizer ao comum adepto do desporto-rei, mas, quando devidamente destrinçado, diz... tudo. Rei do próprio desporto-rei. Nem mais nem menos do que Pelé.

No dia 23 de outubro de 1940, nasceria, então, a maior lenda do futebol brasileiro, quiçá mundial. No país do samba, louco por futebol, emergiu um avançado temível, louco por abanar as redes adversárias, demoníaco com a bola no pé, veloz e possuidor de truques de feitiçaria. O mundo, ainda que na altura muito fechado, cujas notícias não fluíam (tanto), rapidamente se rendeu, até porque, como bom Rei que era, deixou uma profunda e inigualável marca no futebol planetário. Pelo "seu" Brasil, venceu três Campeonatos do Mundo, o que faz de si o jogador mais titulado a este nível e, por isso, com um lugar reservado no Olimpo futebolístico.

Doze foram os golos com que o Rei historiou a sua presença nas quatro edições em que esteve presente, entre 1958 e 1970, só não tendo, então, vencido em 1966, em Inglaterra. A canarinha muito deve a Pelé, mas mais o... futebol. Rapidamente se tornou no comendador de um jogo cada vez mais popular e em voga e, como tal, o seu expoente máximo. Como hoje Cristiano Ronaldo e Messi.

Foram, no total, 759 os golos anotados em apenas 817 jogos disputados a nível oficial, mas, tendo sido sempre o seu génio proporcional às muitas polémicas em que se vira envolvido fora de campo, (re)clama para cima de um milhar (mais precisamente 1281, no total de 1363 encontros disputados), fruto das muitas digressões feitas pelo seu clube de sempre, o Santos, em busca de mais dinheiro para os seus cofres, aproveitando a coqueluche que tinha à sua disposição. Para onde quer que viajasse o mítico clube, claro está, o Rei tinha também que ir. Sempre de forma, claro está, amistosa, tal como a sua personalidade. Ou não fosse a sua presença absolutamente... obrigatória.

Pelé dispensa, por isso, apresentações. Ou melhor, merece apresentações e contra-apresentações, na medida em que são escassos, atendendo à época que encantou e sambou nos relvados, os registos com que o mágico enfeitiçou brasileiros e adeptos do futebol por todo o mundo. Haja o que houver, aconteça o que acontecer, Pelé nunca morrerá na memória coletiva da comunidade futebolística, como qualquer rei que teve o privilégio de experienciar o trono. Neste caso, um trono de relva (ou mesmo pelado) e calçado com as indispensáveis chuteiras, das quais se produzia, tão simples e só, bruxedo. Ou magia. Consoante o livre arbítrio de cada um.

A sua dimensão como jogador foi, igualmente, proporcional ao tamanho do seu amor pelo Santos. Pelo Peixe, fez praticamente toda a sua (brilhante) carreira, apenas com exceção a uma reta final numa cidade à altura da sua dimensão. Em Nova Iorque, na cidade que nunca dorme e plena de glamour, ao serviço do na altura popular Cosmos, que servira de isco para os mais lendários jogadores do futebol mundial exibirem um último perfume antes da retirada, tal como Franz Beckenbauer, com quem partilhou o balneário, Pelé fechou o livro de uma história banhada a ouro, prata e bronze. Três anos no Soccer valeram-lhe a fama que faltava, junto de um público mais orientado para outros futebóis. Os States não mais viram o (verdadeiro) futebol de outra forma, até organizarem mesmo uma campanha mundial de grande envergadura quase duas décadas depois (em 1994) da retirada de Pelé, em 1977.

Pelo Santos, foram quase duas décadas de história e... muitos golos, no que será, para a eternidade, o maior da história do Peixe.

Para além dos golos a rodos, Pelé é, ainda hoje, considerado o autor do melhor não-golo da história dos mundiais de futebol. Mal terminou o jogo de estreia do Brasil no Mundial 1970, que viria posteriormente a vencer, o jornalista canarinho Nélson Rodrigues correu desenfreadamente para a máquina de escrever para eternizar tal obra-prima: "Por um fio que não entra o mais fantástico golo de todas as Copas. Passadas, presentes e futuras. Os checos parados [jogo diante da Checoslováquia], os brasileiros parados, os mexicanos parados [país onde se realizou o Mundial desse ano], viram a bola tirar o maior fino da trave. Foi um cínico e deslavado milagre não se ter consumado esse golo tão merecido. Aquele foi, sim, o momento de eternidade do futebol."

A curiosidade sobre tal lance levou, inclusive, físicos a recriarem o lance genial em computador. Cinco metros antes da linha do meio campo, Pelé desafiou a ciência e... o esférico, que percorreu 60 metros até ao destino final a cerca de... 105km/h! Desafortunadamente, a poucos centímetros do ângulo esquerdo da baliza da Seleção do país centro-europeu.

A dimensão de Pelé vai, por isso, além dos golos. Não era mero anotador, ainda que seja essa a função suprema num campo de futebol. Era também (muita) arte, técnica, habilidade, virtuosismo, inteligência, destreza e sagacidade. Era, simplesmente, Pelé. Ou, como o próprio recentemente confidenciou, em mais uma das muitas tiradas à Pelé, o melhor... de sempre: "Melhor do que Ronaldo e Messi? Já me fizeram essa pergunta várias vezes. Esquecem-se do Zico e do Ronaldinho Gaúcho. O pessoal fala sempre dos europeus, como Beckenbauer e Cruijff, mas não tenho culpa. Acho que o Pelé foi o melhor de todos eles. Por quê? Porque todos me comparam com eles."

André Rodrigues (A Economia do Golo)

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

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