UEFA admite tetos salariais: "Estamos a discutir todo o tipo de opções"

Em entrevista à TSF, o diretor do Fair-Play financeiro da UEFA explica que em cima da mesa está a possibilidade de se criarem tetos financeiros para os gastos dos clubes.

A UEFA discute neste momento a revisão dos modelos de licenciamento das equipas e as regras financeiras para o futebol na Europa. O diretor do Fair Play financeiro da UEFA explica em entrevista à TSF que, entre outras medidas em estudo, está a possibilidade de criar tetos financeiros para os gastos dos clubes. Andrea Traverso considera que são necessárias medidas de regulação mais diretas, para controlar gastos em ordenados ou transferências de jogadores.

Nesta conversa com o jornalista Tiago Santos, o responsável revela ainda que em discussão está também a obrigação dos clubes que participam nas provas da UEFA terem equipas de futebol feminino, bem como novas medidas que reduzam o impacto da pandemia no futebol.

De que forma é que a UEFA está a preparar as novas medidas no que diz respeito ao plano financeiro?

É necessário alterar regulamentos para que ajudem todos os clubes e quando digo todos os clubes é porque, como sabem, há diferentes estruturas de clubes: desde associações, a empresas, empresas detidas pelo setor publico, que pertencem a municípios, ao Estado, ou a regiões. E todos esses clubes têm planos de negócio diferentes.

Em Portugal, por exemplo, os planos dos clubes são, normalmente, a criação de talentos jovens para que depois esses talentos sejam exportados. Por isso, o modelo de negócio é desenvolver jogadores que quando estão num nível mais alto, deixá-los sair. As regras têm de ter em consideração as diferentes formas de negócio, os modelos legais, as diferentes estruturas. Aquilo que sair da negociação com os nossos parceiros será, com certeza, algo que ajude os clubes a enfrentar a crise. Queremos protegê-los contra os erros sistémicos do sistema de transferências. O sistema de transferências é muito importante para muitos clubes, e em particular para os clubes portugueses. Temos de garantir que as transferências são pagas porque, se os clubes deixarem de receber os créditos por essas transferências, teremos um efeito dominó em todo o lado. Esta área está a ser monitorizada de forma muito próxima.

Em Espanha, a liga criou uma série de regras que restringem os valores gastos em salários dos jogadores profissionais, com base nas receitas de anos anteriores. As regras são mais diretas e restritas dos que as do FairPlay financeiro da UEFA. É um modelo a seguir?

A liga espanhola tem feito um belíssimo trabalho. Introduziram um sistema que é bastante eficaz em Espanha. Conhecemo-lo bem, estamos a acompanhar este mecanismo de controlo cruzado "crosscontrol". Este tipo de tetos salariais de que fala é algo que está, em definitivo, a ser estudado. Não sei quando poderão ser adotados, ou se vão ser, isso é algo que tem de ser discutido neste momento, mas estamos a discutir todo o tipo de opções. Opções que estão, neste momento, em cima da mesa. Há de uma forma clara um consenso de que temos de apontar diretamente aos custos que representam os custos mais dispendiosos para os clubes de futebol. Falo dos valores de transferências e dos custos com salários dos jogadores.

O Fair Play financeiro fê-lo já, mas de uma forma indireta. Temos de apontar a esses custos, mas de uma forma mais direta, mas é demasiado cedo para dizer que tipo de regra pode ser a melhor opção para os países europeus. há que ter em consideração os diferentes enquadramentos legais de cada uma das 57 federações. E temos de ter em consideração o estatuto legal de cada um dos diferentes tipos de clubes.

Esta semana o jornal britânico The Telegraph revelou que está a ser discutido na UEFA um novo modelo para a Liga dos Campeões, com mais jogos entre "gigantes europeus", como resposta à proposta de criação de uma superliga europeia. Confirma este cenário?

É normal que existam debates porque temos um ciclo que está a terminar, em 2024, mas eu não quero fazer comentários sobre este tipo de artigos e especulação sobre cenários. São temas que têm de ser discutidos pelo presidente, pelo secretário-geral. As discussões estão a acontecer e vamos perceber nas próximas semanas, nos próximos meses, que soluções vão ser adotadas.

O que posso dizer é que, no que diz respeito a soluções de regulação financeira, devem servir as competições. Precisamos de um formato das competições, e depois de regulação financeira que se irá adaptar a esse formato que for escolhido.

No futebol feminino, é inevitável e desejável aumentar o número de participantes ou mesmo de provas europeias?

O futebol feminino é uma prioridade para a UEFA. No documento estratégico da UEFA é um dos pilares para o desenvolvimento da modalidade que definimos. Está no coração das políticas da UEFA. Há algumas decisões que já foram tomadas, como o alargamento do número de partidas da Liga dos Campeões, porque haverá uma fase de grupos; vamos ter mais jogos dos escalões jovens femininos. Este é um caminho para elevar o nível, mas não apenas com intervenção nas grandes provas que vamos fazer subir a fasquia, elevar o nível de profissionalismo

Introduzimos um sistema de licenciamento de clubes para o futebol feminino, há agora padrões mínimos que os clubes têm de cumprir. Estamos a trabalhar nas raízes. Se queremos ter mais popularidade do jogo das raparigas, temos de ter mais jovens a jogar futebol.

Uma das medidas necessárias para desenvolver o futebol feminino, pode passar por obrigar os clubes nas provas europeias a ter uma equipa feminina inscrita?

É algo interessante, algo que está sob discussão neste momento. Temos 237 clubes masculinos a competir nas Liga Europa e na Liga dos Campeões. Desses, 110, cerca de 40% deste clubes nas provas, que têm ou uma equipa sénior feminina ou equipas de formação. Neste momento, muitos clubes já têm equipas femininas.

Não creio que seja possível obrigar todos os clubes masculinos a ter uma equipa feminina sénior. Mas estou certo que é possível encorajar que todos os clubes possam ter uma equipa afiliada na região com uma equipa feminina, ou dar apoio a uma equipa feminina na região a que pertencem. Isto é aquilo em que acreditamos, é o mínimo que os clubes podem fazer.

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