Um whisky, uma colher e um cigarro, por favor!

"Estamos na mediania no conceito europeu. Relativamente ao futebol de alta competição, temos meia dúzia de jogadores com grande classe."

Esta frase poderia ter sido proferida nos últimos dias, no entanto foi lançada há décadas e o seu autor já não está entre nós. Foi este homem um visionário? Há quem diga que sim. José Maria Pedroto, ou simplesmente o "Zé do Boné", nasceu em Lamego a 21 de Outubro de 1928 e ficará para a eternidade como uma das maiores figuras da história do futebol português e, principalmente, do Futebol Clube do Porto.

Como jogador, Pedroto foi um dos melhores médios do futebol português. Franzino, compensava o pouco "cabedal" com a sua técnica fantástica. Por isso, em 1952 transferiu-se do Belenenses para o FC Porto, que já tinha representado nas camadas jovens. 500 contos foi o montante da transferência, valor recorde no futebol português, e 10 vezes mais que os 50 contos que o Belém tinha pago ao Lusitano de Vila Real de Santo António, cidade onde também cumpriu serviço militar. Em 1955-1956, chegaria a primeira grande glória com o dragão ao peito. O Porto conquistou a "dobradinha", que colocou termo a um jejum de 16 anos sem conquistar o campeonato, ao passo que a Taça de Portugal foi a primeira da história do clube. 3 anos mais tarde, Pedroto voltaria a conquistar o campeonato nas Antas, naquele que seria o último título ao serviço dos dragões enquanto jogador.

Depois de terminada a carreira de futebolista em 1960, Pedroto decidiu continuar o seu percurso no futebol no banco de suplentes. Então, primeiramente tirou o curso de treinador na AF Porto e, depois, um outro em França organizado pela Federação Francesa de Futebol. E fê-lo com distinção, tendo sido um dos melhores do curso e o único estrangeiro a receber o diploma. E foi pelos seus serviços como treinador que Pedroto terá para sempre lugar cativo entre os maiores de sempre do futebol português. Aos 34 anos, a primeira experiência como treinador principal ao serviço da "Briosa", à qual se seguiram Leixões e Varzim, antes de chegar à sua "cadeira de sonho", corria o ano de 1966. Ao leme do seu Porto conquistaria uma Taça de Portugal, contudo não obteve a grande alegria de ser campeão nacional. Em 1969, Pedroto saiu pela porta pequena e de costas voltadas com a direcção liderada por Afonso Pinto Magalhães. Na base do problema esteve um castigo imposto a alguns elementos do plantel e, em Assembleia Geral, Pedroto é mesmo banido do clube.

Do Porto, o Zé do Boné muda-se para a cidade do Sado. Com a sua mestria, Pedroto conduziu o Vitória local a um dos períodos mais gloriosos da sua existência. Apesar da final da Taça de Portugal perdida em 1972/1973, o VFC conseguiu às mãos de Pedroto a melhor classificação de sempre, com o segundo lugar na época 1971/1972. Além disso, atingiu por 2 vezes os quartos de final da Taça Uefa, tendo mesmo eliminado o gigante Liverpool FC de Bill Shankly. No final da época de 1972/1973, Pedroto abandona o Bonfim e, mais uma vez, em conflito com a direcção, por não concordar com algumas atitudes do presidente. Era hora de voltar à Invicta Cidade do Porto, mas para treinar o Boavista. No Bessa, o homem de Lamego faz mais um trabalho notável. Leva o Boavistão à conquista de 2 Taças de Portugal e ao segundo lugar no campeonato, mais uma vez perdido para o Benfica.

Após 2 épocas no Bessa, era o momento de concluir um trabalho que ficou inacabado. Foi proposto em Assembleia Geral o perdão a Pedroto, que foi aprovado pela direcção de Américo de Sá e dá-se então a mudança para as Antas, que já não via o seu Porto campeão desde 1959, com Pedroto ainda no 11. No entanto, o Zé do Boné impôs uma condição: que Jorge Nuno Pinto da Costa fosse o chefe do departamento de futebol dos azuis e brancos. Sobre este afirmou um dia: " Jorge Nuno Pinto da Costa, para além de ser um cidadão respeitável, afirmou-se como um competentíssimo dirigente. A ele se deve, em grande parte, a projecção que o FC Porto atingiu a nível nacional e europeu. O tempo há-de fazer-lhe justiça." Na primeira temporada no comando técnico do Porto, os dragões vencem a Taça de Portugal, a terceira consecutiva de Pedroto, para no ano seguinte conquistarem o campeonato, 19 anos depois.

Em 1980, depois de ter sido bi-campeão português, Pedroto abandona o Porto. Mais uma vez! No Verão Quente daquele ano, Américo de Sá destituiu Pinto da Costa do seu cargo e o treinador solidarizou-se com este contra o presidente, que acusavam de ser submisso a Lisboa. Então, Pedroto seguiu para o Minho, onde orientou o Vitória durante 2 épocas. Consigo para Guimarães rumou Artur Jorge, que foi seu adjunto e, ambos, levaram os minhotos ao quarto e quinto posto na tabela. Em 1982, Pinto da Costa vence as eleições e traz Pedroto de volta à Invicta pela quinta (terceira como treinador) e última vez. Porém, o mestre já estava doente! Tanto este como Pinto da Costa sabiam desse facto, mas seguiram em frente com os seus intentos. Pedroto é operado em Novembro de 1982 no Reino Unido e seria, um ano mais tarde, a 4 de Dezembro de 1983 que se sentaria no banco de suplentes do FC Porto pela última vez. Nessa época, os portistas venceram a Taça e chegaram à final da Taça das Taças, perdida para a Juventus por 2-1 em Basileia. Pedroto viu o jogo na televisão.

A 7 de Janeiro de 1985 partiu José Maria Pedroto. Rezam as crónicas que o seu último desejo foi beber whisky por uma colher e fumar o último cigarro. Já doente, o Zé do Boné ajudou à fundação daquele que se viria a tornar campeão da Europa, infelizmente já sem o seu grande mentor entre nós. Isto mostra o carácter de um homem rebelde e revolucionário, mas que sempre deu tudo o que tinha pelos seus. Quase até ao último suspiro! E em relação ao seu último desejo, espero que tenha tido força para o concretizar!

Miguel Batista (A Economia do Golo)

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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