"Vais para um jogo no Mundial e o trânsito para porque há vacas no meio da rua"

Paulo Grilo é treinador de guarda-redes e esteve com a seleção da Índia de sub-17 no último Mundial. Em 10 anos, passou por sete países, incluindo pelos Estados Unidos, onde treinou Kaká.

Nunca treinou em Portugal e leva já uma década como treinador de guarda-redes. Paulo Grilo tem muita experiência, mas toda conquistada no estrangeiro: Arábia Saudita, Irão, Bulgária, Cabo Verde, Estados Unidos da América e Índia.

O nome mais sonante nesta década de carreira de Paulo Grilo é mesmo Kaká, estrela brasileira e antigo melhor jogador do mundo, que há pouco anunciou o fim da carreira. Cruzaram-se no Orlando City e, para o brasileiro, o treinador português só tem elogios.

"Foi fantástico, porque ter a capacidade e o privilégio de trabalhar com ele durante um ano como pessoa tão fantástica, não só como jogador, mas também como pessoa. É sempre triste ver um jogador desses partir mas ao mesmo tempo, depois de uma carreira brilhante, e acabar como ele acabou, é sempre muito bonito, vai deixar todos com lembranças e memórias muito boas."

E histórias com Kaká? Paulo Grilo prefere contar uma entre Kaká e a comunidade que, para o português, revelam a pessoa que o brasileiro é. "Ele sendo tão especial, como sabes na Flórida há uma grande comunidade brasileira, nunca o vi durante 10 meses de um época negar uma foto ou autógrafo. Muitas vezes havia discussões de pessoas que iam lá para estar com ele no fim do treino e ele por vezes ficava mais de uma hora, hora e meia depois de almoço, iam todos embora e ele ficava lá a tirar fotografias com toda a gente. Era incapaz de ir embora sem cumprimentar, tirar fotos e assinar camisolas com todos. Isso é fantástico, raramente um jogador faz isso."

Sobre o soccer norte-americano, Paulo Grilo explica que é muito diferente e que a principal diferente é mesmo não haver pressão. "O futebol está em desenvolvimento, cada vez é mais importante, mas é muito diferente, não há a pressão dos resultados, não despedem treinadores. O resultado não é o mais importante, mas sim o bem-estar das famílias, dos sócios, de tudo o que envolve o antes e o depois dos jogos. Nós estamos habituados à pressão dos resultados, à adrenalina de quando perdes ficares chateado. Ali passa tudo ao lado. O mais importante é a atmosfera e os resultados financeiros do clube, que é gerido como uma empresa."

Para exemplificar essa diferença, Paulo Grilo dá como exemplo o primeiro jogo da temporada de 2016. "O jogo de abertura de 2016 do Orlando City contra o New York City tinha 70 mil pessoas no estádio e reunimo-nos às 17h30 quando o jogo era às 19h. Não existem estágios. Vamos ter ao campo, Kaká, Júlio Baptista, David Villa, Lampard, todos. Tanto que o Pedro Santos foi para lá e frisou logo isso. Não há pressão, é desfrutar do futebol de uma maneira diferente de na Europa."

Paulo Grilo passou também pela Bulgária, mais concretamente pelo CSKA Sofia. Trabalhou com Stoycho Mladenov, antigo jogador que passou muitos anos em Portugal, e assistiu de perto como é ser Hristo Stoichkov na Bulgária. "Não trabalhei diretamente com o Stoichkov, era o diretor desportivo, trabalhei com o Mladenov, que jogou no Belenenses e Estoril. O CSKA é o equivalente ao Benfica, é um clube grande, estádio sempre cheio, fãs que invadem o centro de estágio, chegámos a parar treinos. O Stoichkov é uma figura ímpar na Bulgária, se sair à rua para tudo, é uma figura mediática."

Mais recentemente, Paulo Grilo esteve na Índia, de onde está de saída, para o Mundial de sub-17. Sai pelo próprio pé, porque do país e das pessoas só tem coisas boas a dizer. "A Índia foi uma aventura bonita porque foi durante o Mundial. Uma preparação para um Mundial, uma prova que nunca esperei na vida poder desfrutar. O Mundial de sub-17 bateu todos os recordes de assistência, os estádios estavam cheios. O futebol está em crescimento e a paixão é muito grande. Viveres aquela cultura em que vais para um jogo importante e tens de parar enquanto as vacas, que são sagradas, não decidirem sair da estrada."

O treinador não tem dúvidas que os portugueses estão cada vez mais conceituados na profissão, especialmente depois de Mourinho e todos os que seguiram as suas pisadas. "Depois da abertura que o Mourinho nos deu e no pós-Mourinho, com outros treinadores com conquistas fantásticas, como o Manuel José, Jesualdo Ferreira, Toni, Carlos Carvalhal, Paulo Bento, Paulo Sousa, todos esses treinadores abriram portas e o treinador português é dos treinadores mais conceituados em qualquer parte do mundo. Já trabalhei em sete países diferentes em que somos vistos como bons no que fazemos, muito profissionais e cada vez mais valorizados. Todos procuram o treinador português, que não vai só pelo dinheiro, mas pelo seu profissionalismo e dedicação. Com as condições que os outros países oferecem somos melhores que os outros treinadores."

Paulo Grilo diz já ter recebido alguns convites e que espera um dia poder trabalhar em Portugal, mas acredita que, mais uma vez, o próximo desafio irá passar pelo estrangeiro.

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